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Pesquisa CERIS/CNBB: Mobilidade religiosa no Brasil - 2005

Pesquisa CERIS/CNBB: Mobilidade religiosa no Brasil - 2005

Alguns resultados significativos
1 – Introdução/objetivos
Em 2002 o CERIS publicou os resultados da pesquisa que contemplou o estudo de seis
grandes cidades brasileiras. Naquela ocasião se verificou que, independentemente dos indivíduos
afirmarem pertencer ao catolicismo, suas práticas e crenças individuais, bem como sua assiduidade à instituição, carregavam uma certa fluidez e podiam expressar discrepâncias com a doutrina oficial.
Este não é um fato novo, dado que o catolicismo no Brasil se constitui de modo sincrético e plural.
A atual pesquisa foi realizada com o objetivo principal de mapear os motivos e as
características da mudança de religião na população brasileira. O debate analítico sobre a circulação das pessoas entre as várias religiões, as junções e composições que realizam neste processo, vem sendo travado a partir de pesquisas localizadas em determinadas regiões ou metrópoles. Ainda não haviam sido produzidos dados em nível nacional que expressassem a realidade religiosa brasileira e auxiliassem na compreensão dos processos motivadores dessa ação. Neste sentido a pesquisa do CERIS é pioneira.
Estudos datados de fim dos anos de 1990, a respeito da conjuntura religiosa atual
sublinhavam que a situação da Igreja Católica na América Latina deixara de ser hegemônica e
passara a contemplar o confronto com um universo religioso que cresce exponencialmente1 e com a tendência de atomização religiosa. Especificamente no Brasil, tem havido um declínio relativo de
pessoas que se declaram católicas e um crescimento de evangélicos de cunho pentecostal e
neopentecostal2. O último Censo (2000) identificou ainda um processo de desinstitucionalização, ao constatar que os que se declaram sem religião saltam de 4,7% em 1991 para 7,4%.
1 BASTIAN, Jean-Pierre. La mutación religiosa de América Latina – para uma sociología del cambio social en la modernidad periférica. Fondo de Cultura Económica. México, 1997.
2 Em 1991 havia 83,3% de católicos e 9% de evangélicos na sociedade brasileira. No censo de 2000, a proporção de católicos cai para 73,9% e os evangélicos totalizam 15,6%. Contudo, no campo protestante, os que mais crescem são os evangélicos pentecostais.

A presença crescente de instituições evangélicas no campo religioso brasileiro, bem como de
novos movimentos religiosos que conjugam práticas esotéricas com outras de tradição cristã, produz um efeito de contaminação ou simbiose nas Igrejas históricas. Estas se vêem forçadas a adaptar-se às novas demandas espirituais dos indivíduos, o que se expressa, muitas vezes, por meio da adesão a ofertas religiosas emergentes no campo religioso brasileiro, tais como “New Age”, sacralização de técnicas de relaxamento ou de terapias de saúde etc.
O primeiro contato com as dioceses, para a indicação de pesquisadores, foi realizado no mês
de abril de 2004, com prazo final para maio daquele mesmo ano. No entanto, o CERIS só obteve a
maioria das indicações em agosto/2004, quando todo o material para a coleta foi remetido aos
pesquisadores de campo nos municípios selecionados na amostra.
Inicialmente, pretendia-se tabular os dados segundo as capitais (centros políticos),
municípios grandes, médios, pequenos e micro, identificando as razões de mudança em cada estrato de tamanho e importância dos municípios. No entanto, durante o processo de coleta houve
problemas que levaram à diminuição do número de questionários esperados (não-resposta), além de uma baixa qualidade de respostas que visavam identificar a classe social dos entrevistados (muitas pessoas se recusam a responder a estas perguntas). Os problemas relacionados à não-resposta foram contornados por meio da pós-estratificação e reponderação dos dados dos questionários efetivamente respondidos. Quanto às respostas dadas nas questões sobre classe social, não foi possível promover qualquer correção, o que implicou na impossibilidade de se fazer a tabulação levando em conta esta variável.
A redução no número de respostas não permitiu que fossem realizados alguns dos
cruzamentos planejados, implicando na apuração agregada para o país de uma grande parte das
perguntas do questionário. Entretanto, a interpretação conjunta das tabulações de identificação dos
entrevistados com as tabulações agregadas das perguntas sobre trânsito religioso permite uma
avaliação consistente das tendências gerais pelas quais vêm passando a população maior de 17 anos do Brasil, no que diz respeito à pertença religiosa. Ao todo foram considerados 2.870 questionários referentes a 23 capitais brasileiras3 e 27 outros municípios. No conjunto, cinqüenta municípios brasileiros participaram da pesquisa.
3 As capitais que por motivos de força maior não puderam ser contempladas na pesquisa foram: Aracaju (SE), Porto Velho (RO), São Luís (MA) e Vitória (ES).


