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Para os mais pequeninos
CRIANÇA NO CAMINHO DA NOSSA CONVERSÃO
(Exortação dos Bispos para a Quaresma 2004)

Irmãos e irmãs na fé em Jesus Cristo

1. Deus, o Pai da misericórdia, dá-nos ainda, para este santo tempo da Quaresma 2004, ocasião privilegiada de voltarmos para Ele de todo o coração e de estarmos mais atentos às necessidades dos nossos irmãos. Nós, os vossos Bispos, exortamos-vos a deixardes-vos guiar pelo Espírito da Verdade para caminhar no seguimento de Cristo. "Aproximemo-nos pois com toda segurança do trono da graça, afim de obter misericórdia e alcançar graça de ser auxiliados a seu tempo" (Heb 4, 16).

2. O caminho percorrido pelo Filho de Deus, é o da Cruz, o mesmo é dizer o do Amor. O Amor sem medida com que o Pai nos ama, foi-nos revelado efectivamente em Jesus Cristo e por Ele. Este Amor, distribuído nos corações pelo Espírito que habita em nós, motiva o nosso ímpeto em relação ao próximo e justifica o serviço que nós prestamos em particular aos mais pequenos, mais humildes e mais pobres.

Entre estes "mais pequenos" e como ressalta da mensagem da Sua Santidade o Papa João Paulo II para a Quaresma de 2004, as crianças reterão a nossa atenção.

O lugar da criança na tradição africana

3. Na tradição africana a criança é entendida como um dom de Deus. Desde a sua concepção, é desejada, esperada e amada.

Embora a educação fosse incumbência em primeiro lugar dos seus pais, de sua família, era também compreendida como um dever de toda a sociedade. O comportamento dos adultos em face da criança, era portador de uma carga afectiva, mesmo se pelo meio, a rigidez e o rigor de certas regras nem sempre favoreciam o seu desabrochar imediato. A criança era vista, justamente, como riqueza da família e da sociedade. E então, longe de incomodar ou de provocar medo, a prole numerosa era acolhida como sinal de benção divina.

4. Hoje, compreendemos, certamente que não há lugar para idealizar o passado:

- Antes da iniciação, por exemplo, a palavra da criança não tinha nenhum peso, nem na família, nem na sociedade;

- Existiam formas de mutilação e de exploração das crianças (excisão, casamentos precoces, casamentos forçados...). Sabemos que tais práticas persistem ainda sob a capa da tradição;

- A taxa de mortalidade infantil é ainda muito elevada em certas regiões, por causa da falta de higiene e interdições alimentares que privam o organismo da criança das proteínas necessárias ao seu crescimento harmonioso.

5. Contudo, apesar de tais erros observáveis aqui ou ali, permanece que a tradição africana deixou-nos uma bela herança do seu projecto pedagógico e do seu cuidado com a criança. O que fazemos dela?

A criança, na encruzilhada da tradição e da modernidade

6. Confrontados com os desafios da modernidade, as sociedades africanas não escapam ao sismo que abala as bases tradicionais da educação, e mesmo a visão da pessoa humana e da vida.

Como corolários da modernidade, a urbanização galopante, o acesso das mulheres ao emprego, a precariedade da conjuntura económica suscitaram uma psicose da família numerosa. Constata-se que o modelo da família tem tendência a ultrapassar a família numerosa que era conhecida no alvorecer das independências.

7. A Igreja jamais editou leis a favor da família numerosa ou da família nuclear. Ela defende a paternidade/maternidade responsável e denuncia as práticas que não respeitam a vida ou a dignidade humana.

8. Não vemos o medo ou a recusa em conceber e acolher crianças levar a comportamentos irresponsáveis e a consequências dramáticas: abortos provocados, assassínios, crianças abandonadas...? Ora, estes graves desvios vão a par com a procura desenfreada de prazer, traço característico da sociedade de consumo, e traduzem uma ruptura entre a sexualidadde e a fecundidade.

A criança outrora desejada como fonte de alegria, realização de um projecto de amor, torna-se, infelizmente, grande vítima, objecto de rejeição, de exclusão ou de exploração.

Situações que comprometem o futuro das crianças

Na aurora do século XXI, a situação não é brilhante nem tranquilizadora para bom número de crianças no mundo, particularmente em África.

9. Os ataques à harmonia familiar multiplicam-se e as crianças são as primeiras a sentir os efeitos disso. Continuam a pagar o preço destas situações criadas pelo alcoolismo, a separação dos casais, o divórcio, a poligamia oficial ou oficiosa, a crise do emprego, o êxodo rural, o exílio ou a emigração.

E que dizer dos inumeráveis ataques à paz? Como ficar insensível perante a situação de tantas crianças, com fome, lançados nos caminhos do êxodo e que povoam os campos de refugiados para fugir das devastações da guerra?

