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UMA MÍSTICA A RECUPERAR:
POR UMA ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA
Pe. Daniel Lagni
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Inicio a nossa reflexão sobre a Missão, no contexto
deste Congresso Missionário Arquidiocesano de Vitória,
trazendo um fato da vida missionária que pode iluminar bem
o nosso presente e o nosso futuro. Pe. Guillet, missionário
da Sociedade das Missões Africanas (Padres Brancos), costumava
visitar com freqüência os Fuldas, do Benin, uma etnia
nômade de pastores, e que, portanto, vive em permanente peregrinação.
É um povo islamizado há mais de três séculos.
As seguidas visitas do padre levaram o povo a construir-lhe uma
cabana no acampamento, como se fosse membro da família.
Um dia, quando o Pe. Guillet chegou lá, disse-lhe um idoso
da tribo: “O marabuto [guia espiritual muçulmano] veio
visitar-nos e nós lhe mostramos a sua tenda e dissemos-lhe
que o senhor vinha aqui muitas vezes. Ele respondeu que vocês,
os padres católicos, podem ser os melhores homens do mundo,
conhecem a Lei de Moisés, os Salmos de David, o Evangelho
de Jesus Cristo, e mesmo o Alcorão, mas, infelizmente, recusais
Maomé como o grande profeta, e, por isso, não poderão
salvar-se. O que é que o senhor tem a dizer a esse respeito?”.
O missionário, depois de refletir um pouco, respondeu. “Sabe,
meu senhor, os homens passam o tempo todo construindo muros e abrindo
fronteiras entre o branco e o negro, entre o Leste e o Oeste, entre
pagãos e crentes, entre cristãos e muçulmanos.
Protegidos atrás desses muros, julgam e condenam os que estão
do outro lado, mesmo sem os verem. Mas, por mais alto que sejam
os muros levantados pelos homens, eu sei que esses muros não
chegam até Deus, e que Deus nos vê por cima dos muros.
E, no seu amor de Pai de todos, Ele, melhor que ninguém,
vê os que O amam em espírito e verdade.”
A Missão é um pouco o acolhimento deste olhar enamorado
do Pai-do-Céu sobre cada um dos seus filhos. Ela é
um mistério de amor, e os nossos esquemas e as nossas teologias
ficam a uma distância infinita dessa realidade. A Missão
é uma mística que precisamos recuperar.
Após o Concílio Vaticano II, a evolução
da teologia da Missão definiu-se em torno de três elementos
fundamentais: a sua fonte trinitária, a sua identificação
com a promoção e os valores do Reino e a sua peregrinação
pelos caminhos dos homens, ou seja, a sua encarnação
na história. Será nesses elementos que poderemos encontrar
a chave de leitura de uma espiritualidade missionária para
os tempos de hoje.
1. Chaves de leitura para uma espiritualidade missionária
1.1. O elemento contemplativo da Missão
Era freqüente, antes do Concílio Vaticano II, fundamentar
a Missão no mandato de Cristo de anunciar o Evangelho a todos
os povos. Ora, o Decreto Conciliar Ad Gentes, quase como eco da
Constituição Apostólica Lumen Gentium, fez
retornar a Missão à sua verdadeira fonte: a Missão
tem origem na Trindade de Deus. A Igreja é, por natureza,
missionária, pois tem a sua origem na Missão do Filho
e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai (cf.
AG 2).
A contribuição mais decisiva do Concílio Vaticano
II para a teologia da Missão foi ter situado a Missão
na sua verdadeira fonte: a Missão nasce em Deus, é
dom de Deus. Está claro que a origem, o método e o
fim da Missão é o próprio mistério trinitário.
A nossa colaboração missionária consiste apenas
em deixarmo-nos envolver por esse dom. Anunciar o Reino é
deixar transparecer este dom de Deus. A única iniciativa
do missionário é este movimento para dentro do coração
do Deus-Uno-e-Trino. Antes de ser uma atividade, a Missão
é contemplação e disposição para
mergulhar no projeto e na bondade de Deus. O Missionário
não inventa e nem é o protagonista da Missão,
somente Deus o é: “Missio Dei”, a Missão
é de Deus. A iniciativa de Deus antecipa, acompanha e leva
a bom termo a Missão.
O missionário, antes de se entregar aos homens que quer evangelizar,
entrega-se a Deus, a quem quer amar. A Missão é terra
de Deus, é preciso passar por Ele, para entrar na terra de
Missão.
