Pe. Jesus Emílio
Osorno, M.X.Y.
Secretário Executivo do Departamento de Missões
do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) |
Apresentação
O CAM 2 ou COMLA 7 será o primeiro Congresso Americano
do século XXI e do terceiro milênio. Será
também o primeiro do seu gênero na América
Central. Na última década do século XX, o
Papa João Paulo II vislumbrava o início «de
uma grande primavera cristã para a Igreja» (cf. Redemptoris
Missio, 86). Nós somos os primeiros beneficiários
destas luzes primaveris. Temos o dever de colher as suas primeiras
flores.
Os COMLAs, e depois o CAM, deram à Igreja latino-americana
- e procuram oferecer a todo o continente americano – pautas,
orientações e mandatos missionários que têm
despertado a consciência do nosso Povo crente, abrindo as
portas do mundo inteiro às nossas Igrejas particulares.
Trata-se de um fruto amadurecido das Pontifícias Obras
Missionárias e dos seus máximos dirigentes.
Os Congressos Missionários exigem uma grande preparação,
distinguem-se por diversas expressões festivas na sua celebração
e reúnem uma multidão de pessoas que querem compartilhar
as suas experiências pessoais de fé, cheias de vida.
Além disso, corroboram as suas deliberações
com compromissos que procuram corresponder aos desafios mais urgentes
no campo da Missão.
São as Igrejas anfitriãs que recebem o maior benefício
deste acontecimento eclesial. É importante salientar, por
exemplo, o compromisso assumido durante o CAM 1 ou COMLA 6, por
parte da Igreja que está na Argentina, de ir ao encontro
da comunidade eclesial que está em Moçambique, para
ajudar as Igrejas irmãs que dão e recebem umas das
outras, como testemunho de comunhão e de solidariedade.
O Documento de Puebla diz-nos que «finalmente chegou para
a América Latina a hora de... se projetar para além
das suas fronteiras, ad gentes» (n. 368).
«Este finalmente não é algo que quase se ignora
e, no último momento, se acrescenta para que a frase fique
mais completa. Não se trata de uma figura decorativa, própria
da linguagem eclesiástica. É algo que teve de ser
aguardado por um prolongado período de tempo mas que, enfim,
amadureceu como uma exigência vital no seio das Igrejas
particulares que peregrinam na América Latina».
Finalmente... América Latina, chegou para ti a hora de
te projetares ad gentes... para partires da tua pequenez, da tua
pobreza e do sangue dos teus mártires. É o fruto
amadurecido de uma longa espera. Não tens mais componendas,
subterfúgios nem desculpas que possam atrasar ou impedir
este acontecimento, esta primavera. «Já passou o
inverno» da indiferença ou da mesquinhez e agora
abre-se o horizonte infinito da solidariedade, da comunhão
universal.
Justificação
É indubitável que a preparação do
CAM 2 ou COMLA 7, por parte das Igrejas da América Central,
já evidenciou o «passo do Espírito»
em todas as nossas Igrejas particulares. O Senhor sensibilizou-nos.
Ele abriu-nos os olhos. Não se trata de uma mera mobilização.
Houve um processo de conscientização, de animação,
de formação e de organização missionárias.
Deu-se um passo em frente verdadeiramente importante. Não
é um passo que se improvisa, uma vez que tem as suas raízes,
a sua história e o seu próprio dinamismo.
O CAM 2 ou COMLA 7 é uma hora de graça missionária
para a América Central. Graça que o Senhor concede,
não para que seja conservada ciosamente ou para dela se
fazer uma ostentação orgulhosa, mas como uma Dádiva
para se compartilhar, «dar e convidar». «Sinto
– afirma o Papa João Paulo II - que chegou o momento
de empenhar todas as forças eclesiais na nova evangelização
e na missão ad gentes. Nenhum crente, nenhuma instituição
da Igreja se pode esquivar deste dever supremo: anunciar Cristo
a todos os povos!» (Redemptoris Missio, 3).
