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A riqueza da pessoa deficiente desafia continuamente a Igreja
e a sociedade e exorta-as a abrirem-se ao mistério que
ela representa.
A pessoa deficiente é rica em humanidade.
A deficiência não é um castigo, mas lugar
contra corrente onde a humanidade recebe apelos mais fortes e
os recursos para um mundo baseado na solidariedade, esperança
e amor.
Esta ficha é uma ajuda para a descoberta de tal verdade
e realidade.
É com este espírito que vo-la confiamos a todos
vós para integrar e inserir a pleno título as pessoas
deficientes na vida da Igreja e da sociedade, para valorizar os
seus dons e para se reconciliar com eles pelas lacunas existentes
a seu respeito, no espírito do Grande Jubileu e para criar
uma mentalidade de aceitação, de promoção
e de solidariedade.
A PESSOA DEFICIENTE: TESTEMUNHA PREVILIGIADA DE HUMANIDADE
Expectativas da sociedade
A sociedade pós moderna, caracterizada pela diversidade,
pela pluralidade e pela individualismo radical, mesmo usando outros
termos, do narcisismo, do pragmatismo e da incessante ansiedade
afronta os desafios de sempre acerca da humanidade e do seu destino.
A humanidade composta de homens e mulheres, tem valores que são
constantes e vão para além daquilo que se pode perceber
utilizando sistemas ideológicos e filosóficos de
leitura e de compreensão
A riqueza destes valores desafia continuamente a sociedade e implele-a
a abrir-se ao mistério que eles representam: a vida de
cada pessoa é um mistério.
A humanidade procurou ao longo da sua história entrar neste
mistério de modos diversos e com resultados vários:
por vezes saboreando já a grandeza da vida do homem/mulher,
do seu pensamento, da sua capacidade de doação e
de empenho, outras vezes preferiu caminhos menos claros usando
o homem/mulher como objecto de consumo, julgando e prescrevendo
quem é digno de viver e quem não o é.
Segundo esta última lógica só quem é
rico, tem sucesso, quem tem informação e a manipula
em seu benefício, tem valor, é alguém. Quem
não entra nesta lógica fica por fora de todo o esquema
de sucesso, produção ou qualidade de vida. Nesta
linha são colocadas as pessoas com deficiências mentais
e físicas.
As pessoas com deficiência: sinal de contradição
Elas encarnam a dor, invoca, a fragilidade, denunciam o limite
da condição humana são sinal de contradição
e de escândalo. As suas dificuldades e as suas desarmonias
testemunham contra a moda efémera de uma beleza entendida
como mero esteticismo e apelam, no tempo, para uma harmonia mais
profunda, revelando, para além de todo o fenómeno
contingente, a consistência última e fundante da
pessoa como valor ontológico. Por isso a pessoa deficiente
é "testemunho privilegiado de humanidade", expressão
transparente e imediata do valor humano.
Ela afirma o valor da vida para além de toda a determinação
de funcionalidade e de eficiência.
"A dignidade da pessoa é manifestada em todo o seu
esplendor quando se consideram a sua origem e o seu destino: criadas
por Deus à sua imagem e semelhança e remida pelo
precioso sangue de Cristo, a pessoa é chamada a ser 'filho
no Filho' e templo vivente do Espírito, destinada à
vida eterna em comunhão feliz com Deus" (João
Paulo II, Christifideles Laici).
Tudo isto provoca todo o tipo de sociedade para uma séria
reflexão e compreensão de tal realidade, também
quando se vêem somente 'fragmentos' segundo a lógica
de categorias humanas artificiais, como poderia acontecer nas
pessoas deficientes, mas que ao mesmo tempo são sempre
'testemunhas privilegiadas de humanidade'. Um autor escreveu:
"A provocação de aprender a conhecer, a estar
com uma pessoa deficiente e a cuidar dela não é
mais que aprender a conhecer, e a amar a Deus. O rosto de Deus
é o rosto da pessoa deficiente; o corpo de Deus é
o corpo da pessoa deficiente; o ser de Deus é o ser da
pessoa deficiente" " (A. McGill, citato da S. Hauerwas,
Suffering Presence, 1986).