2 - Caracterização da população segundo a transição religiosa
A pesquisa mostra que 24% da população já mudou de religião em algum momento de suas
vidas, restando 68,3% que nunca o fizeram e 8,2% que não forneceram informações a esse respeito.
A faixa etária não se apresentou como uma variável determinante quando analisada a
mobilidade religiosa, ou seja, essa mobilidade ocorre nas diversas faixas etárias variando entre 12% e 27%. Os adultos na faixa dos 36-45 (26,3%) e dos 46-55 anos (27 %) compõem o grupo etário que mais transitou entre as religiões.
A proporção de homens e mulheres que experimentaram a mudança ou trânsito religioso é
praticamente a mesma, sendo ligeiramente mais elevada entre os homens (23,9%) que entre as
mulheres (23,1%). Destaque-se que 67,5% dos homens declararam nunca ter mudado de religião.
No grupo feminino, essa situação ocorre para 69,2% das mulheres.
Em relação ao estado civil, a pesquisa identificou a prática do trânsito religioso em maior
proporção entre pessoas divorciadas (52,2%) ou separadas judicialmente (35,5%). Porém, da mesma forma que a mobilidade religiosa ocorre em todas as faixas etárias, ocorre ainda com pessoas de diferentes estados civis correspondendo a uma média de 20%. O fato dos divorciados e separados serem os que mais transitam entre as religiões, pode indicar que algumas delas funcionam como espaço de acolhida em situações de crise afetiva e sentimental. A pesquisa CERIS sobre as Novas
Formas de Crer4 mostra que uma das principais motivações para o ingresso em determinados grupos religiosos é a busca de amparo em função do sentimento de solidão, e ainda a crise ou separação conjugal.
Outro aspecto que não apresenta mudanças relevantes no que se refere à mobilidade
religiosa, é o grau de escolaridade. Os que possuem o nível superior completo são os que mais
transitaram por outras religiões (37,4%), mas a circulação ocorre também entre os não alfabetizados ou entre os que possuem outros níveis de escolaridade.
4 Trata-se da pesquisa Novas Formas de Crer, estudo qualitativo que reuniu 435 entrevistas nas seis principais metrópoles brasileiras, com fiéis do catolicismo (RCC e CEB´s), Pentecostalismo (Assembléia de Deus) e indivíduos sem religião. As citações apresentadas mais adiante referem-se à essa pesquisa.