Ninguém como São João desenvolveu esta teologia
da Trindade como fonte da Missão. No prólogo do seu
evangelho, São João declara a origem, a finalidade
e as dimensões cósmicas da Missão de Jesus.
Ele é o Verbo de Deus que, desde a eternidade, progressivamente
vai entrando na história humana. Toda a realidade criada
é fruto dessa Palavra encarnada. A Missão, na sua
origem, aparece abrangendo todo o universo, a começar pelo
universo da Criação. A Palavra penetra toda a história
humana e todas as realidades criadas, oferecendo-lhe a abundância
e a plenitude do dom de Deus. “Todos nós recebemos
da sua plenitude.” Este Logos de Deus abraça a história
humana e faz-se parte integrante dessa história: “Ele
se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1,14).
Ao longo do evangelho de João, são numerosos os textos
que falam da relação entre o Pai e o Filho. A Missão
do Filho é situada no interior da filiação
divina. Ela comunica o mais profundo do mistério do Pai.
A Missão é ligada à filiação,
é dom da vida do Pai. Esta filiação vai fecundar
toda a história humana. Se por um lado a Missão está
situada no coração da Trindade de Deus, por outro,
tem o seu termo no coração do homem.
Esta leitura contemplativa da Missão faz com que ela seja
um mistério, uma amizade que se descobre pouco a pouco, à
medida que nos abrimos a ela. Exige a entrega do coração,
para se revelar. De fato, em João, os discípulos,
em vez de serem chamados, como nos sinóticos, são
atraídos, são seduzidos por Jesus. É aprofundando
esta amizade que eles entram na Missão: “Mestre, onde
moras? Vinde e vede”. É preciso entrar na sua casa,
para acolher o dom da Missão. É por isso que João
é o evangelista dos longos diálogos de Jesus. Mais
que em qualquer outro evangelho, em João a Missão
é diálogo, encontro, partilha. A Missão não
se impõe. Só a amizade a pode motivar. O diálogo
é o espaço privilegiado para Jesus comunicar o dom
do Pai, basta lembrar o episódio da Samaritana (Jo 4,1-42).
No diálogo, Jesus acompanha as pessoas na sua própria
descoberta e pede licença para entrar na história
de cada um.
Não se pode ser porta-voz de Deus sem estar enamorado por
Ele: seria contornar o mistério. Não é por
acaso que o Cristianismo, que é essencialmente mistério,
mais que doutrina, exprime-se melhor na liturgia que na teologia,
melhor na celebração e na festa que na escola. Daí
que os valores da celebração, como a festa, a partilha,
a oração, o testemunho, estão na vanguarda
da evangelização.
Recuperar a mística da Missão é sem dúvida
voltar ao cenáculo, para acolher o dom do Espírito
e aprender a louvar.
1.2. A Missão como promoção dos valores do
Reino
No passado, a Missão foi concebida, primeiramente como salvação
das almas, depois como implantação da Igreja. Hoje
os teólogos a situam mais na linha da proclamação
dos valores do Reino. De fato, foi essa a Missão de Cristo:
proclamar e inaugurar o reino de Deus. Este reino não foi
só o tema central da pregação de Jesus, mas
foi o ponto de referência da maior parte das suas parábolas
e das suas ações mais significativas.
Este reino envolve todos os homens e toda a Criação.
São João fala do Verbo que “ilumina todo o homem
que vem a este mundo”, e, São Paulo, de “Cristo
que veio reunir em si, todas as coisas que há no céu
e na terra” (Ef 1,10).
A família humana, no seu todo, tem origem divina, todos foram
criados à imagem e semelhança de Deus, todos refletem
a sua imagem, cristãos ou não. O plano divino da salvação
é único e universal, ninguém é excluído
desse plano. A Missão da Igreja insere-se nesse projeto de
Deus, que ultrapassa as fronteiras da Igreja. É uma Missão
que tem as dimensões do Reino. Quando São Francisco
Xavier e os missionários que o seguiram partiram para as
terras de Missão, o mundo estava dividido em dois campos:
um grupo de pessoas que tinham ao seu alcance a salvação,
pois tinham sido batizados, e outro, destinado à condenação,
se não houvesse quem os batizasse. Hoje já não
partilhamos esta leitura da Missão. Deus não abandonou
o seu povo. Ele chegou a todos os povos, antes de o missionário
ter chegado lá, “de um modo que só Ele conhece”.
