Venerados irmãos
no Episcopado
Caríssimos Irmãos e Irmãs de todo o mundo!
1. "Eis o meu servo, a quem escolhi, o meu Amado, em quem minha
alma se compraz" (Mt 12,18, cfr Is 42,1-4).
O tema da Mensagem deste 40º Dia Mundial de oração
pelas vocações convida-nos a voltar às raízes
da vocação cristã, à história
do primeiro chamado pelo Pai, o seu Filho Jesus. Ele é "o
servo" do Pai, profeticamente anunciado como aquele que o Pai
escolheu e formou desde o seio materno (cfr Is 49,1-6), o predilecto
que o Pai sustém e de quem se compadece (cfr Is 42,1-9),
no qual depositou o seu espírito e a quem transmitiu a sua
força (cfr Is 49,5) e a quem exaltará (cfr Is 52,13-53,12).
Aparece, imediatamente manifesto, o radical sentido positivo, que
o texto inspirado dá ao termo "servo". Enquanto
que, na actual cultura, aquele que serve é considerado inferior,
na história sagrada o servo é aquele que é
chamado por Deus a cumprir um particular acto de salvação
e redenção, aquele que sabe ter recebido tudo aquilo
que é e possui e, sente-se, então, também chamado
a colocar ao serviço dos outros quanto recebeu.
O serviço na Bíblia está sempre ligado a um
chamamento específico que vem de Deus, e precisamente por
isso, representa o máximo cumprimento da dignidade da criatura
ou aquilo que evoca toda a dimensão misteriosa e transcendente.
Assim aconteceu também na vida de Jesus, o Servo fiel, chamado
a cumprir a obra universal da redenção.
2. "Como um cordeiro conduzido ao matadouro..." (Is 53,7).
Na Sagrada Escritura existe uma forte e evidente relação
entre o serviço e a redenção, assim como entre
serviço e sofrimento, entre Servo e Cordeiro de Deus. O Messias
é o Servo sofredor que carrega sobre os ombros o peso do
pecado humano, é o Cordeiro "conduzido ao matadouro"
(Is 53,7) para pagar o preço das culpas cometidas pela humanidade
e prestar, deste modo, o serviço de que ela mais precisa.
O Servo é o Cordeiro que "foi maltratado, mas livremente
humilhou-se e não abriu a boca" (Is 53,7), mostrando,
assim, uma extraordinária força: aquela de não
reagir ao mal com o mal, mas de responder ao mal com o bem.
É a mansa determinação do servo, que encontra
em Deus a sua força e por Ele, exactamente por isto, se torna
"luz das nações" e operador de salvação
(cfr Is 49,5-6). A vocação ao serviço é
sempre, misteriosamente, vocação a tomar parte de
modo muito pessoal, também árduo e sofrido, no ministério
da salvação.
3. "...o Filho do Homem não veio para ser servido, mas
para servir" (Mt 20,28).
Jesus é, verdadeiramente, o modelo perfeito do "servo"
de que fala a Escritura. Ele é aquele que se esvaziou, radicalmente,
de si mesmo, para assumir "a condição de servo"
(Fil 2,7), e dedicar-se, totalmente, às coisas do Pai (cfr
Lc 2,49), qual Filho predilecto em quem o Pai se compraz (cfr Mt
17,5). Jesus não veio para ser servido, "mas para servir
e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mt 20,28); lavou os
pés dos seus discípulos e obedeceu ao projecto do
Pai até à morte e morte de cruz (cfr Fil 2,8). Por
isso o Pai o exaltou e lhe deu um nome novo e fê-lo Senhor
do céu e da terra (cfr Fil 2,9-11).
Como não ler na vida do "servo Jesus" a história
da cada vocação, aquela história pensada pelo
Criador para todo o ser humano, história que inevitavelmente
passa através do chamamento a servir e culmina na descoberta
do nome novo, pensado por Deus, para cada um? Em tal "nome"
cada um pode alcançar a própria identidade, orientando-se
para uma realização de si mesmo que o tornará
livre e feliz. Como não ler, em particular, na parábola
do Filho, Servo e Senhor, a história vocacional de quem é
chamado por Ele a segui-lo mais de perto, isto é, a ser servo
no ministério sacerdotal ou na consagração
religiosa? Com efeito, a vocação sacerdotal ou religiosa
é sempre, por sua natureza, vocação ao serviço
generoso a Deus e ao próximo.
O serviço torna-se, então, caminho e mediação
preciosa para se poder compreender melhor a própria vocação.
A diakonia é verdadeiro e próprio itinerário
pastoral vocacional (cfr Novas vocações para uma nova
Europa, 27c).
4. "Onde estou eu, aí também estará o
meu servo" (Jo 12,26).
Jesus, o Servo e o Senhor, é também aquele que chama.
Chama a ser como Ele, porque só no serviço, o ser
humano descobre a dignidade própria e a dos outros. Ele chama
a servir como Ele serviu: quando as relações interpessoais
são inspiradas no serviço recíproco, cria-se
um mundo novo, e neste desenvolve-se uma autêntica cultura
vocacional.
