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Às portas das eleições
legislativas
Orientações dos Bispos da Guiné-Bissau
à luz da Palavra de Deus e da doutrina social da
Igreja
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Dada a proximidade das eleições legislativas,
a Igreja Católica achou conveniente dirigir a todos os
católicos e a todas as pessoas de boa vontade a presente
mensagem, consciente de assim estar cumprindo seu papel de servidora
do povo guineense.
"À Igreja compete anunciar sempre e em toda a parte
os princípios morais, mesmo de ordem social, bem como emitir
juízos acerca de quaisquer realidades humanas na medida
em que o exijam os direitos fundamentais da pessoa humana ou a
salvação das almas" (Cân. 747). A Igreja
terá sempre uma palavra qualificada a dizer no referente
à dimensão ética de toda a vida política.
Para o cristão, todo o discernimento deve ser feito num
duplo confronto: a) com o realismo dos acontecimentos e das circunstâncias,
e b) com as exigências da nossa fé, iluminadas pela
Palavra de Deus e pelo ensinamento social da Igreja.
1. Palavra de Deus e política
Gostaríamos, logo no início, apresentar a visão
da Palavra de Deus (Salmo 101[100]), sobre o perfil do homem político
ideal, segundo a catequese de João Paulo II aquando da
audiência geral de 30 de Abril de 2003. Eis o texto do salmo
e, a seguir, o comentário.
Salmo 101 (100)
1 Celebrarei o amor e a justiça: para Vós, Senhor,
hei-de cantar.
2 Quero seguir pelos caminhos dos perfeitos, quando vierdes ao
meu encontro;
procederei com nobreza de coração no ambiente de
minha casa.
3 Não porei diante dos meus olhos acções
iníquas;
odeio os caminhos dos rebeldes, não me haverei de contagiar.
4 Longe de mim o coração enganador; não
quero saber do homem mau.
5 O que caluniar em segredo o seu irmão, exterminá-lo-ei;
o homem arrogante e orgulhoso de coração, não
o poderei suportar.
6 Os meus olhos vão para os fiéis do meu país,
hão-de permanecer comigo;
o que segue por caminhos honrados será o meu servo.
7 Não haverá morada em minha casa para o homem
fraudulento;
aquele que fala mentiras não terá assento diante
de mim.
8 Em cada manhã julgarei severamente todos os ímpios
da nação;
para exterminar da cidade do Senhor todos quantos praticam o
mal.
O salmo 101 pertence ao grupo dos salmos chamados reais. No entanto,
ele difere de outros poemas do mesmo género. O salmo poderia
intitular-se: "Um programa de governo".
Na primeira estrofe (vv. 2-3), o jovem soberano revela como é
que entende comportar-se na sua vida privada; na segunda estrofe
(vv. 4-5), ele expõe a sua visão sobre a escolha
de seus colaboradores; na terceira estrofe (vv.6-7), formula os
princípios que lhe servirão de orientação
na governação de seus súbditos.
Este salmo apresenta-nos, portanto, o perfil do homem político
ideal, cujo modelo de vida deveria ser o comportamento divino
na governação do mundo: um comportamento baseado
numa perfeita integridade moral e no engajamento firme contra
as injustiças.
Fala-se primeiro, de modo positivo, das grandes virtudes morais
que iluminam a vida do rei justo:
- a sabedoria, que ajuda a bem compreender e a saber julgar;
- a inocência, que é a pureza do coração
e da vida;
- a integridade da consciência, que não tolera compromissos
com o mal.
A seguir, apresenta-se o empenho do rei em lutar contra toda
a forma de maldade e de injustiça, de modo a afastar da
sua casa e das suas próprias opções toda
a perversão de ordem moral.
O salmo sublinha ainda a importância dos dons essencialmente
públicos e sociais. Também neste caso, apresenta-se
uma lista de pontos essenciais de uma vida que entende rejeitar
o mal com veemência e firmeza.
Antes de tudo, a luta contra a calúnia e a delação
secreta (v. 5), um compromisso fundamental numa sociedade de tradição
oral, que atribuía uma importância particular à
função da palavra nas relações interpessoais.
O rei, que exerce igualmente a função de juiz, anuncia
que, nesta luta, dará prova da maior severidade: fará
perecer o caluniador. Rejeita-se também toda a arrogância
e o orgulho; recusa-se a companhia e o conselho daquele que procede
sempre servindo-se de engano e de mentiras (v. 7).
