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JUSTIÇA E TRANSPARÊNCIA NAS
ELEIÇÕES
Carta Pastoral dos Bispos de Moçambique
Às Comunidades Cristãs, A todos os moçambicanos,
A todos os homens e mulheres de boa vontade!
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I. SAUDAÇÃO
1. Nós, os Bispos Católicos de Moçambique,
solícitos em servir e confirmar os irmãos na fé,
e empenhados em colaborar na promoção do bem de
todos os moçambicanos, saudamo-vos com afecto, espírito
de comunhão e solidariedade convosco. Em vésperas
das Eleições Autárquicas no nosso País,
desejamos que a busca da paz, a corresponsabilidade, a participação
política e o zelo pelo bem comum, em ordem à melhoria
das condições de vida de todos, movam permanentemente
as vossas mentes e os vossos corações. Graça
e Paz vos sejam dadas em abundância (1a Ped 1,2).
II. INTRODUÇÃO
2. Durante a guerra civil,a Igreja em Moçambique desempenhou
um papel preponderante na dinamização do diálogo
para a reconciliação nacional. Após o Acordo
Geral de Paz, a Igreja muito colaborou no restabelecimento das
instituições democráticas.
3. A Igreja, porém, não se pode confundir com a
comunidade política do País, nem se pode aliar a
um sistema político ou partido. No entanto, ela é
perita em humanidade e é sinal e salvaguarda da dignidade
da pessoa humana. Ela está ao serviço da vocação
pessoal e social dos homens, assim como o Estado. Por isso deve
haver entre a Igreja e o Estado uma cooperação sem
interferência na especificidade de cada uma. (Vaticano II,
GS, n0 76)
4. Estando ao serviço da pessoa humana, hoje e aqui, em
Moçambique, esta Igreja não pode ficar indiferente
aos próximos eventos políticos (Eleições
Autárquicas e Gerais) que constituirão um grande
marco do processo democrático no País, para a consolidação
da Paz e melhoramento das condições de vida do povo
Moçambicano. A escolha certa de candidatos idóneos,
comprometidos ao serviço do bem comum e da justiça
e reconciliação, para dirigirem os destinos dos
municípios e da nação, constitui um passo
de vital importância para a solução dos problemas
que afectam a sociedade moçambicana e retardam o progresso
do País.
5. Lembremos-nos de que os nossos processos eleitorais têm
sido, até hoje, a maior ameaça e perigo à
paz que se vive e se deve consolidar em Moçambique. As
últimas eleições (1999) perturbaram gravemente
a vida da ação e violaram gratuitamente a nossa
jovem democracia e não respeitaram devidamente a seriedade
dos eleitores. Há pois que evitar que as próximas
eleições sejam assim.
6. “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as
angústias” dos Moçambicanos e Moçambicanas
“sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também
as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias”
da Igreja em Moçambique “e nada existe de verdadeiramente
humano que não encontre eco em seu coração”
(cfr Vaticano II, GS 1). Por isso, a Igreja em Moçambique
apela a todos os Moçambicanos e a todas as Moçambicanas
para reflectirmos a sério sobre a realidade sociopolítica
e económica na qual vivemos, e para assumirmos o grave
desafio de escolhermos, através do voto, nas próximas
Eleições Autárquicas e Gerais, os candidatos
capazes de solucionar os problemas que afectam a sociedade moçambicana
e melhorar as suas condições de vida e de conduta
ética.
7. Olhando para o tempo que decorreu desde as últimas Eleições
Autárquicas em 1998 e Gerais em 1999 apresentamos, neste
documento, uma breve análise da situação
que se vive em Moçambique, seguida de uma reflexão
sobre as Eleições e sua importância na consolidação
da Paz e Democracia. A seguir apresentamos algumas considerações
sobre as Autarquias Municipais e alguns aspectos do perfil do
candidato à Presidência do Município. Tendo
em conta ainda as experiências do passado e do presente,
apontamos alguns desafios que nos colocam as próximas Eleições
Autárquicas e concluimos o nosso documento com uma exortação.
III. REFLEXÃO SOBRE A REALIDADE SOCIOPOLÍTICA
E ECONÓMICA DO NOSSO PAÍS
Após as últimas Eleições Autárquicas
e Gerais alguns aspectos sociopolíticos têm melhorado,
lenta e gradualmente, enquanto outros merecem redobrados cuidados.