Reacções
Tudo isto convida a inverter as perspectivas, a mudar o olhar
com que olhamos para a pessoa deficiente para nos perguntarmos
não só de quanta solidariedade ela precisa, mas
sobretudo para nos apercebermos de quanto ela seja capaz de nos
oferecer testemunhando o valor de si e inalienável da vida.
Na pessoa portadora de grave deficiência, a derrota existencial
da doença incapacitante torna-se ocasião de identidade
e de transparência da comum humanidade com que ela partilhamos.
Ela é quase por definição e estruturalmente
o "pobre", aquela que se encontra na condição
de ter que aceitar que a sua pobreza, a sua dependência
ds outros seja ostentada quase sem descrição, sem
fingimentos que ocultem aquela não auto-suficiência
que o individualismo triunfante não reconhece e que afinal
é de todos.
Frequentemente se desvia o olhar da pessoa deficiente e nem sempre
por uma banal indiferença, mas na realidade, mesmo inconscientemente,
ela ameaça as nossas falsas seguranças, provoca-nos
na medida em que nos recorda as limitações de que
somos circunscritos, e que desejaríamos de exorcizar enfatizando
mitos da modernidade: o progresso, a ciência a técnica
É aquela que não aguenta o passo na sociedade do
"tempo real" e do "valor acrescido": é
a não produtiva e por conseguinte, aquela que é
inútil e residual.
O seu déficit de autonomia interpela e não deixa
via de saída: ou a solidariedade ou a recusa e a negação.
Mas a solidariedade não é um movimento benévolo
do coração, um bom sentimento; é pelo contrário,
o reconhecimento pleno e objectivo da posse de um inteiro direito
de cidadania e é, sobretudo, um "con-viver" autentico
por uma opção pessoal e consciente de responsabilidade.
Neste sentido a comunidade não se pode limitar a "assistir"
a pessoa deficiente, mas deve pelo contrário, "tomar
conta dela".
Realidade actual - discriminação
Também formas assistências muito avançadas
podem corresponder a um intento, mais ou menos latente, de marginalização:
disponibilidade a investir recursos para uma assistência
qualificada, contanto que quem não tem possibilidades de
pagar as prestações não se intreduza na rede
sofisticada de uma sociedade que deve correr veloz para produzir
riqueza.
"Cuidar" quer dizer curar também quem não
pode melhorar, Utilizar todos os recursos e realizar uma acção
global e integrada da pessoa.
Nos países ricos a lógica do lucro e do bem estar
ilimitado sugere uma marginalização "doentia"
da pessoa deficiente. O seu direito foi proclamado, mas as normas
que o tutelam não são aplicadas. A sua "diversidade"
torna-se famosa quando faz notícia e dá aos mass
media ocasião de espectáculo. A fadiga do seu viver
quotidiano é ignorada, talvez voluntariamente oculta. A
assistência tornou-se preciosa, e vale-se por vezes também
de estruturas de prestigio, mas correm o risco de não serem
menos guetizantes .
Nos países pobres as necessidades primárias ligadas
à sobrevivência da generalidade do povo, prevalecem
sobre tudo. Analfabetismo, desemprego, pobreza juntam humilhação
à discriminação que nas "megalopoles"
do chamado Terceiro Mundo, apaga todo o rasto daquele parcial
apoio que a comunidade de aldeia e o clã podem de algum
modo garantir noutros lugares.
Tanto nos países ricos como nos países pobres são
poucos os recursos económicos e científicos para
a prevenção das doenças que invalidam a pessoa;
pelo contrário o progresso e a tecnologia pretendem os
seus sacrifícios humanos também com grave prejuízo
biológico e de deficiência.
Novidade: possibilidade de criar novas relações
Com efeito, aquela limitação, que não
é uma diminuição ocasional, contingente ou
transitória, mas sim algo de íntimo e estrutural
que desce no profundo, oferece uma fonte, evoca uma dignidade
incondicional da pessoa.