3. Religião e trânsito religioso
3.1 Religiões ou grupos religiosos
O percentual de católicos encontrado nesta pesquisa é de 67,2%; os evangélicos históricos
totalizam 4,1%; 13,9% são evangélicos pentecostais. O total de pessoas que pertencem a outras
religiões é de 3,4%; os de religião indeterminada totalizaram 3,5% e os sem religião, 7,8%. Os
dados aproximam-se daqueles encontrados no Censo 2000 realizado pelo IBGE, à exceção dos
católicos que totalizavam 73,9% e dos evangélicos pentecostais que totalizavam 10,6%. Nossa
pesquisa parece indicar que nos últimos quatro anos, a proporção de evangélicos de cunho
pentecostal cresceu e o catolicismo vem mantendo o declínio já constatado nas últimas décadas.
3.2 A mobilidade religiosa
Como mencionamos, a mudança de religião no Brasil hoje constitui uma prática de 24% da
população. Este índice, porém, se distribui de forma diferenciada entre as diversas instituições
religiosas. Entre os que atualmente se declaram católicos, 4% afirmaram já ter mudado de religião
(na pesquisa realizada no estado do Piauí, publicada sob o título: Catolicismo e experiência
religiosa no Piauí, encontramos a mesma proporção de pessoas que transitaram). Os informantes de religiões com presença minoritária no Brasil (“outras religiões”), são os que apresentaram maior mobilidade religiosa (89,3% já transitaram), seguidos dos evangélicos pentecostais (84,6% já transitaram). Estudos qualitativos poderão precisar esta tendência já que na classificação “outras religiões” encontram-se pessoas que se declaram budistas, espiritualistas, pertencentes à Igreja da Vale do Amanhecer etc. (ver lista de religiões no anexo). No grupo de evangélicos de cunho histórico há uma alta proporção de pessoas que já mudaram de religião, totalizando 77, 2% do grupo.
Como tem funcionado esse fluxo religioso? A pesquisa mostra que os evangélicos
pentecostais constituem o grupo religioso que mais recebe adeptos das diversas instituições
religiosas. Assim, dentre os que declararam pertença anterior ao catolicismo, 58,9% estão hoje em
uma Igreja pentecostal. Metade dos que pertenceram anteriormente a alguma Igreja protestante
histórica (50,7%) atualmente compõe o grupo de evangélicos pentecostais. Os que pertenceram a uma religião indeterminada demonstraram tendência de adesão a uma Igreja evangélica de cunho
pentecostal (74,2%). Mesmo entre os sem religião, a espiritualidade pentecostal parece atrair mais, já que 33,2% dos informantes que anteriormente eram sem-religião, atualmente declaram-se evangélicos pentecostais, confirmando a tendência do pentecostalismo como maior receptor de fiéis.
Os sem religião que migraram para o catolicismo totalizam 23%. Como argumentou Ronaldo
Almeida5, é plausível que hoje se sintam mais “praticantes” e tendam a considerar o período de
infância e adolescência como ciclos da vida nos quais não tiveram orientação religiosa.
É possível constatar que não há um necessário processo de descrença em uma dimensão
transcendental, mas sim um movimento eruptivo de busca da experiência religiosa, que pode
ocorrer também por meio das instituições, mas não exclusivamente por meio delas.
Um dado que merece destaque é a circulação dos evangélicos pentecostais. Eles costumam
transitar entre as Igrejas evangélicas históricas e entre as diversas igrejas pentecostais, realizando
uma mobilidade intra-evangélica.
3.3 Vinculação ao catolicismo
Apesar de as Igrejas evangélicas de corte pentecostal serem as que mais recebem adeptos, há
um movimento de ingresso também no catolicismo, diferente do que se poderia prever. Desse
modo, 26,9% das pessoas que antes pertenceram a algum ramo do protestantismo histórico, hoje se declaram católicas. Observa-se um dado novo sobre a mobilidade religiosa dos pentecostais: 18,7% de pessoas que pertenceram a alguma Igreja pentecostal migraram para o catolicismo. Esse tipo de movimento migratório pode ser explicado por uma circularidade dos adeptos do próprio catolicismo. Estes podem transitar por denominações evangélicas e acabar retornando ao
catolicismo. O CERIS identificou essa tendência no estudo qualitativo Novas Formas de Crer que
se encontra em fase de conclusão. Uma fiel pertencente à RCC nos informou sobre sua trajetória
religiosa:
5 O estudo de Ronaldo contemplou o trânsito religioso na região metropolitana de São Paulo. “Religião na metrópole paulista”. Revista Brasileira de Ciências Sociais. Vol. 19, nº 56, São Paulo: ANPOCS, 2004.


A RCC me fez achar o catolicismo a melhor coisa do mundo, porque eu acreditava em crendices e eu passei a não acreditar mais em crendices, e acreditar só na RCC [...] eu fui à Igreja Metodista só uns meses. Tive uma decepção muito grande e depois voltei para o catolicismo. (Mulher, 49, casada).
A Igreja Católica é procurada por pessoas que pertenceram a Igrejas ou religiões que
congregam um menor número de pessoas no Brasil. Assim, a pesquisa aponta que os fiéis agrupados na terminologia de “outras religiões” são os que mais procuram o catolicismo (47,4%) e em menor proporção, os que pertenceram a uma Igreja evangélica de cunho histórico (26,9%).
Por outro lado, os sem religião que migraram para o pentecostalismo perfazem uma maior
proporção (33,2%) confirmando a tendência do pentecostalismo como maior receptor de fiéis.
3.4 Motivações para a escolha da religião atual
O sentimento de bem estar em um determinado grupo religioso, e ainda a aproximação com
Deus, foram as principais motivações dos entrevistados para mudar de religião. Assim, no universo de 4% de católicos que transitaram por outras religiões, 33,8% estão na Igreja Católica por sentirem-se bem nela. A proporção de evangélicos pentecostais que indicaram esta como a principal motivação que justifica sua escolha religiosa é similar, chegando a 31,3%. Evidencia-se que cada vez mais as pessoas procuram a religião para atender a necessidades de ordem subjetiva. A busca da religião como instituição capaz de ajudá-las em momentos de dificuldades foi mencionada por 18,7% dos católicos e por 30,5% dos que pertencem ao grupo de “outras religiões”. Esta opção foi assinalada logo depois, levando-se em conta a importância atribuída pelos entrevistados. A aproximação com Deus foi outra motivação eleita por 20,2% dos católicos e 26% dos evangélicos pentecostais, para a escolha da religião atual.
A necessidade de encontrar na religião um espaço ético também aparece como uma
motivação importante para os católicos (38,1%) e, em menor proporção, para evangélicos históricos (15,2%). Esses dois grupos se destacaram por indicarem como motivação para a escolha da religião atual, a busca por uma religião “séria”.
Nossos estudos qualitativos demonstraram que, aqueles que optam por determinadas
religiões num processo de conversão ou reintegração em grupos religiosos, tendem a enfatizar as
mudanças qualitativas em suas vidas. Assim, declaram que a conversão os tornou mais “pacientes”, “calmos” e, em muitos casos, favoreceu a superação da depressão.