O medo e a corrupção
8. O nosso povo, sobretudo nas zonas do interior, ainda se encontra
atormentado pelo medo perante alguns factos que impedem o normal
desenvolvimento da justiça e, consequentemente, do processo
democrático, tais como: intimidações de vária
ordem, prisões sem culpa formada, prisões preventivas
que excedem os prazos regulamentados pela lei, repressões
violentas em diversas manifestações, distúrbios
durante o processo das Campanhas Eleitorais,... Tudo isto cria
um clima de medo que não é favorável a um
processo eleitoral livre e dificulta a consolidação
do processo democrático. Assim, os órgãos
de administração da justiça não podem
ainda gozar da plena confiança do povo. É urgente,
pois, criar e aplicar mecanismos concretos e correctos para que
estas anomalias sejam vencidas pelo exercício dos direitos
democráticos.
9. Reconhecemos, contudo, que alguns aspectos do medo, na nossa
sociedade, estão sendo, gradualmente, ultrapassados. Os
acontecimentos que envolveram o processo do julgamento do caso
"Carlos Cardoso" são sinais de que uma significativa
parte da sociedade moçambicana está tomando a sério
a problemática da busca da justiça, e que o poder
judicial, apesar de tudo, começa a agir.
10. Apelamos, entretanto, aos órgãos da Justiça,
a que lutem pela liberdade que lhes é de direito, levem
avante outros processos de julgamento de crimes organizados e
comecem a trazer a lume, de forma isenta, os mandantes desses
crimes e lhes apliquem as penas que a Justiça preconiza.
Assim, estarão contribuindo para erradicar o medo e a corrupção
que pairam entre os cidadãos e consolidar o exercício
efectivo dos direitos democráticos.
O fosso entre ricos e pobres e as assimetrias
11. Enquanto uma minoria continua a enriquecer de forma não
transparente, uma grande maioria do povo vai sendo empobrecida,
com todas as consequências que daí podem resultar.
Por outro lado, sente-se que o tratamento dos cidadãos
não respeita o princípio da igualdade de direitos
e deveres entre todos.
§ É deplorável a situação de
assimetrias regionais que se verificam em muitos aspectos da vida
dos cidadãos colocando grande parte deles em condições
incompatíveis com o desenvolvimento e o bem-estar desejáveis.
Esta situação verifica-se em diversos aspectos da
vida dos moçambicanos: na educação, na saúde
e assistência sanitária, no comércio, nos
transportes e comunicações, na habitação,
etc.
§ Condenamos a grande desigualdade de oportunidades entre
os habitantes da cidade e do campo que faz com que estes sejam
empurrados para o mundo da marginalização.
§ Condenamos igualmente a diferença de tratamento
dos cidadãos na base da raça, do sexo, da cor político-partidária,
das condições sociais, económicas, e da origem
regional.
§ Não podemos deixar de referir, com indignação,
a situação de disparidades de compensação
salarial entre técnicos superiores moçambicanos
e seus pares estrangeiros ao serviço da mesma entidade
patronal.
§ Embora se notem significativos esforços para a dignificação
e promoção da mulher, o povo moçambicano
debate-se ainda com a discriminação da mulher nos
mais diversos aspectos da vida: o acesso à escolaridade
em muitas regiões do nosso País é proporcionado
mais ao rapaz que à rapariga; o aceso ao emprego continua
ainda a beneficiar mais o homem que a mulher.
§ É alarmante o contínuo e crescente número
de crianças de rua, fenómeno que ensombra as nossas
cidades e algumas vilas.
§ São tristes e desoladoras a discriminação
e a marginalização da camada da sociedade moçambicana
constituída por portadores de deficiência física
e mental.
12. Estes e outros dados que evidenciam a diferença de
oportunidades para a formação integral do cidadão
moçambicano, bem como para a aquisição dos
meios de produção, deixam claro que a distribuição
equitativa de bens e serviços não está sendo
ainda uma realidade no nosso País. Há toda uma urgência
em que sejam tomadas medidas concretas e correctas, por quem de
direito, para inverter a situação em ordem à
construção e conquista de relações
democráticas, para um Moçambique mais humano, mais
justo e mais fraterno.
Deficiência do plano de desenvolvimento económico
13. Enquanto, por um lado, sentimos a implementação
do plano de desenvolvimento económico orientado teoricamente
para a redução da pobreza absoluta e para a macroeconomia,
com todos os aspectos positivos que isto implica, constatamos,
todavia, que a melhoria da qualidade de vida do moçambicano
caminha em marcha muito lenta. Continua a crescer o desemprego
que delega ao informal a responsabilidade da segurança
económica. E o informal orienta-se apenas para a sobrevivência.