A tarefa da Igreja não é levar Deus, mas descobrir
e fazer crescer a presença e a ação de Deus
que precede o missionário. Este Espírito de Deus continua
atuando na história, nas culturas e nas religiões.
Ele continua a encher a face da terra. É Ele que fecunda
as sementes do Verbo presentes na Criação inteira,
nos ritos e nas culturas, nas aspirações e nas esperanças
da humanidade, e as faz amadurecer em Cristo (cf. Dei Verbum, 8).
É papel do missionário procurar discernir no mundo
que encontra aqueles valores que comprovam a passagem do Espírito
por aquele povo, antes dele ter chegado lá. Essas mediações
de Deus que precedem o missionário são os valores
que articulam o seu viver, como a paz, a justiça, a solidariedade,
a partilha, os valores do Reino. O diálogo inter-religioso
e intercultural aparece como uma via para conhecer outros espaços
do Espírito, outros modos de Ele comunicar o amor do Pai,
lá onde a Igreja não chega ou não pode ser
fundada, nem Cristo anunciado ou compreendido... O reino de Deus
tem um horizonte muito mais vasto que o da Igreja.
O missionário não vai destruir essas marcas do Espírito,
mas ajudar a discernir, purificar valores ofuscados pelo pecado,
pelo peso da história e das tradições. O que
o missionário tem a fazer é identificar essas marcas
do Espírito e fortificá-las. Deus já está
lá em diálogo com o povo, e não é interrompendo
esse diálogo, que o missionário lhes vai falar de
Deus. O serviço missionário não é interpor-se
como mediador entre Deus e o povo que é evangelizado, mas
facilitar, ajudar esse diálogo. É preciso respeitar
a liberdade de Deus já presente na liberdade das pessoas
que procuram responder à sua maneira. A Missão é
sempre um projeto de Deus, e captar os indicativos desse projeto
deverá ser a primeira atitude do missionário. Mais
que destruir muros, o papel do missionário será aprender
a ver por cima dos muros, como Deus vê. O Pentecostes dos
pagãos, de que fala o capítulo décimo dos Atos
dos Apóstolos, e que tanto surpreendeu Pedro, acontece, ontem
e hoje; e surpreende, ontem como hoje. É por isso que a Missão
é sobretudo uma espiritualidade.
Depois de um longo período em que a Missão foi reconhecida
sobretudo pela eficácia das suas obras — promoção
no campo da saúde, no campo escolar, agrícola, literário,
etc. —, emerge hoje uma nova imagem da Missão, ou seja,
a Missão como testemunho das Bem-Aventuranças e dos
valores do Reino. O Evangelho é muito mais uma maneira de
ser e de se situar frente aos grandes valores, do que capacidade
para atuar. Abrir-se ao Espírito Santo é talvez hoje
o essencial da Missão.
Foi depois de lhes ter confiado os valores do Reino no Sermão
da Montanha, que Jesus falou pela primeira vez aos discípulos
da sua vocação missionária: “Vós
sois a luz do mundo, vós sois o sal da terra”. Muito
antes do texto do envio final de Mateus, que é um texto tardio,
a Missão de ser luz e de ser sal para o mundo havia já
sido confiada aos apóstolos...
1. 3. A Missão como peregrinação pelos caminhos
da humanidade
Do conceito de Missão como proclamação dos
valores do Reino, que são os valores de Deus na terra dos
homens, deduz-se que os caminhos da Missão devemos procurá-los
na vida dos homens e das mulheres do nosso tempo. A história
é a agenda de Deus, a confidente onde Deus nos revela os
seus segredos, os seus desígnios sobre a humanidade.
João Paulo II tem repetido várias vezes que “o
homem é o caminho que a Igreja deve percorrer para cumprir
a sua Missão”. Este homem não é um homem
abstrato, sem rosto. Trata-se do homem e da mulher concretos, marcados
pelo tempo em que vivem, pela cultura que os identifica e os distingue
no espaço e no tempo, integrado numa rede de solidariedades
concretas, tais como a terra, a língua, a família,
a etnia, a cultura. É europeu, asiático, africano,
latino-americano... Tem rosto, tem nome e tem voz. A Missão
deve atingir este homem e esta mulher nas suas raízes culturais,
na linguagem que ele fala, nos problemas que ele vive, nos caminhos
por onde passa a sua vida. A sua conversão ao evangelho não
vai mudar a sua identidade nem fazer dele um desenraizado ou um
expatriado.