«Todas as forças eclesiais»! O Papa não
quer porções, sobras ou migalhas que caem das mesas
abundantes. Não! Todas as forças eclesiais, para
a missão ad gentes: o dinamismo de cada uma das Igrejas,
os seus agentes no campo da pastoral, os seus planos e projetos
de pastoral, toda a formação, a liturgia, a espiritualidade,
todas as estruturas de organização a níveis
regional, nacional, diocesano e paroquial. Todas!
O Santo Padre une e relaciona a nova evangelização
à missão ad gentes, condicionando uma em função
da outra. Existe «uma real e crescente interdependência
entre as diversas atividades salvíficas da Igreja: cada
uma influi sobre a outra, estimulando-a e ajudando-a» (Ibid.,
n. 34). Sem a missão ad gentes é impossível
compreender a nova evangelização. Somente a missão
ad gentes dá o dinamismo necessário às nossas
Igrejas, para que respondam às suas problemáticas
internas. «Sem a missão ad gentes, a própria
dimensão missionária da Igreja ficaria desprovida
do seu significado fundamental e do seu exemplo de atuação»
(Ibid.).
Ao exigirmos nós mesmos, como Povo de Deus que peregrina
na América Central, que se consolidem todas as forças
em vista da missão ad gentes, surge uma necessidade, que
consiste no fato significativo e peremptório de definir
com projetos e programas algumas metas que dêem consistência
e unifiquem estas forças como compromisso da parte dessa
região, representando o resultado do CAM 2 ou COMLA 7.
Queremos formar a estrutura de um Projeto que, captando o melhor
da nossa caminhada evangelizadora, partindo da nossa «pequenez,
pobreza e martírio», como nossa contribuição
original e, aproveitando o acontecimento providencial da celebração
do CAM 2 ou COMLA 7, assumido colegialmente como expressão
de comunhão e testemunho de solidariedade entre as nossas
Igrejas, constitua uma expressão conjunta da nossa vocação
missionária ad gentes.
O Departamento Missionário (DEMIS) só quer apresentar
algumas sugestões de trabalho, de reflexão e de
convocação, que animem durante o ano missionário
o estudo da praticabilidade, as possibilidades, a procura de instrumentos
e finalidades mais realizáveis, de tal maneira que se possa
prever como um dos atos salientes do CAM 2 ou COMLA 7, a apresentação
do Projeto missionário unitário, concreto e definitivo,
proposto pela Comissão Central, com o aval do Secretariado
Executivo do Departamento Missionário da América
Central (SEDAC) e como contribuição de toda a América
Central para a Igreja universal e para a missão ad gentes.
Esta pode ser a grande novidade do CAM 2 ou COMLA 7. Será
também um ponto de referência na nova caminhada que
espera os CAMs ou COMLAs neste novo século e milênio.
Critérios
Partimos de cinco critérios que definem os motivos teológicos,
espirituais e pastorais do nosso Projeto.
1. A originalidade da América Central
Quando a exígua delegação da Guatemala,
em nome de toda a América Central, aceitou na localidade
de Paraná (Argentina), a organização do CAM
2 ou COMLA 7, irrompeu a voz profética para dizermos que
ela foi assumida a partir da «pequenez, pobreza e martírio».
Estas palavras são o eco de três vocábulos
latinos do Evangelho de Lucas: «Ecce, fiat e magnificat».
Maria disse: «Ecce», eis-me aqui; «fiat»,
faça-se em mim segundo a sua vontade; «magnificat»,
a minha alma glorifica o Senhor, porque em mim realizou grandes
coisas.
E foi também uma premonição do Nican Mopohua,
quando a Virgem disse: «Joãozinho, pequeno João
Diogo, o mais pequeno dos meus filhos... Eu ouvi-te... e tu contarás
tudo aquilo que viste e admiraste, e tudo o que ouviste... por
isso, enriquecer-te-ei e gloficar-te-ei». É a exaltação
da pequenez nos planos de Deus, a matéria-prima da sua
obra-mestra: a missão.
A América Central teve o seu primeiro corpo colegial, a
nível de conferências episcopais na Igreja, mesmo
antes da formação do CELAM. Trata-se do SEDAC. É
uma experiência de comunhão, de participação,
de serviço, de ajuda e de dinamismo pastoral.
