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Ano europeu das pessoas deficientes
A PESSOA DEFICIENTE: TESTEMUNHA PREVILIGIADA DE HUMILDADE

A riqueza da pessoa deficiente desafia continuamente a Igreja e a sociedade e exorta-as a abrirem-se ao mistério que ela representa.
A pessoa deficiente é rica em humanidade.
A deficiência não é um castigo, mas lugar contra corrente onde a humanidade recebe apelos mais fortes e os recursos para um mundo baseado na solidariedade, esperança e amor.
Esta ficha é uma ajuda para a descoberta de tal verdade e realidade.
É com este espírito que vo-la confiamos a todos vós para integrar e inserir a pleno título as pessoas deficientes na vida da Igreja e da sociedade, para valorizar os seus dons e para se reconciliar com eles pelas lacunas existentes a seu respeito, no espírito do Grande Jubileu e para criar uma mentalidade de aceitação, de promoção e de solidariedade.

A PESSOA DEFICIENTE: TESTEMUNHA PREVILIGIADA DE HUMANIDADE
Expectativas da sociedade
A sociedade pós moderna, caracterizada pela diversidade, pela pluralidade e pela individualismo radical, mesmo usando outros termos, do narcisismo, do pragmatismo e da incessante ansiedade afronta os desafios de sempre acerca da humanidade e do seu destino.
A humanidade composta de homens e mulheres, tem valores que são constantes e vão para além daquilo que se pode perceber utilizando sistemas ideológicos e filosóficos de leitura e de compreensão
A riqueza destes valores desafia continuamente a sociedade e implele-a a abrir-se ao mistério que eles representam: a vida de cada pessoa é um mistério.
A humanidade procurou ao longo da sua história entrar neste mistério de modos diversos e com resultados vários: por vezes saboreando já a grandeza da vida do homem/mulher, do seu pensamento, da sua capacidade de doação e de empenho, outras vezes preferiu caminhos menos claros usando o homem/mulher como objecto de consumo, julgando e prescrevendo quem é digno de viver e quem não o é.
Segundo esta última lógica só quem é rico, tem sucesso, quem tem informação e a manipula em seu benefício, tem valor, é alguém. Quem não entra nesta lógica fica por fora de todo o esquema de sucesso, produção ou qualidade de vida. Nesta linha são colocadas as pessoas com deficiências mentais e físicas.

As pessoas com deficiência: sinal de contradição
Elas encarnam a dor, invoca, a fragilidade, denunciam o limite da condição humana são sinal de contradição e de escândalo. As suas dificuldades e as suas desarmonias testemunham contra a moda efémera de uma beleza entendida como mero esteticismo e apelam, no tempo, para uma harmonia mais profunda, revelando, para além de todo o fenómeno contingente, a consistência última e fundante da pessoa como valor ontológico. Por isso a pessoa deficiente é "testemunho privilegiado de humanidade", expressão transparente e imediata do valor humano.
Ela afirma o valor da vida para além de toda a determinação de funcionalidade e de eficiência.
"A dignidade da pessoa é manifestada em todo o seu esplendor quando se consideram a sua origem e o seu destino: criadas por Deus à sua imagem e semelhança e remida pelo precioso sangue de Cristo, a pessoa é chamada a ser 'filho no Filho' e templo vivente do Espírito, destinada à vida eterna em comunhão feliz com Deus" (João Paulo II, Christifideles Laici).
Tudo isto provoca todo o tipo de sociedade para uma séria reflexão e compreensão de tal realidade, também quando se vêem somente 'fragmentos' segundo a lógica de categorias humanas artificiais, como poderia acontecer nas pessoas deficientes, mas que ao mesmo tempo são sempre 'testemunhas privilegiadas de humanidade'. Um autor escreveu: "A provocação de aprender a conhecer, a estar com uma pessoa deficiente e a cuidar dela não é mais que aprender a conhecer, e a amar a Deus. O rosto de Deus é o rosto da pessoa deficiente; o corpo de Deus é o corpo da pessoa deficiente; o ser de Deus é o ser da pessoa deficiente" " (A. McGill, citato da S. Hauerwas, Suffering Presence, 1986).