Este homem e esta mulher, mesmo antes de serem evangelizados, têm
as marcas de Deus que o chamou à vida e os criou à
sua imagem e semelhança. Mesmo sem o saber ou até
desconhecendo a Deus, são sua imagem. Têm os sinais
do seu amor. A Criação é o primeiro gesto missionário
de Deus. Ao criar-nos, Deus comunica-nos o seu amor. Nós
não chegamos à vida como náufragos à
praia, para ali encalhar. A Criação é o berço
que Deus preparou para cada um dos seus filhos e filhas.
Com a encarnação de Jesus, que se faz homem e assumiu
a condição de todos os homens, Ele completa, em cada
um, essa filiação com que nos gerou, quando nos chamou
à vida. O mistério da encarnação e da
redenção não atinge só os batizados:
é toda a humanidade que é tocada por esta graça.
Cada um é abraçado nesse abraço de Deus, seja
qual for a sua religião.
A palavra revelada e anunciada pelo missionário aponta para
o reino de Deus que já está presente e habita o ser
humano, todo ser humano que vem a este mundo. O missionário
terá de ter presente que Deus já habita no seio do
povo que vai evangelizar e que as grandes linhas da sua salvação
já estão escritas por Deus. Assim, a terra que ele
vai pisar, essa terra é terra sagrada. É preciso “descalçar-se”,
como Moisés, no Sinai, para lá entrar. Anunciar o
evangelho é penetrar em terra de Deus.
Assim, a Igreja que ali vai nascer será filha daquele povo,
terá a sua cor e o seu modo de se situar no mundo. O Cristo
que salva será o Cristo nascido naquela Belém, chamada
Nairobi, Kinshasa, Luanda, São Paulo, Hong Kong... Será
a história daquele povo, aquela cultura, aquele viver que
Ele vai assumir, como o fez Jesus na Galiléia.
Não se trata, portanto, de aproveitar só alguns valores
dispersos, e adaptá-los aos valores evangélicos, como
o missionário os concebe, mas de fazer transparecer Cristo
em todos os valores daquela cultura.
O modelo desta Missão é a encarnação
de Cristo, que começou por anunciar o evangelho assumindo
o medo de viver de um determinado povo, adquirindo a sua própria
identidade, segundo os valores culturais daquela gente, aprendendo
a sua língua, amando a sua história e integrando-se
no seu estilo de vida. O Evangelho está cheio dos campos
da Palestina, dos seus ritmos de vida, das suas montanhas, do seu
mar. Já São Paulo, marcado por uma cultura diferente,
uma cultura urbana nos moldes gregos, não fala de campos,
nem de agricultura, mas de estádios e de jogos, de viagens
e de areópagos. Assim, a Missão, antes de ser palavra
proferida, é palavra encarnada na história.
Esta teologia missionária, já presente em embrião
no Decreto Ad Gentes, foi consagrada pela Evangelii Nuntiandi, tornando-se,
a partir de então, espaço privilegiado da Missão
do nosso tempo, pois permite que todos os povos e todas as culturas
se possam reconhecer e identificar no Evangelho de Jesus Cristo.
O Concílio Vaticano II voltou-se decididamente para o homem
contemporâneo, e irão ser as situações
concretas que este homem vive que indicarão os passos que
a Missão deve percorrer. É uma Missão contextualizada,
interpelada por múltiplas fidelidades, com muitos rostos,
tantos quantos são os caminhos percorridos pelo homem contemporâneo.
2. Alguns pontos de convergência da espiritualidade missionária
A revista Spiritus, conhecido periódico de Missiologia, publicou
recentemente uma pesquisa com missionários de vários
institutos sobre a visão que cada um tinha da Missão.
A visão da Missão que se percebe nas respostas recebidas
é, às vezes, difícil de ser entendida. Ela
é fruto de uma experiência que se vive, e do Espírito
que sopra onde quer, o que nem sempre dá para explicar. A
Missão é um caminho pessoal e eclesial no seguimento
de Cristo, descoberto no dia-a-dia da vida, no qual se misturam
alegrias e esperanças, certezas e dúvidas, de aspectos
nem sempre fáceis de serem definidos. É uma teologia
vivida no dia-a-dia em função das situações
e das pessoas com as quais se entra em contato. A primeira evidência
desta caminhada espiritual é que se trata de uma Missão
plural, que não tem um rosto único. Ela se diversifica
conforme as situações e os caminhos que se percorrem.