Com esta mensagem queria, quase, emprestar a voz a Jesus, para propor
a tantos jovens o ideal do serviço, e ajudá-los a
superar as tentações do individualismo e a ilusão
de buscar, deste modo, a felicidade. Apesar de certos impulsos contrários,
todavia presentes na mentalidade hodierna, existe no coração
de muitos jovens uma natural disposição para se abrir
ao outro, especialmente ao mais necessitado. Isto torna-os generosos,
capazes de empatia, dispostos a esquecer-se de si mesmos para antepor
o outro aos próprios interesses.
Servir, caros jovens, é vocação natural, porque
o ser humano é naturalmente servo, não sendo dono
da própria vida e sendo, por sua vez, necessitado de tantos
serviços dos outros. Servir é manifestação
de liberdade face à invasão do próprio eu e
de responsabilidade em relação ao outro; e servir
é possível a todos, através de gestos aparentemente
pequenos, mas, de facto, grandes, se animados pelo amor sincero.
O verdadeiro servo é humilde, consciente de ser "inútil"
(cfr Lc 17,10), não procura proveitos egoístas, mas
gasta-se pelos outros, experimentando no dom de si a alegria da
gratuidade.
Espero, caros jovens, que saibais escutar a voz de Deus que vos
chama ao serviço. É esta a estrada que abre para tantas
formas de ministerialidade em favor da comunidade: do ministério
ordenado aos outros ministérios instituídos e reconhecidos:
a catequese, a animação litúrgica, a educação
dos jovens, as várias expressões da caridade (cfr
Novo millennio ineunte, 46). Recordei, na conclusão do Grande
Jubileu, que esta é "a hora de uma nova 'fantasia' da
caridade" (ibidem, 50). Compete a vós jovens, de modo
particular, fazer com que a caridade se exprima em toda a sua riqueza
espiritual e apostólica.
5. "Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último
de todos e o servo de todos" (Mc 9,35).
Assim Jesus disse ao Doze, surpreendidos a discutir entre si "sobre
qual era o maior" (Mc 9,34). É a tentação
de sempre, que não poupa sequer quem é chamado a presidir
à Eucaristia, o sacramento do amor supremo do "Servo
sofredor". Quem exerce este serviço, na realidade, é
ainda mais radicalmente chamado a ser servo. Ele é chamado,
com efeito, a agir "in persona Christi", e, por isso,
a reviver a mesma condição de Jesus na Última
Ceia, assumindo a mesma disponibilidade para amar até ao
fim, até dar a vida. Presidir à Ceia do Senhor é,
portanto, convite premente para se oferecer em dom, a fim de que
permaneça e cresça na Igreja a atitude do Servo sofredor
e Senhor.
Caros jovens, cultivai a atracção pelos valores e
pelas escolhas radicais que fazem da existência um serviço
aos outros, sob as pegadas de Jesus, o Cordeiro de Deus. Não
vos deixeis seduzir pelas chamadas do poder e da ambição
pessoal. O ideal sacerdotal deve ser constantemente purificado destas
e de outras perigosas ambiguidades.
Ressoa, ainda hoje, o apelo do Senhor Jesus: "Se alguém
quer servir-me, siga-me" (Jo 12,26). Não tenhais medo
de o acolher. Encontrareis, seguramente, dificuldades e sacrifícios,
mas sereis felizes por servir, sereis testemunhas daquela alegria
que o mundo não pode dar. Sereis chamas vivas de um amor
infinito e eterno; conhecereis as riquezas espirituais do sacerdócio,
dom e mistério divino.
6. Como outras vezes, também nesta circunstância, ergamos
o olhar para Maria, Mãe da Igreja e Estrela da nova evangelização.
Invoquemo-la com confiança, para que não faltem na
Igreja pessoas prontas a responder generosamente ao apelo do Senhor,
que chama a um mais directo serviço do Evangelho:
"Maria, humilde serva do Altíssimo,
o Filho que geraste, tornou-te serva da humanidade.
A tua vida foi serviço humilde e generoso:
Foste serva da Palavra quando o Anjo
Te anunciou o projecto divino da salvação.
Foste serva do Filho, dando-lhe a vida
e permanecendo aberta ao seu mistério.
Foste serva da Redenção,
'estando' corajosamente aos pés da Cruz,
ao lado do Servo e Cordeiro sofredor,
que se imolava por nosso amor.
Foste serva da Igreja no dia de Pentecostes
e com tua intercessão continuas a gerá-la em cada
crente,
também nestes nossos tempos difíceis e angustiosos.
A Ti, jovem filha de Israel,
que conheceste a inquietação do coração
juvenil
diante da proposta do Eterno,
olha com confiança os jovens do terceiro milénio.
Torna-os capazes de acolher o convite de teu Filho
a fazer da vida um dom total para a glória de Deus.
Fá-los compreender, que servir a Deus, sacia o coração,
e que só no serviço de Deus e do seu reino,
realizam-se segundo o divino projecto,
e a vida se transforma num hino de glória à Santíssima
Trindade.
Amen."
Vaticano, 16 de Outubro de 2002
Joannes Paulus II |