Muita coisa mudou, principalmente a auto-estima, que era uma coisa que eu não me via. Agora,
dentro da Igreja, dentro da sociedade, eu posso me expressar e com certeza foi o grupo que me
ajudou nisso. (Mulher, 20 anos, participante das CEB`s, solteira).
3.5 Motivações para o abandono da religião anterior
O principal motivo para a troca de identidade religiosa foi a discordância da doutrina de
determinada instituição. 35% dos que abandonaram o catolicismo apontaram essa motivação,
também válida para 13,9% dos que abandonaram as Igrejas evangélicas pentecostais e para 33,3% daqueles que vieram de “outras religiões”. Outro motivo indicado como relevante foi o convite de amigos e familiares. Os adeptos do catolicismo parecem ser mais sensíveis a essa apelo, pois apresentam a maior proporção de informantes (16,5%) que mencionaram ter abandonado o catolicismo por terem recebido convite de familiares ou amigos para mudar de religião. Essa situação corrobora o pluralismo religioso que se estende na malha da sociedade brasileira com suas múltiplas ofertas.
A falta de apoio da religião anterior em momentos de dificuldades pessoais foi mencionada
em maior proporção (ainda que em segundo lugar no grau de importância) pelos evangélicos
pentecostais (21,5%) como motivo para a mudança de religião. Já a falta de acolhimento foi
indicada por 10% dos entrevistados que abandonaram o catolicismo e por 35% dos que pertenceram a “outras religiões”.
3.6 Circularidade/ Intensidade da mobilidade religiosa
As pessoas declararam mudar de religião até 6 vezes, sendo que a concentração é de até três.
Chama atenção, entretanto, a alta proporção de entrevistados que não informou o número de vezes
que já transitaram. Essa atitude dos entrevistados pode revelar que “perderam a conta” do quanto
transitaram pelas diversas religiões, já que a pergunta era dirigida apenas aos que fizeram a
mobilidade religiosa. Assim, entre os católicos, 44% não informaram quantas vezes mudaram; entre os evangélicos históricos, 17%; entre os pentecostais, 13,3%. Dentre os classificados nos grupos “outras religiões”, 23,9% não forneceram informações a respeito e dentre aqueles que pertencem a uma religião indeterminada, 27,2% não responderam sobre o número de vezes que mudaram de religião.
3.7 Participação na religião e freqüência à missa
O grau de participação em pastorais ou atividades da própria religião foi identificado na
pesquisa para as diversas religiões ou denominações. Assim, dentre os entrevistados que já
transitaram, 25,4% dos católicos participam de Liturgia e 28,1% participam das atividades de
evangelização e pregação. Os evangélicos históricos concentram a participação nos corais (31,1%)
e atividades de evangelização (20,3%). As atividades beneficentes e sociais foram indicadas em
maior proporção (19,9%) pelos entrevistados de “outras religiões”, fato que pode ser atribuído aos
adeptos do kardecismo presentes nesse grupo. Vale destacar que, considerando-se o conjunto de
entrevistados, os católicos são os que declararam, em menor proporção, participação nas pastorais já que 76,6% dos entrevistados não o fazem.
Outra pergunta sobre participação nos ajuda a perceber a complexidade dessa categoria.
Quando perguntados se participam da religião atual, os índices são altíssimos chegando a 95,6%
entre os pentecostais e 80,3% entre os católicos. Assim, mesmo não estando vinculados a pastorais e tendo uma freqüência ocasional às missas, os católicos se sentem participantes.
Quando perguntados sobre o hábito de ir à missa na Igreja Católica os entrevistados
católicos tendem a responder afirmativamente. Desse modo, no grupo dos que já mudaram de
religião e atualmente se declaram católicos, 95,2% afirmaram freqüentar a missa. Entre os que não mudaram de religião, o índice é um pouco inferior (87,5%). É curioso observar ainda, que 20% de pessoas pertencentes ao protestantismo histórico declararam que costumam ir à missa. Contudo, analisando a freqüência à missa, todos os grupos identificados na pesquisa declararam presença em ocasiões especiais (Batismo, Casamento etc.), o que indica uma representação do rito como uma prática social, em muitos casos, destituída de significação religiosa. O percentual de católicos que declararam freqüência à missa uma vez por semana é de 24,7% entre os que nunca mudaram de religião, e de 33,3% entre os que já mudaram e hoje declaram-se católicos. A população católica que transitou tende a ser um pouco mais assídua às missas semanais.