Vejamos algumas linhas de incidência de uma espiritualidade
missionária do nosso tempo.
2.1.Uma espiritualidade de diálogo e solidariedade
A época que estamos vivendo é chamada de época
da globalização ou mundialização. As
vítimas das torres de Nova York de 11 de setembro de 2001
pertenciam a 80 nacionalidades diferentes. Em certas megalópoles,
como Los Angeles, falam-se cem línguas diferentes. Nas nossas
cidades, cada vez mais os rostos das pessoas revelam um cruzamento
planetário de culturas, religiões e etnias. Esta é,
sem dúvida, uma nova terra de Missão, que não
estava na geografia dos tempos passados. Hoje, os problemas tornam-se
comuns, em todas as partes do mundo. Os meios de comunicação
social e a mobilidade das pessoas levam-nos a toda parte. Devido
à técnica e aos meios de comunicação,
de informação e de circulação, as fronteiras
territoriais perdem cada vez mais sua importância. Com a mobilidade
das massas e dos povos, bem como pelo impacto dos valores globais
sobre os locais, uma cultura identifica-se cada vez menos com um
território. Uma vez que o mundo deixou de ser dividido em
espaços geográficos e culturais definidos, a Missão
geográfica começa a ter cada vez menos peso na geografia
da evangelização. A Missão “ad gentes”
[para os povos não-cristãos] torna-se uma Missão
“ad omnes” [para todos], sem fronteiras. Não
é por acaso que a crise da Missão nos meados do século
20 coincidiu com o fim da Era Colonial. Era o modelo de Missão
que estava ultrapassado. E também não é por
acaso que a Missão “ad tempus” [temporária]
do voluntariado e dos leigos missionários emerge, hoje, num
contexto em que se muda de profissão várias vezes
na vida, e a mobilidade das pessoas entra na rotina do dia-a-dia.
Esta nossa aldeia global perdeu as fronteiras tradicionais, mas
ganhou outras talvez mais difíceis de ultrapassar. Ela é
atravessada por divisões e fraturas que fazem de nós
estrangeiros uns dos outros. Pessoas que vivem no mesmo lugarejo,
mas que são estranhas umas às outras, que não
se conhecem, que não se compreendem, e que por vezes vivem
em conflito. Cada qual tem a sua religião, a sua concepção
de vida, os seus valores. A pós-modernidade é o reino
do subjetivo, do descartável, do individualismo.
Estas linhas de fratura não separam só as diferentes
partes do mundo: o Norte e o Sul, o mundo desenvolvido e o que se
diz em desenvolvimento. Estas linhas atravessam os centros das grandes
cidades: Nova York, Roma, São Paulo, Paris, Pequim... Elas
dividem os que têm água potável dos que não
têm água nem para se lavar. Os internautas e os que
não têm acesso à escola. O nativo e o imigrante,
o cristão e o muçulmano, o branco e o negro, o incluído
e o excluído...
Até há pouco tempo, a Missão desenvolveu-se
no contexto da Colonização. Foi a Colonização
que ofereceu à Missão os territórios a evangelizar,
as terras dos infiéis, a infra-estrutura, como o transporte
dos missionários, o apoio logístico, a proteção
militar, o modelo de Missão, os valores a promover e até
as metáforas da retórica Colonial. A Missão
“ad gentes” identificou-se com a evangelização
de um determinado território, confiado a um instituto missionário.
Não é de se estranhar, pois, que já São
Paulo, nas suas viagens, seguia o itinerário das rotas comerciais
e das vias imperiais de seu tempo.
Hoje, a globalização pede-nos um modelo de Missão
diferente. Viver hoje a Missão é ultrapassar constantemente
fronteiras que nos envolvem e que separam as línguas, etnias,
culturas e religiões, além das fronteiras sociais
e econômicas, como o crescente abismo entre ricos e pobres.
As metáforas da Missão hoje já não serão
as da expansão da Era Colonial, mas exprimir-se-ão
em termos de solidariedade, caminhada com os pobres, diálogo,
partilha.