Enfim, o rei declara como entende escolher seus "servos",
quer dizer, seus ministros. Ele os escolherá com cuidado,
"entre os fiéis do país". Ele deseja ser
rodeado de pessoas íntegras e recusa o contacto com "aquele
que fala mentiras".
2. Doutrina social da Igreja e política
No seu ensinamento social, a Igreja inspira-se na palavra de
Deus para traçar orientações que sirvam seja
aos políticos e governantes na gestão das tarefas
públicas, seja aos cidadãos no exercício
dos seus direitos civis e na colaboração com os
responsáveis da nação.
Na escolha dos representantes do povo para os cargos públicos,
os cidadãos deveriam ter presentes as características
acima apresentadas ao traçar o perfil do político
ideal. Os cristãos, em particular, deveriam fazer própria
a visão da Igreja acerca de alguns valores, tais como:
- A integridade moral, honestidade e competência dos servidores
da sociedade;
- O respeito pelo carácter sagrado[1] e inviolável[2]
da vida humana;
- O respeito pela religião e pela liberdade de consciência
e de culto[3];
- A promoção da dignidade da pessoa humana, excluindo
discriminações de classe, sexo, etnia, etc.;
- O respeito pela família, santuário da vida, fundada
sobre o matrimónio, que o estado tem o dever de apoiar,
defender, proteger, para que ela possa cumprir plenamente a sua
missão.
A Igreja incentiva todos os cristãos a participarem activa
e conscientemente na vida política.
"Todos os cidadãos se lembrem do direito e simultaneamente
do dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista
da promoção do bem comum. A Igreja louva e aprecia
o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação
e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos homens…
Os partidos políticos devem promover o que julgam ser exigido
pelo bem comum, sem que jamais seja lícito antepor o próprio
interesse ao bem comum… Os que são ou podem tornar-se
aptos para exercer a difícil e muito nobre arte da política,
preparem-se para ela e procurem exercê-la sem pensar no
interesse próprio ou em vantagens materiais. Procedam com
inteireza e prudência contra a injustiça e a opressão,
contra o arbitrário domínio de uma pessoa ou de
um partido, e contra a intolerância. E dediquem-se com sinceridade
e equidade, mais ainda, com caridade e fortaleza política,
ao bem de todos" [4].
3. Importância do próximo acto eleitoral
na Guiné-Bissau – Opção responsável
dos cidadãos
• As eleições são sempre importantes
na vida de qualquer sociedade democrática e seu direito
inviolável. Elas proporcionam a todos os cidadãos,
que atingiram a maioridade, a possibilidade de exercerem os seus
direitos civis, elegendo os seus representantes para os cargos
públicos no país. Qualquer escolha tem consequências
no governo e na vida da nação. Importa escolher
bem, seguindo os critérios atrás referidos. Cada
cidadão tome consciência das suas responsabilidades,
sem se deixar influenciar nem pela simpatia ou antipatia, nem
eventualmente por donativos recebidos; não escolha de maneira
precipitada ou irreflectida, mas procure informar-se cuidadosamente
acerca da idoneidade ou não dos candidatos.
• Na situação actual da Guiné-Bissau,
as eleições assumem uma importância particular.
Reflictamos um pouco sobre a história recente do nosso
país. Diz-se, com razão, que a história é
mestra da vida. Na nossa Exortação de 3 de Setembro
de 2002 falávamos da situação sócio-económica
desastrosa em que se encontrava o país, mergulhado na agitação
política e na instabilidade. Perguntávamo-nos: "Como
e porque chegámos até aqui? Saídos da guerra
de 1998-99, que nos custou tanto sofrimento, todos pensávamos
que iríamos recompor o país… Ora, isto não
aconteceu e as perspectivas futuras não são nada
animadoras". Se analisarmos o que aconteceu depois da guerra,
as opções económicas e políticas feitas
pelos responsáveis da nação, e mesmo o estilo
de governação, parece-nos que não se buscou
de maneira clara e decidida o bem comum. É esta, na nossa
opinião, a raiz de todos os nossos males. Agora as eleições,
neste momento delicado da vida da nação, oferecem-nos
uma oportunidade privilegiada para sairmos do impasse, para criarmos
as condições para uma mudança radical no
estilo da governação, através da escolha
de representantes do povo competentes e honestos, que na sua personalidade
e no seu programa apresentem uma orientação firme
para o bem comum. Este povo guineense, pobre e sofredor, tem todo
o direito de exigir, aos candidatos que sairão vencedores
das eleições e aos novos governantes, que sirvam
os cidadãos com sentido de responsabilidade, e que não
se sirvam do seu cargo e do dinheiro público que irão
manejar para enriquecerem abusivamente à custa do povo,
recorrendo a subterfúgios, engano e mentiras.