4 Avaliação da própria religião
Os entrevistados avaliam positivamente a própria religião. A nota média dada pelos católicos
atuais à Igreja Católica é 8,8. Nos demais grupos a nota média é ainda mais alta, chegando a 9,5
entre aqueles que não foi possível determinar a religião, em função de dupla pertença. Nesse caso, não há como saber que religião pesou na hora avaliação dos entrevistados desse grupo (religião indeterminada).
Perguntados sobre os itens que mais agradam na religião atual, os católicos que já
transitaram destacaram as curas e libertações (36%) em primeiro lugar, assim como os evangélicos pentecostais (23%). Em segundo lugar, o acolhimento foi destacado por 22,9% dos evangélicos históricos que já transitaram e por 10% dos evangélicos pentecostais. Se formos considerar o conjunto de entrevistados, a música e o louvor aparecem como os itens mais votados em todas as denominações.
Em relação ao que mais os desagrada na própria religião, a grande maioria dos que
transitaram não apontam insatisfações. A opção “nada desagrada” foi assinalada por 71,5% dos
católicos que transitaram, 80,7% dos evangélicos históricos, 79,9% dos pentecostais, 89,4% dos que pertencem a outras religiões e 78% daqueles alocados no grupo de “religião indeterminada”.
5 Os religiosos sem-religião
A pesquisa identificou que 80% das pessoas que se declaram sem religião hoje no Brasil
possuíram alguma religião anteriormente. Apenas 18,7% se consideram desde sempre, sem religião.
Perguntados se já pertenceram à Igreja Católica, 60,5% responderam afirmativamente.
Entretanto, o percentual dos que migraram diretamente do catolicismo para a situação de semreligião é de 42,1%. Isto significa que estas pessoas transitaram por outras denominações religiosas antes de assumirem a condição de sem religião. Constata-se a existência de uma procura das religiões e ao mesmo tempo um certo desencanto com o que elas podem oferecer.
Eu comecei na religião católica, depois eu fui espírita, umbandista, depois eu fui protestante, depois eu fui kardecista, aí depois eu virei para Igreja protestante novamente, depois eu voltei para a religião espírita que é chamada de espírita moderna, depois eu fiquei algum tempo na Seicho-no-ie e depois eu abandonei tudo. (mulher, 50, casada).
O CERIS procurou identificar a auto-representação dos sem religião, ou seja, porque eles
assim se identificam. 41,4% consideram-se sem religião pelo fato de possuírem uma religiosidade própria, sem vinculação com Igrejas. Para 29,4%, não ter crenças religiosas e não freqüentar nenhuma instituição religiosa é a principal justificativa para ser sem religião. Outros 23,2% afirmaram que não têm tempo de freqüentar à Igreja e, por esse motivo, consideram-se sem religião.
Aqueles mais céticos quanto às instituições religiosas ou que simplesmente não acreditam nas
religiões, totalizam 15,1%.
A pesquisa anterior sobre as Novas Formas de Crer mostrou, de modo mais detido, como se
delineiam essas representações. Ficou evidente que, para muitas pessoas, o fato de não possuir uma religião não significa descrença ou ausência de uma determinada religiosidade. Por outro lado, a simples não freqüência à Igreja faz com que os indivíduos se declarem sem religião. Muitas vezes, essas pessoas mantêm ou preservam algumas práticas de sua religião anterior.
Esse processo de autonomização diante da declaração de pertença pode estar sendo motivado
pelo pluralismo religioso. Desse modo, em um país onde as pessoas têm afirmado cada vez mais
diferentes pertenças, parece ocorrer uma pressão social que força o indivíduo a posicionar-se nesse campo. Em adição, há um movimento simultâneo de rejeição e de procura das instituições
religiosas, além de uma concepção geral de que a crença prescinde da instituição e pode ser
reformulada com freqüência, de acordo com o contexto de vida de cada pessoa e de suas
necessidades subjetivas.
Nossos estudos têm demonstrado que ser sem religião não se traduz necessariamente em
descrença ou niilismo, mas muitos buscam fontes promotoras de paz, bem-estar e equilíbrio
primando por valores universais compartilhados pelas religiões, mas que as transpõem.