Esta espiritualidade reclama a aceitação do pluralismo,
não como uma praga, mas como uma bênção,
como uma oportunidade para construir um mundo diferente. As religiões,
por exemplo, quando vistas na sua complementaridade, não
devem ser tidas como barreiras, mas como caminhos diferentes de
Deus se manifestar. Uma nova abordagem das religiões é
necessária para que todas as religiões sejam vistas
como colaboradoras do movimento da humanidade para Deus. Na promoção
dos valores do Reino, os “nossos inimigos são o pecado,
o mal e não as outras religiões”. Cada cultura
faz emergir diferentes aspectos do Evangelho. É por isso
que o encontro das culturas pode ser enriquecedor, tanto sob o ponto
de vista cultural quanto sob o ponto de vista evangélico.
Participando na ação do Espírito que age no
mundo, a Missão exige do missionário uma grande disponibilidade
e uma atenção constante aos sinais dos tempos, para
discernir a ação deste Espírito e tornar-se
instrumento nas suas mãos. Já estamos bastante longe
da concepção de uma Missão concebida como salvação
das almas, que marcou a primeira fase da Missão, ou como
serviço à Igreja, cuja finalidade seria converter
o maior número possível de pessoas à verdadeira
fé ou de criar comunidades eclesiais dotadas de todos os
ministérios e de todas as estruturas que lhe permitissem
funcionar autonomamente. Esta imagem da Missão que inspirou
gerações de missionários passa para segundo
plano, e esperamos que seja superada de vez.
Durante muito tempo, discutiu-se qual seria a prioridade missionária:
os crentes ou os não-crentes. Este dilema parece hoje desativado.
Em geral, hoje os missionários estão mais perto da
Evangelii Nuntiandi ou da Populorum Progressio, em que se afirmam
os valores do Reino e da pessoa, que da Redemptoris Missio, que
insiste sobretudo na evangelização dos que não
conhecem a Cristo. Em termos conciliares, poderíamos dizer
que a Missão, hoje, inclina-se mais para a Gaudium et Spes
que para o Ad Gentes.
2.2. Uma espiritualidade kenótica (do despojamento)
A maior parte dos missionários vêem no fato de deixar
seu país e ir para outra cultura mais que o testemunho de
uma solidariedade entre as Igrejas. Trata-se de um despojamento
cultural que nos abre ao acolhimento do outro. É como passar
para o outro lado. É uma kénose à imagem de
Cristo que se despojou de suas seguranças, para identificar-se
com aqueles a quem foi enviado. Deixar a sua terra é, antes
de tudo, deixar a si mesmo, “descalçar-se”, perder
as próprias seguranças, depor as armas, sair de si,
para deixar-se acolher por outra cultura, onde o Espírito
já se encontra e nos espera. Este despojamento é necessário
para captar os caminhos do Espírito já presente nos
espaços da Missão. É ele que precede o missionário
e lhe indica os caminhos. O missionário é, assim,
o primeiro a ser evangelizado no seio daquele povo. O Espírito
está presente não só na história que
o missionário vai encontrar, mas também na cultura
e até nas crenças religiosas, como também na
sua vida diária. É um despojamento que permite ao
missionário discernir e descobrir um novo rosto de Cristo
encarnado naquele povo, vivendo a sua história e os seus
valores. A Missão é sobretudo ajudar o povo a fazer
esta descoberta. É uma kénose, feita de disponibilidade
total, de abertura ao outro, de escuta, de silêncio, de contemplação.
A Missão é mais paixão que ação.
Trata-se de se deixar moldar pela Missão, de se tornar permeável
no encontro com o outro. É isso que lhe permite ultrapassar
todas as barreiras culturais e étnicas, para poder acolher
o dom do outro.
Com uma espiritualidade kenótica, os missionários
atravessam fronteiras, não como quem dá, mas como
quem recebe. Eles não vão para a terra de Missão
com avançadas tecnologias para modernizar o subdesenvolvimento,
com uma cultura superior para civilizar os bárbaros, com
uma religião para acabar com as superstições,
ou com uma série de verdades reveladas para ensinar aos ignorantes.
A espiritualidade kenótica faz do missionário uma
pessoa da outra margem, do outro lado. Do outro lado da sua própria
cultura, história, valores, língua-mãe, símbolos
nativos, não no sentido de os rejeitar, mas no sentido de
esvaziar-se deles, para acolher os valores de quem o acolhe. O missionário
passa para o seu lado.
