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VATICANO - Especial Dia das Missões - Entrevista ao Cardeal CRESCENZIO SEPE, Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos por ocasião do Dia Mundial das Missões

Cidade do Vaticano (Agência Fides) - Por ocasião do Dia Mundial das Missões, celebrado domingo, 24 de outubro, a Agência Fides dirigiu algumas perguntas ao Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos.

Cardeal, Jesus Cristo confiou à Igreja, 2000 anos atrás, a Missão de evangelizar todos os povos até os confins extremos da terra. Como se configura esta Missão hoje, no início do Terceiro Milênio, em consideração do fato que devemos semear a Palavra de Deus em meio à indiferença e à violência, que tentam anular o bem semeado nos séculos passados?
O convite do Papa, no início do novo milênio, foi bastante explícito: “Duc in altum!” Vamos adiante, com esperança! Um novo milênio se abre diante da Igreja, como um oceano no qual devemos nos aventurar, com a ajuda de Cristo. Cristo, contemplado e amado, nos convida uma vez mais a colocar-nos em marcha... O mandato Missionário nos introduz ao terceiro milênio convidando-nos a manter o entusiasmo próprio dos primeiros cristãos: podemos contar com a força do próprio Espírito do Pentecoste e que nos leva hoje a repartir, sustentados pela esperança ‘que não desilude’ (cfr Novo Millennio Ineunte, 58).
Ao longo dos séculos, a Missão da Igreja não foi fácil, muito menos isenta de obstáculos: foi sempre alimentada pelo sangue dos mártires, pelo sofrimento e privações dos Missionários, pelo sofrimento daqueles cristãos que, mesmo torturados, não renegaram sua fé. Todavia, ninguém jamais pensou em abandonar a Missão, ou que diante do fracasso humano, precioso aos olhos de Deus, fosse conveniente reparar-se em conventos ou comunidades.
A Igreja, nascida da Páscoa, deve continuar a desempenhar sua tarefa Missionária de anunciar Cristo, único Salvador, convidando todos a deixar-se reconciliar com Cristo, com a consciência de que os destinatários deste anúncio são homens e mulheres que vivem em um mundo e numa realidade sócio-cultural que a reflexão filosófica e teológica define ‘pós-moderno’. Hoje, somos chamados a ser Missionários e evangelizadores em um tempo marcado pela fragmentação dos valores, pelo pluralismo teológico e pelo conseqüente relativismo do problema da verdade. Mas este também é um tempo que manifesta uma renovada exigência de sentido e que se abre às exigências da esperança e da solidariedade, além dos limites da existência humana.
Diante de tal cenário, a pergunta é: como ser Missionários em nome de Jesus Cristo hoje? A primeira e fundamental resposta nos vem do Espírito do Senhor: acolhemos Cristo sem limites ou condicionamentos, aceitando corajosamente deixarmos-nos conquistar sem erguer muros de humano interesse ou de egoísmo; em outras palavras, é preciso fazer com que Cristo viva e aja em nós. Acrescente-se que o Missionário, neste início do Terceiro Milênio Cristão, leva o Evangelho de Cristo a todos os povos e atua em uma situação mundial profundamente transformada em relação a poucas décadas atrás. O Missionário hoje deve anunciar o Evangelho de Cristo em um cenário novo e difícil. O Evangelho de Cristo não elimina as culturas diversas, mas constitui uma ajuda, para que se chegue a uma fraternidade universal, a uma realidade de comunhão, de solidariedade, que deve unir todos os homens do mundo. O Missionário de hoje sabe que deve anunciar Cristo em um contexto novo e difícil. É sob os olhos de todos a brutal e cotidiana exploração de crianças e mulheres em tantas áreas do planeta em que atuam nossos Missionários! A esta situação, o Missionário contrapõe o anúncio do Evangelho de Cristo, que veio trazer a todos os homens a dignidade do filho de Deus, no respeito e no amor, a todas as crianças, as mulheres e os indefesos, aqueles que sofrem violências. O Missionário de hoje prega o Evangelho e a mensagem autêntica de Cristo com a sua pessoa. Também por este motivo, tantas vezes, é morto, como informam dramaticamente, as notícias de crônica.
Tantos, e diversos, são os desafios enfrentados pelos Missionários. Cristo traz paz e justiça aos homens e às situações de exploração de crianças, mulheres e indefesos. Ao uso da violência, Cristo responde com seu Evangelho, de forma autêntica, fundamental e necessária.