Estamos a caminho de um País que pode vir a ser rico e
a população continuar a viver abaixo do limiar da
pobreza absoluta. Os salários, embora sejam revistos de
quando em vez, continuam sendo de fome porque não respondem
às exigências mínimas de uma vida digna e
não acompanham a subida do custo de vida. A grande maioria
dos cidadãos que vivem nos centros urbanos, não
consegue adquirir normalmente os géneros de primeira necessidade,
devido ao seu elevado custo, nem tem facilidades de aquisição
ou construção de uma habitação condigna
para a família. Quanto aos habitantes do campo, é
dolorosa a situação de falta de infraestruturas
de produção, a dificuldade de acesso ao mercado
e ao crédito, e, em grande parte, a falta de acesso à
educação, à saúde, à água,
à justiça e uma série de bens e serviços.
Vive-se ainda numa grave insegurança económica.
Educação
14. A educação joga um papel importante para o reconhecimento
e uso, por cada cidadão, das oportunidades para o desenvolvimento
da sua personalidade, para o alcance do bem-estar pessoal e colectivo
e não menos para o gozo dos seus direitos cívicos.
Neste âmbito,é visível o esforço do
Estado e da Sociedade Civil para o aumento do número dos
estabelecimentos de ensino e dos professores, desde o fim da guerra
até ao momento, aumentos esses que se repercutem num maior
acesso dos moçambicanos à educação
formal. Este melhoramento, no entanto, ainda não consegue,
de longe, proporcionar a cada moçambicano a possibilidade
de gozar o seu direito à educação. O Sistema
de Educação debate-se com o aumento constante de
procura de lugares para o ingresso nas instituições
de ensino, desde o pré-primário até ao superior.
Para além disso verifica-se que, mesmo para os que estão
dentro do Sistema de Educação, a qualidade de educação
que se lhes é oferecida é baixa, caracterizada,
sobretudo, pela orientação para a alfabetização
e formação académica, sacrificando o saber
fazer, o saber ser e o saber estar com os outros. Por outras palavras,
queremos aqui referir-nos à falta de uma educação
técnico-profissional, à promoção e
valorização da educação formal e não
formal, à ausência da educação cívica,
ética e moral. Apelamos a que se dê a devida atenção
à extrema importância da definição
de políticas de educação e legitimação
do saber que permitam a participação de todos e
a integração de diversos modelos num movimento que
promova uma educação para todos.
Saúde
15. O real aumento de infraestruturas no sector da saúde
pode, infelizmente, conduzir à idéia de que o acesso
à saúde de qualidade está a ser melhorado
para todos. Na prática, verifica-se que os pobres, que
constituem a maioria, são segregados pela falta do poder
financeiro. São extremamente chocantes as condições
em que os doentes pobres são atendidos e hospitalizados
na maior parte dos centros de saúde e hospitais estatais
do nosso País. Igualmente são reportados vários
casos de mau atendimento dos doentes pelo pessoal da Saúde.
16. Das doenças que mais atormentam o povo moçambicano
contam-se a malária, a tuberculose, o HIV/SIDA, a diarréia
e várias infecções intestinais. Devido à
ameaça que a propagação do HIV/SIDA constitui
para o capital humano, esta doença é, actualmente,
objecto de grande preocupação. Por causa desta preocupação
tem-se descurado algumas causas que favorecem a propagação
do HIV/SIDA e dificultam, aos seropositivos, uma vida longa. Mencionamos
como exemplos, a falta de perspectivas de vida de muitos moçambicanos,
que ajudaria a estimar a vida, a prevalência de doenças
como a malária, a diarréia e várias infecções
intestinais, e problemas ligados à nutrição,
cuja erradicação reforçaria o sistema imunológico,
etc.
17. A Igreja continua a acreditar que a fidelidade conjugal e
a abstenção, antes do casamento são um caminho
seguro para travar a propagação do HIV/SIDA e apoia
todos os esforços científicos que possam ajudar
a salvar vidas e a garantir o futuro do nosso País e da
humanidade.
Agricultura
18. Parece que o objectivo da agricultura ainda está sendo
orientado unicamente para a subsistência e não para
o desenvolvimento. Este problema afecta mais de 60% da população
que vive no campo onde a camada mais prejudicada são as
mulheres, as responsáveis pela machamba. O agricultor não
tem estímulos e incentivos para estimar a sua profissão
que é a responsável do sustento das cidades. É
fraca, por quem de direito, a preocupação de organizar
o camponês em ordem ao aumento da produção
agrícola, à melhoria da sua qualidade, à
criação de reservas alimentares, à facilitação
ao acesso ao mercado, e a empréstimos bancários.