O testemunho de martírio da América Central constitui,
nos tempos modernos, um fato sem precedentes para a vida da Igreja
no Continente. Se o sangue é «semente de cristãos»,
esta semente deve brotar em florescimento em todo o universo,
sob pena de conservar dentro do seu próprio cântaro
a força mais dinâmica e multiplicadora do Evangelho.
Falar da originalidade da Igreja da América Central significa
agradecer a Deus os seus animadores da Palavra, os seus catequistas,
os seus dirigentes municipais, a sua vasta diversidade étnica
e cultural, as suas pequenas comunidades eclesiais, vivas e dinâmicas,
os seus pastores, as suas lutas pela libertação
e pela justiça, a sua esperança jamais sufocada
e a sua profunda vivência comunitária traduzida em
solidariedade, em resistência indestrutível e em
alegria festiva.
Tudo isto nos fala de uma potencialidade única, rica, inédita
e própria da Missão ad gentes.
2. Comunhão e participação
A Conferência de Puebla convidou-nos a considerar a Missão
a partir da perspectiva da comunhão e da participação
(cf. Documento de Puebla, 15). Hoje, temos o dever de reconhecer
as implicações profundamente missionárias
destas dimensões centrais do mistério da salvação,
que se realiza na história e se projeta para a revelação
escatológica definitiva do Reino de Deus. Estes temas-chave
empobrecem-se, quando não são entendidos a partir
de uma ótica universalista.
O Concílio Vaticano II falou da Igreja como de um sinal
e instrumento da comunhão dos homens entre si e com Deus.
Esta comunhão desejada por Deus realiza-se não somente
em cada uma das comunidades eclesiais, e tampouco apenas na relação
necessária nas Igrejas locais entre si, mas projeta-se
para toda a humanidade, para todos os homens e mulheres, rumo
a todos os povos. A Igreja universal, vitalmente presente em cada
uma das Igrejas locais, significa e realiza este mistério
no contexto da história.
A «comunhão» é um elemento essencial
na Igreja. E a comunhão, para que não permaneça
apenas como uma palavra muito bonita e um sentimento piedoso,
deve traduzir-se em «comunhão e participação».
«Em virtude da comunhão – afirma o Decreto
conciliar Ad Gentes – as Igrejas comunicam entre si os seus
próprios bens» (n. 38).
A Conferência de Puebla continuará a ser, no nosso
Continente, a voz profética que dá um suave toque
de graça às nossas Igrejas particulares, convidando-as
para «anunciar e promover os valores evangélicos
da comunhão e da participação» (cf.
Documento de Puebla, 15), «dando a partir da sua pobreza»
para «intensificar os serviços mútuos entre
as Igrejas particulares», «projetando-se para além
das suas próprias fronteiras ad gentes» (Ibid., n.
368).
Por conseguinte, a comunhão deve ser o fundamento de toda
a consciência e compromisso missionário, se quiser
ser realmente a expressão do que há de mais radical
e fulcral no seio da Igreja. É um modo de ser, um novo
estilo e uma nova conduta dentro da Igreja e das relações
das diversas Igrejas particulares entre si.
O Papa João Paulo II também dá testemunho
disso, quando nos diz na Carta Apostólica Novo Millennio
Ineunte: «Partindo da comunhão dentro da Igreja,
a caridade abre-se, por sua natureza, ao serviço universal,
frutificando no compromisso de um amor ativo e concreto por todos
os seres humanos. Este âmbito qualifica de modo igualmente
decisivo a vida cristã, o estilo eclesial e a programação
pastoral» (n. 49).
Com toda a força da patrística e da práxis
das diferentes Igrejas particulares dos primeiros séculos,
afirmamos que a «comunhão entre as Igrejas é
inseparável da missão ad gentes, pois inclui a função
de suscitar novas Igrejas» (cf. Clemente Romano aos Coríntios,
XLI, 4; XLII).