5.1 Os modos de ser sem religião:
A exacerbação do eu
A minha a-religiosidade não é um vazio. Chega a ser um motivo de orgulho pra mim, poder
caminhar sozinha. Uma coisa bem existencialista de estar sozinha e só ter a mim pra me consolar,
pra me dar forças. Pra mim, isso é importantíssimo na minha vida (mulher, 21, solteira).
O processo de racionalização
Na verdade, acho que é uma evolução do pensamento. Você acaba lendo que as respostas que você
tem que encontrar pra vida, não estão mais na religião, e sim, preocupação de vida, de
humanidade mesmo. Coisas materiais importantes e não espirituais, como a gente pensa quando
tem uma religião (mulher, 22, solteira).
A aproximação com o esoterismo
Tenho uma sintonia muito boa com as pedras, de troca energética mesmo, de ter pedras no meu
quarto e pegá-las e manuseá-las e fazer pedidos a elas, talvez assim, troquei as santas pela
pedrinha. Isso é real para mim (mulher, 41, viúva).
O cultivo da religiosidade
Eu vou pelo menos uma vez por mês à missa, na passagem de ano eu faço oferendas aos meus
guias e protetores e sempre que posso vou à Igreja de Nossa Senhora de Mont Serrat (homem, 55,
casado)


As crenças do universo cristão
Deus é talvez a força maior que nos impulsiona[...] acredito na imortalidade da alma, na
ressurreição de Jesus Cristo, na ressurreição dos homens, na Ssma. Trindade, em anjo da guarda,
na bíblia, em Jesus Cristo, nos santos católicos, na virgem Maria.6 (mulher, 52, casada).
Os resultados integrais da pesquisa sobre a mobilidade religiosa no Brasil, bem mais
amplos, estão sendo analisados detalhadamente pela equipe de pesquisadores do CERIS e deverão
ser publicados até o final do ano.
Num país de fortes migrações humanas entre campo-cidade e entre diferentes regiões, há
também o movimento de trânsito ou migração religiosa. Como mostra a pesquisa, ele é mais
complexo do que aparece à primeira vista e deveria ser levado em conta nos projetos pastorais.
Assim como há uma saída da religião católica, descobre-se também um caminho inverso e
processos de conversão e de fortalecimento na Fé. Um catolicismo tradicional muitas vezes não se
traduz em catolicismo praticante. Mas aqueles que chegam à Igreja Católica ou a ela retornam,
podem trazer uma motivação mais forte do que aqueles que apenas permanecem, muitas vezes por
simples tradição familiar ou por inércia. Um dos grandes desafios para a Igreja Católica é de saber
criar espaços de acolhimento e de ajuda para um crescimento e fortalecimento na Fé, através de uma
pedagogia que nos ensinaram no passado os movimentos de juventude da Ação Católica
especializada e que se desenvolveram mais recentemente em algumas pastorais, movimentos ou nas
CEBs.
Sílvia Fernandes,
Socióloga, pesquisadora do CERIS
6 Proveniente do catolicismo, essa entrevistada, moradora do Rio de Janeiro, afirma ser sem religião pelo fato de não
participar da Igreja católica como deveria. Assim, mantém uma prática esporádica, e vai à Igreja quando tem “muita
vontade”.


Mobilidade Religiosa no Brasil - 2005
Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais

 
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