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Europa

2003-11-22

EUROPA/ITÁLIA - NARRAR PARA TENTAR ABALAR A INDIFERENÇA: O PAPEL DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO PELA PAZ, ANALISADO NO SEMINÁRIO DE ESTUDOS SOBRE “JORNALISMO E CONFLITOS”

Roma (Agência Fides) – Os meios de comunicação não devem instigar ao confronto e à violência, apesar de existirem conflitos que devem ser veiculados, e diante dos quais o silêncio seria uma forma de cumplicidade. Esta constatação foi a base das discussões da jornada de estudos sobre “Jornalismo e conflitos”, que se realizou no dia 21 de novembro na Pontifícia Universidade Santa Cruz de Roma.
No encontro, do qual participaram enviados de guerra de diversos meios, especialistas da comunicação e docentes universitários, evidenciou-se que “se a paz é consequência da justiça, o jornalista contribui para a paz na medida em que a sua informação jornalística sobre os conflitos é submetida muitas vezes a pressões externas. Durante a jornada, falou-se de alguns desses condicionamentos: os protagonistas do conflito têm interesses bem precisos a serem defendidos e fazem de tudo para orientar em benefício próprio o discurso informativo; a opinião pública desenvolve um papel seja de “vítima” como de árbitro; o acesso às fontes é difícil e os próprios jornalistas e a mídia sentem-se inclinados a tomar partido. Além disso, em alguns casos, como por exemplo o terrorismo, as partes em jogo procuram de maneira deliberada fazer propaganda através da mídia.
Diante de situações de conflito, cabe ao jornalista – ou a seu veículo – avaliar a situação com critério profissional e averiguar os fatos, ponderar as razões em jogo, as motivações, os antecedentes e as possíveis consequências. O jornalista vai procurar tomar consciência da situação de maneira igualitária. Com esse tipo de atitude, pode-se evitar dois extremos: “conflitualizar” os conteúdos para incrementar artificialmente o interesse jornalístico – e de outro lado – vigiar certos conflitos que mereceriam ser conhecidos.
"Imparcialidade – destacou o professor Diego Contreras, da Faculdade de Comunicação da Universidade Santa Cruz – quer dizer agir com um sentido de justiça, e não é sinônimo de neutralidade, expressão que poderia ser também equívoca. Diante dos abusos dos direitos humanos, por exemplo, não se pode ser neutral.”
Na mesa-redonda sobre “Correspondentes de guerra: narrar para mudar a situação”, enviados e repórteres se interrogaram sobre a possibilidade de um jornalismo que faça da verdade e da justiça seus principais instrumentos de trabalho. Segundo Toni Capuozzo, do Tg5 (telejornal italiano do grupo Mediaset), mesmo sendo difícil conseguir mudar de maneira positiva a realidade da situação, os correspondentes de guerra devem procurar com o próprio trabalho “abalar a indiferença” dos espectadores. "O caminho que entrevejo para que alguma coisa possa mudar – afirmou Capuozzo – está no modo como conduzir a narração da verdade sobre os fatos, respeitando a dignidade dos protagonistas e das pessoas a quem se dirige.”
"É muito difícil que a situação mude – declarou Elisabetta Piqué, correspondente do La Nación (Argentina) -; basta ver a guerra no Afeganistão, rapidamente esquecida assim que foi concluída.” Intervieram também o free-lance Giorgio Fornoni, que apresentou uma pesquisa sobre a situação na Tchetchenia (ex-União Soviética), e Ferdinando Pellegrino, do Jornal Rai Radio, que convidou os correspondentes de guerra a apreciarem as realidades mais próximas a nós para poder “narrar melhor o que está fora”. Além disso, diante do atual panorama internacional, recordou que o verdadeiro “revolucionário da paz no mundo, mas não em um sentido político, foi João Paulo II ".
Interessante foi a intervenção de Felio Vilarrubias (Univ. Autônoma de Barcelona) sobre o repórter da AP-TV, Miguel Gil, assassinado em Serra Leoa em 2000. “Miguel tinha feito da verdade sua melhor arma e a considerava a única estrada em direção à paz e à justiça. Não permaneceu indiferente ao que registrava – disse o relator – e se declarava correspondente de guerra em contato com o homem que sofre; não era um acaso que procurava ser sempre o último para assumir o sofrimento humano onde quer que se expressasse ". Vilarrubias ilustrou com numerosos exemplos como Miguel conseguia tornar compatível a prioridade ao ser humano com as imagens que registrava. De fato, Miguel Gil, assassinado com apenas 32 anos, foi definido por Christiane Amanpour (CNN) como um dos repórteres mais inteligentes da sua geração. Na sua breve carreira, o repórter da AP-TV recebeu, entre outros prêmios, o "Royal Television Society" (2000).
Por sua vez, padre Piero Gheddo do PIME (Pontifício Instituto Missões Estrangeiras) apresentou, de acordo com experiências vividas em primeira pessoa, uma tipologia de conflitos “esquecidos”, sobre muitos dos quais “existe até mesmo uma falta de informação dentro dos próprios países interessados”. São situações que “não apresentam um prato apetitoso para o mundo ocidental”. Todavia, padre Gheddo declarou-se convicto de que “a mídia conta muito para construir a paz, a partir da constatação que nenhum povo quer a guerra".
A jornada de estudos propôs uma leitura em termos concretos, relativos à atividade jornalística, da Mensagem de João Paulo II para o XXXVII Dia Mundial das Comunicações: “Os meios de comunicação social a serviço de uma autêntica paz à luz da Pacem in terris'. Uma sessão do Congresso foi dedicada a “Uma leitura da Pacem in Terris à luz da atividade jornalística".
(S.L.) (Agência Fides 22/11/2003 – Linhas 68; Palavras 865)

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