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Africa

2003-07-19

ÁFRICA/R.D. DO CONGO - “SER PATRIOTAS SEM DEIXAR DE SER IRMÃOS DOS HABITANTES DOS PAÍSES EM GUERRA COM O NOSSO”: OS DESAFIOS À EVANGELIZAÇÃO NO CONGO. ENTREVISTA DA AGÊNCIA FIDES AO ARCEBISPO DE KISANGANI.

Kinshasa (Agência Fides) – “ O Senhor lança aos seus discípulos da África dos Grandes Lagos o desafio de uma vida integral conforme o Evangelho” disse à Agência Fides Dom Laurent Monsengwo Pasinya, Arcebispo de Kisangani e Presidente do CSEAM ( Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar), falando da situação de guerra que está vivendo o seu País, a república democrática do Congo (RDC) e os outros estados da região dos Grandes Lagos (Burundi, Ruanda e Uganda). A RDC está atravessando uma fase delicada de sua história após a posse do novo governo de unidade nacional em 17 de julho. A primeira reunião do novo poder executivo foi adiada, porque os ministros provenientes de dois movimentos rebeldes não aceitaram jurar fidelidade ao Presidente Joseph Kabila.
Dom Monsengwo conferiu a Agência Fides a seguinte entrevista:

O seu País, desde 1.998, vem sendo abalado por uma guerra civil que já fez pelo menos 3 milhões de vítimas. Existem sinais de esperança?

Os últimos progressos, em particular o acordo para a adoção de uma constituição de transição e a formação de novas instituições políticas (governo, parlamento e magistratura) são importantes sinais de esperança, ainda que lentos e enfraquecidos por possíveis conflitos.

Como é possível continuar a obra de evangelização em um país dividido pela guerra? Como fazer progredir a paz e a reconciliação?

a guerra sempre comporta para a Igreja e para a Evangelização diversos desafios. Em primeiro lugar, toda e qualquer guerra divide os homens e as mulheres em dois ou mais campos. A Igreja deve combater esta divisão tomando iniciativas que demonstram que esta é o sacramento da unidade do gênero humano, como ensina o Concílio Vaticano II. O segundo lugar, a guerra coloca em perigo a vida. A Igreja deve proclamar o Evangelho da vida, chamando a atenção de todos sobre o crime da banalização da vida humana. Em terceiro lugar, como diz a carta pastoral do Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar (SCEAM), intitulada “Cristo é a nossa paz” (Cf 2,14), “a guerra e o conflito começam sempre – já em seu estado latente – quando um direito é violado”. A Igreja deve denunciar as violações dos direitos humanos e proclamar que não existe paz duradoura sem a justiça. No caso do nosso país, a Igreja deve insistir em soluções fundadas no diálogo e não nas armas, e no pleno respeito dos direitos dos Estados (integridade territorial e soberania internacional), dos direitos da pessoa e daqueles da comunidade, Em quarto lugar, a guerra provoca a difusão em larga escala de sentimentos de ódio, vingança e xenofobia. A Igreja, sacramento do perdão e da reconciliação, deve proclamar o Evangelho do perdão, da reconciliação e da fraternidade. “Não existe justiça sem o perdão” (João Paulo II). Na República Democrática do Congo (RDC), como no restante da África, a Igreja católica adotou o conceito de “Igreja – família de Deus”, como “cavalo de batalha” na luta contra a guerra: não pode matar o teu irmão e a tua irmã. A família não é por si um lugar de brigas e de conflito, mas de harmonia e de paz.

Quais são os outros desafios para a Igreja na república democrática do Congo?

Além dos quatro primeiros desafios lembrados (ser testemunhas da unidade do gênero humano, do Evangelho da vida, da paz, da justiça, do perdão, da reconciliação e da fraternidade), existe um outro desafio para os cristão: ser patriotas sem cessar de ser irmãos dos outros habitantes dos países em guerra com o nosso. Para dizer a verdade, o Senhor lança aos seus discípulos da África dos Grandes Lagos o desafio de uma vida conforme o Evangelho integral.Contudo, é difícil ser fiel à experiência teologal em uma situação de guerra prolongada. Por fim, o grande desafio é aquele da oposição preferencial dos pobres, dos abandonados, dos refugiados e dos desabrigados, um povo cuja a miséria não cessa de crescer; isto pode fazer levantar os cabelos dos responsáveis pela Igreja.

Quais são as conclusões da Assembléia Plenária dos Bispos do Congo ocorrida em Kinshasa, de 7 a 12 de julho?
Esta reunião da Assembléia Plenária era um pouco especial. ocorreu de fato durante a visita pastoral em nosso país do Cardeal Crescenzio Sepe. Isto comportou dois tipos de reuniões de trabalho: de uma parte, os encontros do cardeal prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos com todos os Bispos reunidos na sede da Conferência Episcopal Nacional do Congo (CENCO) e, junto a Nunciatura Apostólica, com as assembléias provinciais; de outra, as reuniões da CENCO. Estas últimas comportaram o exame dos relatórios das Comissões Episcopais da CENCO, a aprovação dos novos estatutos das Faculdades católicas de Kinshasa (FCK), que se tornarão a Universidade católica do Congo (UCC), a aprovação dos novos estatutos do clero diocesano do Congo e o exame dos estatutos do laicato católico. Além disso, a Assembléia Plenária constatou a persistência de uma ausência de vontade política na pesquisa de soluções adequadas para o povo congolês. Convidou as pessoas chamadas a gerenciar as coisas públicas a desempenharem com consciência esta tarefa, e toda a população a empenhar-se na via do perdão, da reconciliação e da paz.
(L.M) (Agência Fides 19/07/2003 – linhas: 74; palavras: 893)

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