Convida por conseguinte a conceder uma convivência feita
de confiança e não de suspeito ou desconfiança,
de evidente gratuidade e não de mesquinhos bloqueios, de
imediata frescura nas relações interpessoais, de
consciente e serena dependência reciproca, de alegria de
viver
As pessoas portadoras de deficiência dão os mais
fortes impulsos e oferecem grandes recursos morais e espirituais
para um mundo conforme aos planos de Deus . Oferecem um contributo
de esperança e de amor à história humana.
Revelam ao homem aquilo que o homem é: a pessoa vale por
aquilo que é e não por aquilo que tem ou sabe fazer
(G.S 35) especialmente numa sociedade onde o que conta é
a beleza física, a auto-afirmação, a busca
de poder e do primado sobre os outros.
Mostrando a dependência da criatura do Criador com a sua
confiança e dependência dos outros e afirmam esta
união que dá vida. "A criatura sem o Criador
esvanece" (GS 36).
A pessoa deficiente é , portanto, uma recurso, uma advertência
vivente; derruba a dor, traduz o sofrimento em vida de louvor.
Aceitação, solidariedade directa e pessoal, promoção
activa de ajuda, realização de obras e iniciativas:
são quatro momentos - que no plano das relações
pessoais e sobre o plano público e institucional- necessários
a uma concreta "reforma" da nossa atitude antes de mais
das mesmas estruturas sociais e civis perante a condição
da deficiência
TESTEMUNHO
O testemunho de um avô Uma relação especial
A notícia de que a nossa netinha tinha nascido com
sérios problemas e que estava a lutar para viver, nos atingiu
como uma flecha. A nossa primeira reacção foi um
misto de choque, não acreditar, descontrolada esperança
que as coisas se pudessem resolver, e de dor.
Nas semanas seguintes experimentamos todas as emoções
que os avós nesta situação podem experimentar:
choque, não acreditar, negação, rancor, dolorosa
tristeza e por fim, aceitação.
Laura foi atingida por CMV devida a um vírus e da quadriplegia.
Pouco depois aceitamos Laura por aquilo que era e não por
aquilo que gostaríamos que fosse . As informações
dos vários profissionais da universidade onde trabalhava
com bibliotecário e os livros à dedicação
foram de grande ajuda neste momento. Dedicamo-nos totalmente a
Laura passando o tempo com ela, ajudando a minha filha Kathy e
a cuidar dela e dos outros dois filhos.
Demos apoio emotivo, amor, aceitação e confiança.
A nossa dedicação ajudou Laura a aceitar o sua situação
e os seus pais a sentirem-se menos sós, encorajando-os
na tristeza e auto-compaixão. Quando levo Laura comigo
no carro, tenho uma linda ocasião de lhe contar histórias,
de lhe falar e de a ouvir como se tivesse na escola. Estas viagens
semanais contribuíram para estabelecer uma relação
alegre e profunda com Laura e deram-me também uma missão
particular no seu crescimento e formação. Aprendi
que Laura compreende muito mais do que parece.
Tudo o que demos e que procuramos dar - minha esposa morreu quando
Laura tinha 8 anos - é principalmente aquilo que cada avô/ó
dá a cada neto/a. Antes de mais ela é minha neta;
uma neta com necessidades especiais.
Aquilo que recebi como avô de uma criança deficiente
é muito mais daquilo que dei. Conquistei uma proximidade
especial com a família de Laura. Tenho uma relação
mais profunda com os outros meus filhos e respectivas famílias
porque todos partilham a experiência da família de
Laura. Adquiri uma nova sensibilidade para as necessidades das
outras crianças deficientes e suas famílias. Desenvolvi
estima pelos talentos dos profissionais e especialistas e uma
melhor habilidade para ajudar e consolar os pais e avós
que experimentam a chegada de uma criança deficiente nas
suas famílias
Sobretudo, adquiri uma amizade muito especial com uma pessoa muito
especial e experimentei "a alegria e a proximidade que uma
criança com necessidades especiais dá a uma família".
FICHA DE PREPARAÇÃO PARA JORNADA JUBILAR DE
3 DE DEZEMBRO 2000 (COMITÉ PARA A JORNADA JUBILAR DA COMUNIDADE
COM PESSOAS DEFICIENTES)
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