Transportes e Comunicações
19. Há um certo aumento quantitativo dos transportes rodoviários
sobretudo nas cidades, com o crescimento dos "chapas".
Lamentamos, todavia, que a qualidade destes meios de transporte
deixe ainda muito a desejar. Por um lado, os transportes colectivos
e semi-colectivos de passageiro, nas cidades, ainda são
insuficientes e não cobrem as necessidades dos cidadãos.
Por outro lado, os poucos existentes transportam pessoas em condições
que constituem um atentado frontal à dignidade humana.
São muitos os casos em que os vulgos “chapas”
semeiam a morte, por circularem sem as mínimas condições
de segurança e por os respectivos motoristas não
respeitarem as regras de trânsito, na sua condução.
20. Na maior parte das zonas rurais, os transportes de passageiros
são inexistentes e, quando existem, os seus proprietários
não prestam atenção à segurança
das pessoas, não manifestam sensibilidade pela dignidade
humana, preocupando-se mais com o aspecto de lucro do que de serviço.
21. Os serviços de telefonia e rádio, televisão
e informação em geral estão à disposição
somente das populações das capitais do País
e das províncias. Em diversas sedes de distritos, os serviços
básicos de comunicação, a telefonia, a rádio,
ou são inexistentes ou obsoletos.
22. O País não está ainda a dar a devida
atenção às vias de comunicação
terciárias. Por falta delas e, consequentemente, por falta
de transportes, a grande maioria da população rural
não tem acesso aos produtos de primeira necessidade e aos
serviços essenciais, nem pode comercializar os excedentes
da sua produção.
23. Como interligar a maioria da população, que
vive no campo, ao desenvolvimento, se ela não pode comunicar-se
nem locomover-se por falta de meios de transporte, para alcançar
a escola, o hospital, o mercado?
Cidadão, objecto de intervenções políticas
24. De uma forma geral, constata-se que o cidadão, no nosso
País, é objecto de intervenções políticas
e não o sujeito principal. O cidadão comum continua
ainda, em grande medida, refém de promessas enganadoras
e demagógicas que, muitas vezes, ou não são
realizadas ou não são realizáveis. São
raros os partidos políticos que se preocupam em ir escutar
e saber das preocupações e reais necessidades das
populações, para tomá-las como base dos seus
projectos de governação. Por outro lado, o povo
não tem uma educação cívica que lhe
permita organizar-se para expor as suas reais necessidades aos
políticos.
25. É necessário e urgente um trabalho de educação
cívico-política para as populações,
em ordem a que elas saibam organizar-se para identificar correctamente
as suas reais necessidades e possam expô-las aos políticos
que queiram obter os seus votos. Mas é também necessária
e urgente uma educação aos políticos, para
que saibam escutar as populações com o objectivo
de conhecerem os anseios das mesmas para inseri-los em seus programas
de governação. Em simultâneo com as duas propostas
acima, é necessário e urgente que as novas gerações
comecem, desde a Escola, a participar deste processo democrático:
para tal, urge incluir nas escolas o programa de educação
e participação cívico-política.
Individualismo institucional
26. Nota-se a tendência de um individualismo institucional
que faz com que grande parte de instituições, partidos,
ONG’s, religiões, se orientem mais para si próprias
do que para a busca do bem comum. Não se sente ainda, salvo
raras e tímidas excepções, a preocupação
de montagem de um plano global em ordem à realização
de um trabalho conjunto para reforço da identidade nacional.
O mesmo se verifica também ao nível do Governo e
da Oposição. Há, por isso, toda uma necessidade
e urgência de um estudo sério e profundo, com o objectivo
de criar mecanismos que ajudem a realizar, em comum, tudo o que
concorra para o bem público sem, todavia, interferir nas
especificidades de cada organismo.
IV. ELEIÇÕES - IMPORTÂNCIA DO ACTO
ELEITORAL
27. Nestes dois anos, (2003 e 2004) vamos ter Eleições
no nosso País (Autárquicas e Gerais) que são
os factores propícios para mudar todo este conjunto de
situações que acabamos de citar.
28. As Eleições são a maior expressão
de Democracia que é o governo exercido pelo povo. Por isso,
quando o cidadão participa nas eleições começa
já a governar ainda antes dos eleitos começarem
a organizar e exercer a administração da governação.