Reconhecemos a potencialidade evangelizadora do povo de batizados
como protagonista – e não apenas destinatário
– da missão. Compreendemos a evangelização
como uma ação que se realiza a partir do povo, e
não só para ele. A respeito deste aspecto, temos
necessidade de insistir sobre o protagonismo dos batizados e das
batizadas, especialmente dos fiéis leigos, gerando a participação
em todos os processos da ação evangelizadora da
Igreja.
3. Dar a partir da nossa pobreza
Uma das maiores contribuições da América
Latina para a Missão é a [sua] pobreza. Esta pobreza
é vista como possibilidade, abertura, comunicação
de bens, comunhão e participação. Mas também
como estilo de vida, desapego e simplicidade. E sobretudo como
anúncio de algo novo, que pode estar fecundando nas camadas
mais baixas da sociedade, no sofrimento e nas lágrimas
dos pobres do mundo inteiro. Trata-se de um anúncio e de
uma admoestação: o futuro deve ser diferente. Mais
do que uma condição, a pobreza é um sinal
de novidade: é profecia.
A fim de que a Igreja que está na América Central
assuma a pobreza na sua dimensão profética, são
necessários:
** a audácia de gestos significativos e inequívocos
de caridade no seguimento de Jesus;
** que a fidelidade aos últimos tenha uma incidência
social e histórica;
** que a comunhão e a participação se exprimam
em serviços concretos entre as Igrejas particulares, tais
como o intercâmbio de agentes de pastoral, o incentivo a
projetos conjuntos e a assistência financeira;
** a promoção de experiências de inculturação,
que exprimam a autenticidade das suas raízes culturais
e constituam uma contribuição para a Igreja universal;
** a multiplicação de ministérios laicais,
como contributo específico dos leigos para as Igrejas particulares;
e, finalmente,
** o apoio ao Projeto missionário.
Sentimo-nos pobres diante da falta de recursos pessoais e materiais,
necessários para uma perspectiva missionária. Sentimo-nos
pobres perante a escassez de uma tradição missionária
generalizada. Sentimo-nos pobres face aos grandes problemas pastorais
que nos angustiam.
Mas em tudo isto, não podemos deixar-nos orientar por critérios
meramente humanos. A sabedoria do mundo sugere-nos que esperemos
até que todos os grupos humanos das nossas Igrejas particulares
sejam evangelizados, a ponto de nos tornarmos auto-suficientes,
para então empreendermos a missão nos outros continentes.
Contudo, a lógica do Evangelho é diferente: ela
exorta as Igrejas mais jovens, mesmo as mais carentes de pessoal
suficiente, para que participem quanto antes possível na
missão universal (cf. Ad Gentes, 20).
Nesta perspectiva, a Conferência de Puebla urge-nos a intensificar
imediatamente os nossos esforços missionários ad
gentes, sem esperar um período ideal em que não
haja mais riscos, nem sacrifícios. A Conferência
de Puebla pede-nos que cheguemos a «dar a partir da nossa
pobreza».
Esta atitude de dar a partir da pobreza reflete o estilo da ação
de Deus na história da salvação, uma vez
que Ele escolhe os pequeninos e os mais frágeis para ser
seus colaboradores. Esta atitude convida-nos inclusive a seguir
modelos missionários que sejam mais simples e, por conseguinte,
mais evangélicos.
Aqui nasce um novo estilo de missão, que se propõe:
não levar, mas descobrir; não só dar, mas
também receber; não conquistar, mas sim compartilhar
a procura; não ser mestre, mas aprendiz da verdade, valorizando
tudo o que houver de bom e de verdadeiro nos outros povos e nas
demais culturas.
Esta é a vocação, a escolha que Deus faz
em relação à América Central, por
ocasião do CAM 2 ou COMLA 7.
4. Renovação
O Papa João Paulo II afirmou em diversas circunstâncias:
«A missão renova a Igreja». Ela ajuda-nos a
abrir fronteiras, a descobrir novos horizontes, a conhecer outras
culturas, a permutar metodologias pastorais, a contemplar a presença
de Deus a partir de experiências vividas, celebradas e compartilhadas
nos novos contextos teológicos, e sobretudo a pôr
fim a toda a rotina, mediocridade e passividade. A missão
gera um processo irrefreável de criatividade, de imaginação
e de iniciativas, em ordem à construção do
Reino.