4. Apelo final
Lançamos um vibrante apelo aos responsáveis políticos,
para que privilegiem todos os meios que possam conduzir-nos à
verdadeira paz. Sobre eles impende a pesada responsabilidade de
agirem para garantir a paz, para si mesmos, suas famílias,
todas as famílias guineenses, toda a nação
guineense. Que saibam, portanto, transcender suas divergências,
seus interesses egoístas, suas ambições pessoais,
a sede inextinguível de conquistar a todo o custo o poder
por meios desleais, para privilegiarem o interesse superior da
Nação, o bem comum, isto é, a preocupação
pelo bem-estar de todos os guineenses e pela prosperidade do país.
E enfim, a todos os cristãos e a todos os homens de boa
vontade lançamos as recomendações seguintes:
- que a campanha eleitoral possa decorrer num clima de paz verdadeira,
sem qualquer recurso à violência física ou
psicológica, às ameaças ou intimidações;
- que, durante a campanha eleitoral, os candidatos saibam respeitar
os valores da verdade, do realismo e da tolerância, tanto
nas críticas aos adversários, como na apresentação
de projectos concretos para o melhoramento da vida social guineense;
- que os eleitores possam escolher livremente e em consciência,
optando decididamente pelos melhores projectos que lhes forem
apresentados, e tendo também em atenção a
credibilidade política e moral dos candidatos. Porque não
basta apenas ter projectos valiosos; são necessárias
também pessoas política e moralmente idóneas
que os levem à prática;
- que a recolha e controlo dos votos sejam efectivamente transparentes
e que os resultados, assim legitimamente obtidos, sejam depois
respeitados por todos os candidatos e eleitores, em espírito
de verdadeira democracia;
- que, quaisquer que sejam os resultados das eleições,
se ultrapassem rapidamente as brigas partidárias e prevaleça
em todos o espírito de colaboração e o compromisso
responsável na procura do bem da Nação.
Empenhemo-nos todos seriamente na construção duma
sociedade baseada nos valores autênticos da paz, da reconciliação,
da justiça e da solidariedade.
Que Deus ilumine as nossas escolhas e abençoe a nossa
Terra!
Bissau, 1 de Março de 2004
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[1] "A vida do homem provém de Deus, é dom
seu, é imagem e figura d’Ele, participação
do seu sopro vital. Desta vida, portanto, Deus é o único
senhor: o homem não pode dispor dela" (Carta Encíclica
Evangelium Vitae, nº 39).
[2] "A Igreja nunca se deu por vencida perante todas as
violações que o direito à vida, que é
próprio de cada ser humano, tem sofrido e continua a sofrer,
tanto por parte dos indivíduos, como mesmo até por
parte das próprias autoridades. O titular desse direito
é o ser humano, em todas as fases do seu desenvolvimento,
desde a concepção até à morte natural,
e em todas as suas condições, tanto de saúde
como de doença, de perfeição ou de deficiência,
de riqueza ou de miséria" (Exortação
Apostólica Christifideles Laici, nº 38).
[3] "O poder civil deve assegurar eficazmente, por meio
de leis justas e outros meios convenientes, a tutela da liberdade
religiosa de todos os cidadãos, e proporcionar condições
favoráveis ao desenvolvimento da vida religiosa, de modo
que os cidadãos possam realmente exercitar os seus direitos
e cumprir os seus deveres, e a própria sociedade beneficie
dos bens da justiça e da paz que derivam da fidelidade
dos homens a Deus e à Sua santa vontade" (Declaração
sobre a Liberdade Religiosa do Concílio Ecuménico
Vaticano II (DH), nº 6).
[4] Constituição pastoral do Concílio Ecuménico
Vaticano II A Igreja no mundo actual (GS), nº 75. |