Nas Eleições o cidadão não é
apenas consultado, mas participa activamente na análise
dos programas e candidatos que vão melhorar a qualidade
de vida de todos os cidadãos do seu Município e
do País.
29. As Eleições constituem a melhor oportunidade
para o cidadão exercer o seu direito de liberdade de escolha.
Para tal, o cidadão não deve votar coagido por qualquer
força estranha. Por isso o voto é secreto, isto
é, ninguém pode ser obrigado a dizer em quem vai
votar ou em quem votou. O voto é pessoal, pois que cada
pessoa vota por si e ninguém pode votar em nome do outro.
O voto é livre, quer dizer, o cidadão não
pode ser coagido ou ameaçado a escolher este ou aquele
candidato, nem deve sofrer retaliações por causa
do seu voto. O cidadão deve votar livremente no programa
e no candidato que ele julgar, em consciência, ser a alternativa
para o desenvolvimento do Município e do País.
30. As Eleições são a forma privilegiada
pela qual o cidadão exerce o seu direito e dever de participar
na melhoria de condições de vida dele próprio
e do seu povo. O Processo Eleitoral não termina com a simples
indicação do programa e do candidato que vai realizar
esse programa. Ele inicia com esta escolha e indicação,
tanto do programa quanto do candidato, e continua com o acompanhamento
do desempenho do cidadão ou cidadãos eleitos. O
cidadão que vota ou elege tem autoridade e obrigação
de fiscalizar para ver se os programas de desenvolvimento propostos
estão sendo cumpridos ou realizados. No decurso do mandato
dos eleitos, o cidadão tem o direito e o dever de se expressar
para corrigir os desvios de administração do programa
aprovado. Em caso de incumprimento das obrigações,
por parte dos eleitos, o cidadão tem o direito e o dever
de escolher outros candidatos, nas eleições seguintes.
31. As Eleições são uma ocasião especial
para o cidadão exercitar e exercer o respeito pela opinião
dos outros. Se a maioria dos cidadãos escolher programas
e candidatos diferentes dos da sua preferência, por respeito
à opinião dos outros, o que faz parte integrante
do jogo democrático, o cidadão tem a oportunidade
de dar o seu voto de confiança à maioria e trabalhar
em sintonia com esta maioria para que os programas aprovados sejam
cumpridos para o bem de todos. Na verdade, a nossa liberdade termina
onde começa a dos outros.
32. Por tudo quanto ficou dito, compreendemos facilmente que Votar
é um acto muito importante e de grande responsabilidade
política e democrática. Com o seu voto consciente,
o cidadão eleitor assume a responsabilidade de uma boa
governação do Município ou do País.
Se fizer uma má escolha o eleitor deve sentir-se co-responsável
por esta situação e não deverá queixar-se
de que os dirigentes eleitos não servem os interesses do
povo.
33. No Acto Eleitoral há quem elege e quem é eleito.
Para quem é eleito, o acto eleitoral tem um valor crucial
porque lhe permite participar no desenvolvimento socioeconómico
como servidor do povo. Por isso é um erro muito grave candidatar-se
com o objectivo de ascender ao poder, de se enriquecer facilmente
e de se tornar grande. O cidadão que é eleito, no
caso das Eleições Autárquicas, encontra-se
em melhores condições de fazer uma boa gestão
do bem público ajudando assim a construir um Município
mais humano, mais justo e mais fraterno.
34. Apelamos a que todo o cidadão eleito se comprometa
verdadeiramente a fazer do seu mandato um serviço aos seus
concidadãos, aos seus irmãos munícipes.
V. AUTÁRQUIAS MUNICIPAIS - O MUNICÍPIO
35. Neste ano (2003) vamos ter Eleições Autárquicas.
Aceite o princípio de que todo o cidadão deve participar
nas decisões que dizem respeito ao País, as Eleições
Autárquicas (no próprio Município) são
a forma mais privilegiada de participação na vida
sociopolítica.
36. O Município funciona como um pequeno Estado dentro
de um grande Estado. No Município quase todos se conhecem
ou, pelo menos, já se ouviu falar da pessoa que se candidata
a Presidente do Município e até os nomes dos futuros
vereadores e deputados municipais. Assim, o eleitor poderá
fazer a escolha da pessoa certa para presidir os destinos do Município,
bem como os nomes de todo o Governo Municipal.
37. Nas Eleições Autárquicas o eleitorado
de cada Município escolhe não só o Presidente,
como também, uma Assembléia Municipal, isto é,
uma espécie de Parlamento ao nível da circunscrição
municipal.