Por isso, temos necessidade de inserir cada vez mais a missão
universal em cada uma das nossas Igrejas particulares, paróquias
e comunidades. O Concílio Vaticano II exprime-o com as
seguintes palavras: «A graça de renovação
das comunidades não pode crescer, se não alargar
cada um dos campos da caridade até os confins da terra
e não tiver pelos “distantes” uma solicitude
semelhante à que sente pelos seus próprios membros»
(Ad Gentes, 37).
Acreditamos sinceramente que a fidelidade das nossas Igrejas particulares
da América Central, que partem ad gentes apesar da sua
pobreza e mesmo em sérias condições de necessidade,
forjará nelas não apenas um fator de renovação,
mas também de unificação das suas diferentes
opções e do seu pluralismo, por vezes tão
necessitados de reconciliação e de síntese.
A missão é o grande dinamismo unificador da Igreja,
da sua teologia, da sua pastoral e da sua espiritualidade. O componente
missionário insere-se no âmago da fé, revigorando
e dinamizando a teologia e a pastoral no seu conjunto, gerando
um novo modo de ser, dando um novo sabor e uma renovada energia
vitalizadora, que é a espiritualidade missionária.
5. Os grupos missionários
A missão tem um sinal, e sobretudo quando se projeta a
partir da América Central: é o testemunho de uma
pequena comunidade. A vida cristã é comunidade,
e a sua tarefa consiste em formar (outras) comunidades, pequenos
grupos em que o amor seja um sinal e um testemunho. Ali, a Palavra
de Deus é experimentada, vivida e realizada. O dom do Espírito
Santo é o seu guia, a sua força e o seu dinamismo.
Não obstante, estas comunidades são missionárias:
elas crescem, multiplicam-se e geram renovadas pontencialidades
de envio, de anúncio e de comunicação do
Evangelho.
A missão não é uma aventura, uma tarefa para
pessoas isoladas. E não é, tampouco, um monopólio
de alguns indivíduos privilegiados ou de certos setores
exclusivos. É tarefa que cabe ao povo de Deus. Por isso
mesmo, são os grupos compostos por sacerdotes, religiosos,
religiosas, leigos e leigas que, em nome das suas Igrejas particulares,
enviados pelos seus bispos, devem ir mais além, ad gentes,
para anunciar Jesus Cristo.
Os grupos de missionários não renunciam à
sua comunidade de origem, mas estabelecem com ela um vínculo
mais profundo de pertença, de comunhão, de relação
e de dependência. Esta é a expressão mais
significativa e mais convincente da missionariedade da sua Igreja
particular. Por conseguinte, a comunicação, a vivência
espiritual e a solidariedade traduzida em numerosos pormenores
alimentarão a vida daquele que é enviado e de quem
o envia, de maneira cada vez mais renovada, criativa, generosa
e vital. Trata-se do princípio de um novo modo de ser Igreja:
a Igreja missionária.
Objetivo geral
Animar as Igrejas que estão na América Central
a fim de que, em função do CAM 2 ou COMLA 7, realizem
de forma concreta o propósito de se projetar para além
das suas próprias fronteiras: ad gentes.
Objetivos específicos
? Fortalecer as Igrejas particulares, para que assumam o seu
compromisso universal.
? Testemunhar na América Central a vida da Igreja como
«casa e escola da comunhão», em ordem ao seu
compromisso missionário.
? Centralizar a formação do Povo de Deus e, de forma
especial, dos agentes de pastoral, no dinamismo unificador da
missão.
? Formar comunidades vivas e maduras (cf. Documento de Puebla,
364) na escolha da missão.
? Estimular o envio missionário ad gentes em cada uma das
Igrejas particulares, de leigos e leigas, religiosos e religiosas,
e de sacerdotes do clero diocesano.
? Promover nas comunidades a espiritualidade da missão
a partir da contemplação.
Destinatários
Este projeto tem como destinatário todo o Povo de Deus
que peregrina na América Central, mas concentra-se de maneira
específica em dois sujeitos bem definidos.