10. Tantas situações criadas pelos adultos e que põem em perigo a vida e o futuro das crianças:

- crianças massacradas ou mutiladas, vítimas das guerras fratricidas que minam o nosso continente;

- crianças abandonadas nas ruas das nossas cidades, condenadas a mendigar para sobreviver, expostas a devastações da droga;

- crianças vítimas de pedofilia;

- crianças submetidas ao trabalho forçado;

- crianças envolvidas e metidas directamente nos conflitos armados, manipuladas para matar e constantemente expostas ao perigo;

- crianças vivendo com o HIV/SIDA;

- órfãos cujo número está em aumento vertiginoso por causa dos conflitos e da pandemia do SIDA;

- e no meio de nós, crianças vítimas dos nossos comportamentos irresponsáveis e laxistas, como os que conduziram ao naufrágio do barco "Le Joola".

11. E no entanto, a criança é o rosto da paz! Aspiram viver em paz! A Paz é o dom Deus proclamado pelos Anjos quando o Deus-Menino fez a sua entrada no nosso mundo com a falta de paz.

O rosto da criança, imagem do de Deus.

12. A Quaresma, irmãos e irmãs, é um bom momento, o tempo oportuno para a conversão a Deus. Ora, neste caminho de regresso a Deus, encontramos a criança como apelo à virtude. A sua condição sugere a humildade, a simplicidade, a pobreza, o abandono confiante, a pureza. Tornar-se como uma criança, é colocar-se na lógica do Mistério da Incarnação (cf. Fil 2, 2ss), é abrir-se à possibilidade de se conformar aos Conselhos evangélicos. Pelo seu exemplo e pelo seu ensinamento, o Filho de Deus revela esta necessidade de tornar-se como uma criança, e isso é mesmo uma condição de entrada no Reino de Deus (cf. Mt 19, 14ss). Acolhe as crianças e abençoa-as, não autorizando nenhuma mediação, nenhuma fronteira entre elas e Ele (cf. Mt 18, 5).

13. Definitivamente, tornar-se como uma criança, não significa tornar-se criança. É romper com o orgulho, a mãe dos vícios, encontrar a inocência conferida pelo baptismo e colocar-se nas condições que permitem a Deus fazer de nós o que nos tornámos pela sua graça: Seus filhos.

Deixemo-nos, então, interpelar e instruir pela humildade de Deus que se revela no mistério do Deus-Menino, e se reflecte na condição e na vida das crianças.

Crianças, profetas e apóstolos no seu próprio meio e no dos adultos

14. Nesta Quaresma de 2004, sensibilizemos as próprias crianças sobre as condições das crianças que sofrem, afim de as educar para a solidariedade que se traduzem em gestos concretos. Sugerimos as colectas nas famílias, nas escolas e Movimentos para ajudar a :

- tratar crianças doentes;

- vestir crianças mal vestidas;

- oferecer refeições a crianças privadas de alimentação;

- escolarizar as crianças, mantendo-as na escola.

15. Quanto a nós adultos, sejamos artesãos da paz com as crianças! Pensemos em primeiro lugar na sua sensibilidade e na sua fragilidade para pacificar as relações familiares e sociais. Permitamos-lhes criar um ambiente de concórdia e de paz.

A criança é um profeta que sem dúvida, tem muitas coisas a exprimir ainda no "Templo" dos adultos (cf. Lc 2, 41-52); a humildade é a via real que nos permite descodificar a sua linguagem, sabendo que Deus nos fala através dela.

Homenagem aos pais e aos que tomam a seu cuidado as crianças

16. É ocasião, como o fez a Igreja em numerosas circunstâncias, de reconhecer e reafirmar a importância da vocação e da missão da família, de prestar homenagem aos pais, primeiros responsáveis pelo desenvolvimento integral dos seus filhos e encorajá-los na sua nobre tarefa.

Estamos reconhecidos a todas as boas vontades que se dedicam à causa da criança: educadoras das escolas, responsáveis dos Movimentos da juventude, agentes de saúde...

Encorajamos todos os projectos em favor de uma melhor resposta às necessidades das crianças, para o seu desenvolvimento humano, espiritual e cultural.

Converter-se a Deus, tornando-se como crianças

17. Irmãos e irmãs, deixemos ressoar nos nossos corações a exortação de Cristo: "Em verdade, vos digo, se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus" (Mt 18, 3).

Cada um e cada uma se deixe interpelar pela Palavra de Deus, para regressar a Deus, através de uma conversão profunda.

É tempo de assumir o olhar de Deus para ver as crianças e todos estes pequenos, preferidos de Deus. É tempo de reconhecer a sua grandeza, a sua dignidade, na sua humildade e na sua fraqueza. Nelas e por elas possamo-nos reencontrar Cristo, Servo Sofredor (cf. Is 52, 13-15) que veio para que tenhamos vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Boa caminhada para a Páscoa,

Santa e frutuosa Quaresma!

Os Bispos da Conferência Episcopal

 
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