38. É no Município que o respectivo eleitorado inicia
o exercício da democracia e dos direitos e deveres de cada
munícipe, (cidadão residente dentro da área
da circunscrição municipal), quer escolhendo quem
vai governar o Município, quer assumindo o Poder Político
Municipal, quer controlando e exigindo uma acção
Governativa Municipal adequada e desejada por todos os munícipes.
39. Por isso apelamos para o livre e necessário exercício
de voto de cada eleitor municipal. Uma boa Administração
Municipal contribui, de forma decisiva, para uma boa Administração
Pública de todo o País.
40. Nas Eleições Autárquicas, o munícipe,
ao dar o seu voto, deve escolher conscientemente o programa e
as pessoas mais correctas que conhece, porque residem na circunscrição
municipal onde ele também reside e vão resolver
os problemas da vida real local. O voto não deve ser dado
ao Partido Político, mas a uma determinada pessoa que garanta
que vai cumprir os programas e presidir os destinos da Autarquia
Municipal. Esta eleição personalizada permite ao
eleitor ajuizar o valor do candidato quanto à sua competência
e eficiência, às suas qualidades de trabalho e à
garantia da sua honestidade e transparência dos seus actos
na implementação do programa que o próprio
eleitor aprova.
41. O Governo Municipal não depende do Governo Central.
O Governo Municipal responde perante o seu eleitorado, os munícipes.
Deste modo, o munícipe tem a possibilidade de conhecer
e fiscalizar a acção de cada Autoridade Municipal.
E a fiscalização incide sobre aquilo que as autoridades
municipais fizeram ou deixaram de fazer. Mas, além de acompanhar
e fiscalizar as pessoas escolhidas para a administração
do Município, o munícipe tem também o direito
e o dever de dar sugestões necessárias para melhorar
os programas de governação municipal.
42. Por lei, para garantir a participação dos munícipes
na condução dos destinos do Município, as
sessões da Assembléia Municipal são de livre
entrada, podendo cada munícipe levantar questões
municipais, indagar o Presidente do Conselho Municipal a razão
de ser desta ou daquela situação do Município,
como se gastou o dinheiro, quer do Orçamento Geral do Estado,
quer das receitas próprias arrecadadas pelo Município,
as taxas municipais referentes aos serviços prestados pelo
Conselho Municipal, os pequenos impostos municipais ou ainda as
receitas de venda de bens do Município.
43. Se, para todo o cidadão é um dever participar
na gestão do Município, para o cristão torna-se
um imperativo da própria fé. A Doutrina Social da
Igreja deixa bem claro que um mundo mais humano, mais fraterno
e mais justo não vai ser um presente, mas uma conquista.
Cada cristão é chamado a participar deste projecto,
por força da própria fé. “O desenvolvimento
integral... tem a ver com o âmago da Evangelização”
(A Igreja em África, 68). O cristão que se omitir
deste dever, além de se manifestar como péssimo
cidadão, participa do pecado social da omissão e
legitima a corrupção e todo o mal sociopolítico.
Ao cristão não são permitidos nem a letargia,
nem a indiferença, nem o medo das mudanças, nem
o conformismo, nem o desespero.
44. É dever da Igreja participar na Educação
Cívica para esclarecer o povo sobre os seus direitos e
deveres. Por isso, as Comissões Sociais da Igreja, as Dioceses,
as Paróquias devem programar e realizar intervenções,
em conjunto com todas as forças organizadas da Sociedade
Civil, para sensibilizarem os cidadãos a serem eles próprios
a dizer o que querem, para que as decisões saiam da base
para o topo e não o inverso.
VI. PERFIL DO CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DO
MUNICÍPIO
45. Antes de eleger, o cidadão deve estudar com cuidado
os candidatos e as qualidades que deve ter um candidato à
Presidência do Município. Precisamos de escolher
pessoas certas para o lugar certo e no momento certo.
46. O candidato à Presidência do Município
deve:
§ Conhecer a realidade do Município, isto é,
os problemas políticos, sociais e económicos do
Município;
§ Saber explicar aos munícipes, de forma objectiva,
como irá resolver os problemas que o programa proposto
poderá levantar;
§ Ser honesto e recto na sua vida privada e no seu relacionamento
com as pessoas;
§ Saber respeitar a dignidade humana, a justiça, a
liberdade e todos os direitos humanos;
§ Ser maduro, transparente, dedicado, aberto ao diálogo
e tolerante;
§ Manifestar a vontade real de servir aos munícipes
e não ser ambicioso do poder e da riqueza;
§ Interessar-se realmente pela solução dos
problemas do Município;
§ Comprometer-se em realizar os programas com o objectivo
de melhorar efectivamente a vida dos munícipes;
§ Ser capaz de lutar contra a corrupção, a
criminalidade e outros males sociais.