Cardeal, a cada dia, chegam da África notícias de guerra e penúrias que são frequentemente ignoradas pelo grande circuito da mídia. A imprensa ignora também, ou ainda mais, o trabalho cotidiano dos Missionários naquele imenso continente, com a exceção de poucos comentários, quando um destes heróis é assassinado. Mas qual é a situação real da Missão na África, que do sangue dos mártires recebeu e recebe a força e a dignidade para a construção de seu futuro?
Os Sacerdotes participantes da Assembléia especial para a África do Sínodo dos Bispos de 1994, antes de tudo, perguntaram-se: “Em um Continente repleto de notícias ruins, em que modo a mensagem cristã constitui ‘uma boa nova’ para nosso povo? Em meio ao desespero que invade toda circunstancia, aonde estão a esperança e o otimismo trazidos pelo Evangelho? A evangelização promove muitos valores essenciais que tanto faltam ao nosso continente: esperança, alegria, paz, harmonia, unidade, amor” (Ecclesia in Africa, 48).
A grande epopéia Missionária, que começou no fim dos anos 800, e chegou a meados dos anos 900, teve o grande mérito de ter ‘fundado a Igreja’ em terras africanas: uma verdadeira implantatio Ecclesiae. Após aquele período, a presença Missionária foi sendo progressivamente substituída com pessoal autóctone. Isso produziu um aumento quantitativo de novas Igrejas particulares, de Cardeais, Arcebispos e Bispos locais, de vocações sacerdotais e religiosas, especialmente femininas.
Alguns dados estatísticos são eloqüentes: No início do século recém-findado, os católicos na África eram 2.064.270 (2,6 %); em fins de 2003, eram cerca de 140 milhões. Nos últimos três anos, foram criadas 70 novas Dioceses, nomeados 85 novos Bispos e Arcebispos, e cerca de quarenta foram transferidos. No mesmo período, como vemos, está em constante aumento o número de sacerdotes, religiosos/as, seminaristas e catequistas leigos.
Estes dados são significativos, pois revelam que a ação do Espírito Santo, através da cooperação de santos e heróicos Missionários, do Clero local, com o empenho eficaz dos Representantes Pontifícios, e o apoio de nossa Congregação, tenha produzido frutos abundantes numa Igreja que, embora jovem, demonstra grandes potencialidades e uma generosa adesão ao Evangelho de Jesus Cristo. Constatamos também hoje alguns fenômenos que, se bem promovidos e guiados, podem constituir uma esperança certa para o futuro. Refiro-me, em especial, a uma tomada de consciência sempre mais clara da Igreja na África de ser Missionária de si mesma. É uma resposta à exortação de Papa Paulo VI em Campala (1969): “Africanos, sejam vocês mesmos Missionários da África”. Na realidade, hoje, assistimos ao fenômeno, crescente mas ainda limitado, de envio de sacerdotes, religiosos e religiosas de um país a outro da África: a África está evangelizando a África! ( cfr. Ecclesia in Africa n° 75).
Mas há ainda outra forma de evangelização, que é a abertura da África à catolicidade e à universalidade da Igreja, com o envio de pessoal africano às Igrejas em outros Continentes. É uma realidade que está sob os olhos de todos, e que eu mesmo pude experimentar, com emoção e alegria, na Mongólia. Outro aspecto que demonstra a vivacidade da Igreja africana é sobretudo o empenho dos leigos nos territórios de primeira evangelização. Trata-se principalmente de catequistas generosos e engajados, que, com seus próprios meios, constituem uma força eficaz para a evangelização naqueles territórios aonde nem sempre se pode contar com a presença do clero e de religiosos. Na África, este número está em contínuo aumento, e várias Dioceses organizam ótimas escolas de formação para catequistas.
É preciso enfim ressaltar que o Sínodo para a África e a Exortação Apostólica Ecclesia in Africa (1995), revelaram-se eventos providenciais para a vida pastoral da Igreja na África que, ainda hoje, constituem momentos fortes de reflexão e aprofundamento pastoral e espiritual. Também a bela imagem programática da Igreja africana como "Família de Deus" está gerando um impulso evangelizador e de renovação em todo o Continente, em meio a tantas dificuldades. O demonstram as várias iniciativas em nível local, o caminho de reflexão das comunidades cristãs e os numerosos documentos publicados por vários Episcopados.