Reacções
Tudo isto convida a inverter as perspectivas, a mudar o olhar com que olhamos para a pessoa deficiente para nos perguntarmos não só de quanta solidariedade ela precisa, mas sobretudo para nos apercebermos de quanto ela seja capaz de nos oferecer testemunhando o valor de si e inalienável da vida.
Na pessoa portadora de grave deficiência, a derrota existencial da doença incapacitante torna-se ocasião de identidade e de transparência da comum humanidade com que ela partilhamos.
Ela é quase por definição e estruturalmente o "pobre", aquela que se encontra na condição de ter que aceitar que a sua pobreza, a sua dependência ds outros seja ostentada quase sem descrição, sem fingimentos que ocultem aquela não auto-suficiência que o individualismo triunfante não reconhece e que afinal é de todos.
Frequentemente se desvia o olhar da pessoa deficiente e nem sempre por uma banal indiferença, mas na realidade, mesmo inconscientemente, ela ameaça as nossas falsas seguranças, provoca-nos na medida em que nos recorda as limitações de que somos circunscritos, e que desejaríamos de exorcizar enfatizando mitos da modernidade: o progresso, a ciência a técnica… É aquela que não aguenta o passo na sociedade do "tempo real" e do "valor acrescido": é a não produtiva e por conseguinte, aquela que é inútil e residual.
O seu déficit de autonomia interpela e não deixa via de saída: ou a solidariedade ou a recusa e a negação.
Mas a solidariedade não é um movimento benévolo do coração, um bom sentimento; é pelo contrário, o reconhecimento pleno e objectivo da posse de um inteiro direito de cidadania e é, sobretudo, um "con-viver" autentico por uma opção pessoal e consciente de responsabilidade.
Neste sentido a comunidade não se pode limitar a "assistir" a pessoa deficiente, mas deve pelo contrário, "tomar conta dela".

Realidade actual - discriminação
Também formas assistências muito avançadas podem corresponder a um intento, mais ou menos latente, de marginalização: disponibilidade a investir recursos para uma assistência qualificada, contanto que quem não tem possibilidades de pagar as prestações não se intreduza na rede sofisticada de uma sociedade que deve correr veloz para produzir riqueza.
"Cuidar" quer dizer curar também quem não pode melhorar, Utilizar todos os recursos e realizar uma acção global e integrada da pessoa.
Nos países ricos a lógica do lucro e do bem estar ilimitado sugere uma marginalização "doentia" da pessoa deficiente. O seu direito foi proclamado, mas as normas que o tutelam não são aplicadas. A sua "diversidade" torna-se famosa quando faz notícia e dá aos mass media ocasião de espectáculo. A fadiga do seu viver quotidiano é ignorada, talvez voluntariamente oculta. A assistência tornou-se preciosa, e vale-se por vezes também de estruturas de prestigio, mas correm o risco de não serem menos guetizantes .
Nos países pobres as necessidades primárias ligadas à sobrevivência da generalidade do povo, prevalecem sobre tudo. Analfabetismo, desemprego, pobreza juntam humilhação à discriminação que nas "megalopoles" do chamado Terceiro Mundo, apaga todo o rasto daquele parcial apoio que a comunidade de aldeia e o clã podem de algum modo garantir noutros lugares.
Tanto nos países ricos como nos países pobres são poucos os recursos económicos e científicos para a prevenção das doenças que invalidam a pessoa; pelo contrário o progresso e a tecnologia pretendem os seus sacrifícios humanos também com grave prejuízo biológico e de deficiência.