VII. DESAFIOS QUE NOS COLOCAM AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES
Comissão Nacional de Eleições (CNE)
47. A Comissão Nacional de Eleições (CNE),
nos termos da lei orgânica, deve ser constituída
por elementos politicamente isentos de qualquer tendência
ideológica ou político-partidária. Infelizmente,
as nossas CNEs, quer em 1998, quer em 1999, não foram bem
sucedidas.
48. A CNE tem grandes responsabilidades na aceitação
ou não dos resultados eleitorais. A isenção,
a transparência e a legalidade dos actos do processo eleitoral
constituem o melhor instrumento da consolidação
do processo democrático do País.
49. A Democracia Moçambicana pode ser destruída
se a CNE não conquistar a confiança de todas as
Forças Políticas concorrentes ao acto eleitoral
e, principalmente, da Sociedade Civil.
50. Um dos desafios que nos colocam as próximas eleições
é o da existência de uma CNE que prime pela isenção,
eficiência, transparência e legalidade dos actos eleitorais.
51. Apelamos para a responsabilidade e honestidade dos membros
da CNE, a fim de não se deixarem corromper nem influenciar
por quaisquer interesses ideológicos ou político-partidários.
Secretariado Técnico de Administração Eleitoral
(STAE)
52. O Secretariado Técnico de Administração
Eleitoral deve ser constituído de cidadãos democratas,
isentos. Assim o impõe a sua natureza de um Departamento
Estatal, para uma objectiva apreciação e execução
de actos eleitorais tais como: o recenseamento e a actualização
dos cadernos eleitorais, a realização do acto eleitoral
propriamente dito, o registo e apuramento dos resultados, permitindo
a fiscalização de todas as forças concorrentes,
de forma a acompanhar todo o processo de apuramento.
53. Um isento, competente e diligente STAE é uma garantia
certa de que os vencedores e os vencidos aceitarão naturalmente
os resultados finais da contagem dos votos.
54. Se os políticos, os partidos e os eleitores acreditarem
e confiarem na eficiência, isenção e transparência
dos órgãos eleitorais, porque de facto são
pessoas credíveis e não foram colocados naquele
lugar de forma obscura, as Eelições contribuirão
para a consolidação da democracia e consequentemente
do bem-estar da sociedade.
Participação, em massa, no Processo Eleitoral
55. O Processo Eleitoral só se justifica e é aceitável
se para ele concorre o maior número de eleitores. Nas primeiras
Eleições Autárquicas, em 1998, 85% de eleitores
não votaram, o que foi muito negativo. A abstenção
permite a possibilidade de se introduzirem nas urnas votos direccionados
dos eleitores que se abstiveram de votar. A abstenção
significa favorecer e consolidar a situação de injustiça
e de corrupção existentes.
56. Se todas as pessoas recenseadas forem votar, não será
fácil a tentativa de fraude, porque na urna não
pode aparecer um número de votos superior ao do eleitorado
registado em cada mesa de voto.
57. A participação, em massa, de todos os cidadãos
em condições de votar, é o grande desafio
que nos colocam as próximas Eleições Autárquicas,
para podermos usufruir dos benefícios das eleições.
A abstenção é uma decisão negativa,
porque é uma recusa a um direito inalienável.
58. Para não se repetir o triste episódio das abstenções
havidas nas Eleições Autárquicas de 1998,
com todas as consequências negativas que disso advieram,
apelamos para a maior afluência possível de eleitores
inscritos no caderno e recenseamento eleitoral, sobretudo dos
jovens.
Uma adequada fiscalização
59. Para assegurar que, tanto a votação quanto o
apuramento dos resultados sejam transparentes e isentos de todos
os malefícios da corrupção e da injustiça,
há que assumir o grande desafio da organização
de uma equipa de observadores e fiscais qualificados.
60. Apelamos à criação de mecanismos sérios
e eficazes que permitam uma justa observação e fiscalização
da votação e do apuramento dos seus resultados onde,
além de observadores internacionais, os políticos
e os diversos sectores da Sociedade Civil organizada possam participar.