2.3. Uma espiritualidade de comunhão
A Igreja será sacramento universal de salvação
(Lumen Gentium), à medida que for um reflexo da comunhão
trinitária de Deus. O testemunho de vida em comunidade fraterna
emerge como sinal necessário para quem quer pôr-se
a serviço das vítimas da injustiça e procura
criar um mundo mais fraterno. É o amor de Deus difundido
em nossos corações, por meio do Espírito, que
está na origem da comunidade. A comunidade existe para revelar
ao mundo o modo de ser de Deus. Ela é sacramento, sinal de
Deus comunhão. É a comunidade que ensina o primado
do amor, a gratuidade do perdão, o acolhimento do diferente,
a partilha de bens, a solidariedade para com o pobre, a oração
de mãos dadas, o modo de viver das bem-aventuranças,
os valores do Reino. A comunidade eclesial é a porta por
onde passa a Missão, a primeira mesa da palavra. Numerosas
respostas dos missionários sublinham o caráter profético
das equipes missionárias, hoje cada vez mais freqüentes
nos institutos missionários. Elas são o primeiro livro
onde se escreve a Missão. Trata-se de dar visibilidade ao
Evangelho que anunciamos. A vida fraterna de uma comunidade, de
um grupo, não é simples solidariedade num projeto
comum, mas fruto do Espírito que nos leva a morrer cada dia
para que o nosso irmão viva e cresça. É uma
fraternidade personalizadora, isto é, o que ela promove e
faz crescer não é primariamente uma obra, mas a pessoa.
Por isso, o sentido primeiro de uma comunidade não é
o da eficiência, mas o da fraternidade. É um modo de
viver em que as pessoas se sentem reconhecidas, não tanto
pelo que fazem, mas pelo que são. É a gratuidade dessa
atitude que anuncia o Reino. É essa a maneira de ser de Deus.
A comunidade, pelo que ela exige como abertura ao diferente e respeito
pela diversidade cultural, emerge cada vez mais como o modelo de
vida mais coerente com a Missão do nosso tempo. Todos sabemos
que viver a unidade na diversidade não se improvisa: é
uma escola de longa aprendizagem.
Um exemplo: uma comunidade de freiras dominicanas, no norte do Burundi,
onde Tutsis e Hutus vivem e rezam juntos, em paz, num país
onde as duas etnias estão em permanente conflito.
2.4. Uma espiritualidade de fronteira
A Missão revela a verdadeira imagem de Deus no nosso mundo.
Na Idade Média, os cristãos mostravam a beleza de
Deus, por meio das pinturas e gravuras dos santos nas igrejas e
catedrais. Hoje, Cristo encontra-se em outras igrejas, em outras
catedrais. É lá que é preciso procurá-lo
e mostrá-lo ao mundo de hoje. Encontramo-lo desfigurado nas
periferias, nos barracos de lona que cheiram mal, nas margens da
exclusão. É o Cristo pobre e desprotegido, marginalizado
pela sociedade de consumo e excluído da aldeia global.
O espaço dos direitos humanos e da luta pela justiça
é hoje um espaço particularmente significativo para
uma espiritualidade missionária, sobretudo para uma espiritualidade
de fronteira. Viver na fronteira é viver na insegurança,
e os nossos esquemas espirituais situam-se quase sempre noutro espaço
muito mais confortável. Nós temos dificuldade em encontrar
uma espiritualidade, situada no mundo dos oprimidos. As suas condições
de vida, como as de todos os pobres, deixam pouco espaço
para os nossos parâmetros espirituais. É necessário
aprender a exprimir as realidades duras destas situações
numa espiritualidade adequada. A verdade é que esta fronteira
tornar-se-á cada vez mais um espaço de Missão.
Será uma espiritualidade simples, construída a partir
do quotidiano, do provisório, do dia-a-dia, na crua realidade
dos acontecimentos que se vivem. Terá muitas vezes de lidar
com ambientes hostis ou alérgicos ao Evangelho, em situações
de luta e de improvisação que caracterizam a vida
dos pobres. De qualquer modo, são estes pobres que nos evangelizam
e nos ensinam a exprimir numa situação nova os valores
fundamentais de uma espiritualidade missionária: como recuperar
a nossa disponibilidade, como viver na insegurança, como
apreender a simplicidade de vida, a espontaneidade da oração,
como fazer da vida uma oração.
