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ÁFRICA/ MOÇAMBIQUE: A GUERRA, HOJE COMO SEMPRE, MATA, FERE E COLOCA EM FUGA MUITAS MULHERES

Maputo (Agência Fides) - Irmã Dalmazia Colombo, das Irmãs da Consolata, confere à Agência Fides o seu testemunho. Seguirão outros nos próximos dias.

" Dos 36 anos de minha vida missionária em Moçambique, 26 os vivi em situações de guerra: 10 foram para obter a independência do governo colonial; 16 para obter a libertação da ditadura marxista que, em seguida, havia tomado o poder.
Sendo eu mesmo mulher, vivi como mulher todos estes longos tempos em que a violência não se atenuava, mas crescia com o passar dos anos.
O prima impacto mulher-guerra, vive no navio que saindo de Lisboa, com uma viagem de 30 dias, me trouxe ao porto de Nacala (Moçambique), o mais próximo de Nassa, a província onde era destinada. Sobre o navio viajavam comigo mulheres portuguesas que estavam indo ao encontro ou do filho, do irmão, do marido, do noivo...diziam que após tanto haverem chorado e ajuntado as suas coisas, tinham decidido enfrentar o risco de uma vida "além mar", para não perderem tudo: homem, dinheiro, juventude" e a estas, ajuntavam aquelas que haviam crianças consigo, para que os filhos conhecessem o pai!" ( Algumas desembarcaram e não encontraram aqueles que vieram procurar).
Quando cheguei na cidadezinha de Cuamba, tive a impressão de encontrar-me em uma imensa fornalha ardente a espera da chegada do féretro, ou melhor, dos féretros. De fato, acabara de chegar a notícia que havia ocorrido um conflito armado com muitas perdas . Os homens que se encontravam ainda na cidade se organizaram para dirigirem-se ao posto de batalha e as mulheres permaneciam a espera: qual delas deverá vertir-se de luto?
O primeiro ferido que socorri foi um soldado moçambicano. Era uma noite escura, a tropa de militares havia caído em uma emboscada e, este homem que me lembro como um gigante, foi acolhido pelos seus companheiros em estado de confusão mental. Enquanto quatro homens o mantinham no leito enquanto ele se debatia e urrava, gritava uma palavra: ' mamãe, mamãe...' Aproximei-me e dei ordens para que deixassem livre o doente, enquanto aproximando-me lhe sussurrei; " fique tranqüilo, estou aqui", e o acariciei a fronte! O homem abriu os olhos, me olhou e murmurou: "Amae" que significa tanto "mãe" como "freira", e se acalmou.
Quando se fala em guerra, se fala sem pré de mortos, feridos, refugiados...Todos termos no masculino. Não tenho nada contra a gramática e sei muito bem que não são termos que excluem a mulher, mas desviam da verdade, a guerra, hoje, como sempre, mata, fere, coloca em fuga especialmente tantas mulheres!
Um capítulo a parte são os refugiados acompanhados de crianças que as mães gostariam de não ver crescer, porque uma vez crescidos, logo após a infância, corriam o risco de serem arrancados de suas casas para transformarem-se em crianças soldados, em crianças "passatempo" e as mães e as mulheres sabiam disso!
Me lembro de ter encontrado um grupo que caminhava de modo compacto, proveniente de Malavi. Eram cerca de uma centena de pessoas, quase todas mulheres, muitas crianças, alguns homens não jovens. Caminhavam há dias e estavam regressando para Moçambique após alguns anos de fuga, levando cada qual um pacote na testa, uma panela amarrada ao lado.
Lembro-me de ter parado perguntando para onde se dirigiam. Pronunciaram um nome. Objetei que aquele vilarejo já haviam dominado. O sabiam, mas aquela terra era embebida de sangue e violência, não era feita para viver em paz. Insisti dizendo que já havia sido desminada, que havia ainda o poço, a suas terras férteis. Não responderam, continuaram a caminhar.
Os encontrei algumas semanas depois, acampados nos limites de uma floresta, que a mão, com imensa fadiga, estavam desmatando para recomeçar a viver. Estávamos próximos do Natal. Me pediram se poderia rezar com eles. Aquelas mulheres já haviam construído o lugar onde Jesus poderia nascer: um ângulo, de floresta desmatada, com uma cruz ao centro e troncos para sentar-se ao redor. Com estas famílias, quase todas com um chefe de família mulher, penso ter vivido um dos natais mais belos da minha vida missionária". (Irmã Dalmazia Colombo) (PA) (Agência Fides 14/02/2003 - linhas: 64 palavras: 831)

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