Campanha Eleitoral
61. A Campanha Eleitoral é o momento em que Programas,
Partidos e Candidatos se apresentam ao povo com o dever de explicar
claramente as suas propostas em vista a uma futura administração.
É um momento de festa e de exercício de direitos
cívicos dos moçambicanos, de reencontro e demonstração
da vontade de partilhar, de democracia, de consolidação
da Paz. Lembremo-nos de que foi o diálogo, e não
a violência, que permitiu chegarmos ao estado actual de
Paz e Reconciliação e elevemos os nossos valores
morais e espirituais durante a fase da Campanha e Propaganda Eleitoral.
62. Apelamos a que na próxima Campanha Eleitoral os eleitores,
lembrando-se das palavras do Evangelho “...que vos ameis
uns aos outros” (Jo 15, 17), façam tudo o que estiver
ao seu alcance para que não se repitam episódios
de violência, perturbações, provocações
e agressões que aconteceram no passado.
63. Para os partidos e candidatos, o nosso apelo é que
o lema da sua conduta ética seja: “saber ganhar,
saber perder”.
Papel da Polícia
64. Partindo do princípio de que as Eleições
devem ser uma festa, e para que elas decorram em ambiente de uma
sã participação cívica, apelamos a
que a Polícia assuma o seu papel de protecção
do cidadão, independentemente da sua filiação
partidária e zele pela manutenção da lei
e ordem, sem extremismos, não intimidando nem favorecendo
ninguém, nem antes, nem durante o Processo Eleitoral.
Meios de Comunicação Social
65. O bom êxito de todo o Processo Eleitoral, desde o Recenseamento,
passando pela Campanha e Propaganda Eleitoral e Organização
das Assembleias de Voto (Eleição e Processo de Votação),
até ao Apuramento dos Votos, depende, em grande medida,
do bom desempenho dos Meios de Comunicação Social.
Por isso, apelamos a que os Meios de Comunicação
Social trabalhem com imparcialidade, rigor e objectividade na
informação, sem favoritismos, sem manipulações
de espécie alguma e sem agitar os fantasmas do passado.
Partidos Políticos
66. Por ocasião da Campanha Eleitoral os partidos políticos
têm tido a oportunidade de “tempo de antena”
para poderem exprimir-se diante do povo. Apelamos a que aproveitem
ao máximo esse tempo para fazerem conhecer os seus programas
e propósitos das respectivas candidaturas.
Observadores Internacionais
67. Os observadores internacionais não devem ser meros
expectadores, mas observadores de facto e de direito. Apelamos
pois a que tenham um papel activo, imparcial e isento de favoritismos
para que a vitória das Eleições Autárquicas
seja a vitória dos respectivos munícipes e do Povo
Moçambicano.
VIII. CONCLUSÃO
Exortamos a todos os Moçambicanos e a todas as Moçambicanas
de boa vontade e, particularmente a todos os que acreditam em
Deus e aos fiéis das Igrejas Cristãs e da Igreja
Católica, para que façam do Acto Eleitoral uma manifestação
política da sua Fé e do seu compromisso ao bem comum
integral do País. Apelamos a todos os crentes para que
peçam a Deus que as próximas Eleições
Autárquicas sejam uma verdadeira festa da Cultura de Democracia
e Paz no País.
Maputo, 28 de Agosto de 2003
Os Bispos Católicos de Moçambique
Dom Jaime Pedro Gonçalves, Arcebispo da Beira e Presidente
da CEM
Dom Tomé Makweliha, Arcebispo de Nampula e Vice - Presidente
da CEM
Dom Januário Machaze Nhangumbe, Bispo Emérito de
Pemba e Secretário Geral da CEM
Dom Paulo Mandlate, Bispo de Tete e Vogal do Conselho Permanente
da CEM
Dom Adriano Langa, Bispo Auxiliar do Maputo e Vogal do Conselho
Permanente da CEM
S. Eminência D. Alexandre José Maria dos Santos,
Cardeal- Arcebispo Emérito de Maputo
D. Luís Gonzaga Ferreira da Silva, Bispo Emérito
da Lichinga
D. Alberto Setele, Bispo de Inhambane
D. Bernardo Filipe Governo, Bispo de Quelimane
D. Júlio Duarte Langa, Bispo de Xai-Xai
D. Francisco João Silota, Bispo de Chimoio
D. Germano Grachane, Bispo de Nacala
D. Manuel Changuira Machado, Bispo de Gurué
D. Francisco Chimoio, Arcebispo de Maputo
D. Hilário da Cruz Massinga, Bispo de Lichinga |