E, na fronteiras, descobrimos a fisionomia da Missão verdadeira...
Quando se visita a Basílica de Assis, na Itália, mais
que os famosos afrescos do pintor Giotto, o que as pessoas procuram
ver é o túmulo de São Francisco. Quando se
visita Calcutá, é o túmulo da Madre Teresa
que atrai as pessoas. São eles, santos do nosso tempo, os
verdadeiros rostos da Missão...
2.5. Uma espiritualidade de risco e insegurança
Um outro desafio da espiritualidade missionária hoje é
o das situações de conflito. O Papa João Paulo
II diz que o retorno dos mártires é um dos sinais
mais eloqüentes da Missão do nosso tempo. O número
de cristãos mortos violentamente ao longo do século
20 chega a algumas centenas. Todos os anos, o número de missionários
mortos violentamente é de mais de três dezenas.
Hoje, um pouco por toda parte, sobretudo em terras de Missão,
as situações de insegurança aumentam. Hoje
a geografia do martírio não se limita, como nos primeiros
tempos do Cristianismo, ao espaço da confissão da
fé. O martírio do missionário, hoje, não
nasce tanto de uma profissão explícita da fé,
mas da sua comunhão com os outros mártires: os humilhados
e excluídos da história. Chamemos-lhe campos de refugiados,
fundamentalismo muçulmano, guerra étnica, intolerância
religiosa, miséria estrutural, luta pelos direitos mais elementares.
É o espaço de martírio que hoje cobre uma vasta
geografia, sem tempo nem limites definidos.
Dois anos antes de serem assassinados na Argélia pelos integralistas
muçulmanos, os sete monges trapistas do mosteiro de Thibirine,
fizeram um retiro durante o Tríduo Pascal, pregado pelo superior
da comunidade, o Pe. Christian de Chergé, cujo tema foi precisamente
o martírio. O Pe. Christian falou de três espécies
de martírio típicos da Missão de hoje: o martírio
da caridade, o martírio da não-violência ou
dos inocentes, e o martírio da esperança.
O martírio da caridade consiste em amar os outros até
dar a vida por eles: ficar a seu lado nas horas em que a comunhão,
a solidariedade, são a única maneira de ficar ao lado
de Cristo. É a Missão da comunhão, da presença,
da solidariedade.
O martírio da não-violência é o martírio
dos inocentes, dos desarmados, dos despojados de todas as defesas,
dos que não sabem defender-se, nem têm quem os defenda.
É a Missão da incompreensão, a solidão
da cruz, da “hora de Jesus”.
O martírio da esperança fala-nos de uma confiança
a toda a prova no amor de Cristo pelo mundo, da paciência
de Deus, do viver na fronteira, quando tudo aconselha a refugiar-se
nas trincheiras da retaguarda. É a Missão da semente,
do tempo que há de vir, do acolhimento dos tempos de Deus.
Esta insegurança não é apenas física,
mas também psicológica. Antigamente partia-se para
a Missão para toda a vida. A Missão identificava-se
com a Igreja missionária. Hoje, nunca sabemos até
quando a nossa presença é necessária ou permitida.
Somos hóspedes em terra estrangeira, e o hóspede depende
de quem o acolhe. O missionário além-fronteiras é
um hóspede que estabelece sua morada na casa de outro povo
e de outra cultura:
Ser hóspede é viver uma situação de
dependência. É obrigação do hóspede
acolher e valorizar o que lhe é oferecido. Não cabe
a ele selecionar, mudar. Vive a gratuidade do ser acolhido, do ser
incluído na cultura e no mundo do outro. Sua casa é
a casa do outro. É casa emprestada na morada do outro.
É preciso muito tempo para que o hóspede seja aceito,
mas quase nunca chega a ser membro da família, do clã.
Ser hóspede é um desafio, e uma condição
necessária para o missionário. É na condição
de hóspede, que o missionário comunica e aprende,
partilha, transmite e recebe, sabendo sempre que o Espírito
Santo antecede sua chegada.
Antigamente tínhamos estruturas sólidas em que o missionário
se apoiava e que lhe garantiam uma certa estabilidade. Hoje a única
segurança que ele tem é a do Espírito que o
envia, e de que terá de caminhar “como se visse o invisível”...
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