Novidade: possibilidade de criar novas relações
Com efeito, aquela limitação, que não é uma diminuição ocasional, contingente ou transitória, mas sim algo de íntimo e estrutural que desce no profundo, oferece uma fonte, evoca uma dignidade incondicional da pessoa.
Convida por conseguinte a conceder uma convivência feita de confiança e não de suspeito ou desconfiança, de evidente gratuidade e não de mesquinhos bloqueios, de imediata frescura nas relações interpessoais, de consciente e serena dependência reciproca, de alegria de viver
As pessoas portadoras de deficiência dão os mais fortes impulsos e oferecem grandes recursos morais e espirituais para um mundo conforme aos planos de Deus . Oferecem um contributo de esperança e de amor à história humana. Revelam ao homem aquilo que o homem é: a pessoa vale por aquilo que é e não por aquilo que tem ou sabe fazer (G.S 35) especialmente numa sociedade onde o que conta é a beleza física, a auto-afirmação, a busca de poder e do primado sobre os outros.
Mostrando a dependência da criatura do Criador com a sua confiança e dependência dos outros e afirmam esta união que dá vida. "A criatura sem o Criador esvanece" (GS 36).
A pessoa deficiente é , portanto, uma recurso, uma advertência vivente; derruba a dor, traduz o sofrimento em vida de louvor. Aceitação, solidariedade directa e pessoal, promoção activa de ajuda, realização de obras e iniciativas: são quatro momentos - que no plano das relações pessoais e sobre o plano público e institucional- necessários a uma concreta "reforma" da nossa atitude antes de mais das mesmas estruturas sociais e civis perante a condição da deficiência

TESTEMUNHO
O testemunho de um avô Uma relação especial
A notícia de que a nossa netinha tinha nascido com sérios problemas e que estava a lutar para viver, nos atingiu como uma flecha. A nossa primeira reacção foi um misto de choque, não acreditar, descontrolada esperança que as coisas se pudessem resolver, e de dor.
Nas semanas seguintes experimentamos todas as emoções que os avós nesta situação podem experimentar: choque, não acreditar, negação, rancor, dolorosa tristeza e por fim, aceitação.
Laura foi atingida por CMV devida a um vírus e da quadriplegia.
Pouco depois aceitamos Laura por aquilo que era e não por aquilo que gostaríamos que fosse . As informações dos vários profissionais da universidade onde trabalhava com bibliotecário e os livros à dedicação foram de grande ajuda neste momento. Dedicamo-nos totalmente a Laura passando o tempo com ela, ajudando a minha filha Kathy e a cuidar dela e dos outros dois filhos.
Demos apoio emotivo, amor, aceitação e confiança. A nossa dedicação ajudou Laura a aceitar o sua situação e os seus pais a sentirem-se menos sós, encorajando-os na tristeza e auto-compaixão. Quando levo Laura comigo no carro, tenho uma linda ocasião de lhe contar histórias, de lhe falar e de a ouvir como se tivesse na escola. Estas viagens semanais contribuíram para estabelecer uma relação alegre e profunda com Laura e deram-me também uma missão particular no seu crescimento e formação. Aprendi que Laura compreende muito mais do que parece.
Tudo o que demos e que procuramos dar - minha esposa morreu quando Laura tinha 8 anos - é principalmente aquilo que cada avô/ó dá a cada neto/a. Antes de mais ela é minha neta; uma neta com necessidades especiais.
Aquilo que recebi como avô de uma criança deficiente é muito mais daquilo que dei. Conquistei uma proximidade especial com a família de Laura. Tenho uma relação mais profunda com os outros meus filhos e respectivas famílias porque todos partilham a experiência da família de Laura. Adquiri uma nova sensibilidade para as necessidades das outras crianças deficientes e suas famílias. Desenvolvi estima pelos talentos dos profissionais e especialistas e uma melhor habilidade para ajudar e consolar os pais e avós que experimentam a chegada de uma criança deficiente nas suas famílias
Sobretudo, adquiri uma amizade muito especial com uma pessoa muito especial e experimentei "a alegria e a proximidade que uma criança com necessidades especiais dá a uma família".

FICHA DE PREPARAÇÃO PARA JORNADA JUBILAR DE 3 DE DEZEMBRO 2000 (COMITÉ PARA A JORNADA JUBILAR DA COMUNIDADE
COM PESSOAS DEFICIENTES)

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