Cardeal, na “Redemptoris Missio”, o Santo Padre destacou várias vezes a necessidade de concentrar os esforços Missionários no grande continente asiático, onde o crescimento demográfico dos países não-cristãos faz aumentar continuamente o número de pessoas que ainda não recebem o anúncio de Cristo. Qual é a situação da Igreja, e que impressões o Sr. trouxe de suas viagens à Ásia?
Bem sabemos o quanto é importante o desafio posto pelo Continente Asiático ao Evangelho. Na Ásia, tudo é relevante: o número dos habitantes, a altura das montanhas, a extensão dos desertos, a variedade da vegetação e dos animais, mas também a incidência das religiões na vida das pessoas e da sociedade. Naquele Continente vive mais de 60% da população mundial. E dentre os quase 4 bilhões de habitantes, os Católicos são cerca de 130 milhões [2,6%], concentrados, em maioria, nas Filipinas e na Índia. Em muitas outras nações, os católicos não chegam a 0,5%. Dos mais de 6 bilhões de pessoas que povoam a Terra, mais de dois terços ainda não conhece Jesus Cristo, ou não o reconhece como Deus. Como recordou o Papa, estamos no início da evangelização.
Depois de 2000 anos, sem adverir o peso dos séculos, a Igreja está sendo chamada a programar a obra Missionária como nos primeiros tempos, especialmente na Ásia. No continente, a evangelização encontra dificuldades objetivas, mas é confortada também por tantos sinais positivos que caracterizam a realidade Missionária. Eles são a prova tangível de um futuro pleno de esperança, que infunde em nossos corações a alegria do agricultor que, depois de semear, aguarda com confiança que a semente cresça e frutifique.
Em minhas viagens àqueles territórios, encontrei Bispos zelosos, engajados em uma obra evangelizadora não fácil: sacerdotes, religiosas e religiosos que testemunham alegremente a própria vida para seus irmãos: leigos, sobretudo catequistas, que anunciam o Evangelho em áreas nas quais nenhum religioso poderia estar, em situações de Missão de fronteira. Eles constituem um caminho novo de evangelização para tantas criaturas que desejam conhecer o Evangelho de Jesus Cristo.
Na Mongólia, assisti a obra de semeadura de um terreno que a heróica fadiga de tantos Missionários e Missionárias está tornando fecundo e rico de perspectivas futuras. Mas existem também Países do Continente onde o Evangelho de Cristo já cresceu, como uma árvore madura, e seus frutos se expandem para além do próprio País ou do Continente asiático. Esta situação me leva a afirmar que a Ásia deve evangelizar a Ásia.
Outra dimensão da evangelização na Ásia é a necessidade que a obra Missionária leve em séria consideração o diálogo com as grandes Religiões da Ásia e o problema da inculturação. Quero destacar sobretudo a necessidade que estas preocupações não sejam interpretadas como um fim, ao ponto de se tornar um critério de juízo, nem o critério último de verdade em relação à Revelação de Deus [Fides et Ratio 71].

Cardeal, o Santo Padre quis que este seja o Ano da Eucaristia, e a Mensagem para o Dia das Missões ressalta, em especial, a ligação entre Eucaristia e Missão. É talvez um convite a redescobrir a sua importância na atividade evangelizadora, que às vezes conta excessivamente com meios materiais, ao invés dos aspectos espirituais...
Em sua Mensagem para o Dia das Missões de 2004, o Papa escreve que “para evangelizar o mundo, há necessidade de apóstolos ‘especialistas’ em celebração, adoração, e contemplação da Eucaristia” (cfr. n.3). Já antes, na Encíclica “Ecclesia de Eucharistia”, o Santo Padre destacara que este sacramento “se coloca como fonte e ápice de toda a evangelização, já que o seu fim é a comunhão dos homens com Cristo e nEle com o Pai e o Espírito Santo” (Ecclesia de Eucharistia n.22). Tanto o momento da abertura do Ano da Eucaristia, isto é, o Congresso Eucarístico Internacional de Guadalajara, como a Assembléia ordinária do Sínodo dos Bispos de outubro de 2005, retomam com insistência o binômio Eucaristia-Missão. Penso que já hoje, existam válidos motivos de reflexão para o Mundo Missionário, e haverá outros ainda nos próximos meses.
De fato, a Eucaristia é a escola e a fonte de Missionariedade, pois é o itinerário de participação ao mistério do “pão vivo para a vida do homem” (Jo. 6,51). Ela alimenta e reforça a nossa fé e nos impulsiona, como Paulo, a levar Cristo a todas as nações, para que o conheçam e o acolham como Senhor e Salvador. A Missão da Igreja, que é sinal e meio de comunhão entre Deus e os povos, e entre os povos em si, realiza-se no Corpo de Cristo, que é o centro unificante de toda a humanidade. A graça transformadora da Eucaristia envolve, além dos aspectos espirituais, também os aspectos existenciais de todos os homens, como a liberdade, o sofrimento, a morte... Alimentando-se no banquete eucarístico, os cristãos são transformados e reforçados, recebem novo impulso para anunciar as grandes maravilhas realizadas pelo Senhor, que quer a salvação de todos os homens, a todas as pessoas que encontram. Eis porque a evangelização Missionária constitui o primeiro serviço que a Igreja pode realizar para todos os homens e todos os povos. (Agência Fides 23/10/2004)

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