1. As Igrejas particulares
«Se quiser ser radical, todo o compromisso missionário
deverá recomeçar a partir da “centralidade”
da Igreja particular». Isto define o futuro da Igreja, como
foi proclamado pelo Concílio Ecumênico Vaticano II.
Ali, a Igreja particular volta a adquirir o seu protagonismo como
sujeito ativo da missão ad gentes. A Igreja particular
alcança a sua plena maturidade, quando assume a totalidade
da missão da Jesus Cristo e esta totalidade inclui, necessariamente,
a abertura para além dos confins que lhe são próprios.
Cada uma das Igrejas particulares é enviada por Jesus Cristo
para levar o Evangelho aos ambientes circunvizinhos e para o mundo
inteiro. Ela é responsável pela sua missão
e co-responsável pela missão de todas as Igrejas.
Hoje, com maior vigor, as Igrejas particulares sentem o anseio
por todas as Igrejas e comprometem-se cada vez mais na grandiosa
tarefa missionária a nível universal.
Toda a Igreja é, por sua natureza, misisonária.
Neste sentido, poder-se-ia dizer que cada uma das Igrejas particulares
deve organizar-se em ordem à missão, enviando e
ajudando os missionários. Sem este impulso missionário,
como no-lo diz o Papa João Paulo II, ela «corre o
perigo de ficar incompleta ou de se deter» (Mensagem de
João Paulo II para o «Domund», 1981).
Nas origens do cristianismo, eram as Igrejas particulares que
se encarregavam do envio dos missionários e da formação
das novas comunidades. Éfeso, Filipos e Antioquia enviavam
os melhores missionários. Cada uma das comunidades vivia
a «solicitude pelas Igrejas». «O Senhor incluía
cada dia, na comunidade, aqueles que haviam de ser salvos»
(cf. At 2, 2-47). A «missionariedade» não era
um elemento opcional. Toda a sua vida – fundamentada sobre
a Palavra, a Eucaristia e a Caridade – era testemunho e
anúncio de Jesus Cristo. A missão era concebida
e vivida como um dar e um receber, como uma permuta de dons. As
transformações dos tempos fecharam este capítulo
missionário, que só voltou a abrir-se recentemente,
por ocasião do Concílio Ecumênico Vaticano
II.
A missionariedade das Igrejas particulares é uma exigência
de comunhão. Comunhão com toda a Igreja universal,
comunhão entre as próprias Igrejas particulares
e comunhão como expressão da missão. Por
isso, falamos dos Espaços da comunhão, porque a
comunhão não pode subsistir exclusivamente a nível
teórico. É necessário pô-la em prática,
são precisos fatos concretos, respostas sérias,
programadas e contínuas. Como responder ao Papa, quando
formula votos por que o novo milênio venha a ser uma ocasião
para a renovação da Igreja, em conformidade com
as exigências do Concílio Vaticano II (cf. Novo Millennio
Ineunte, 2)? E o Papa quer que Ela se renove através da
missão na comunhão.
Em Puebla, os Bispos afirmaram: «Devemos assumir a colegialidade
episcopal, com todas as suas dimensões e consequências,
a níveis tanto regional como universal» (Documento
de Puebla, 702). Quais são estas dimensões e consequências?
É o próprio Documento de Puebla que responde a esta
interrogação: «A Igreja particular deverá
dar maior relevo à sua índole missionária
e à comunhão eclesial, compartilhando valores e
experiências, e favorecendo o intercâmbio de pessoas
e de bens» (Ibid., n. 655).
Quem é que estabelece o critério para «o intercâmbio
de pessoas e de bens»? É ainda o Documento de Puebla
que responde a esta pergunta: «Ele define-se a partir da
Pobreza» (Ibid., n. 368). O critério evangélico
é a necessidade do próximo, e não o cálculo
humano, que tem em vista primeiro a abundância do que se
possui, para então dar somente daquilo que sobra. Deve-se
dar também daquilo que se possui como último recurso
para a própria subsistência, em conformidade com
os conselhos evangélicos. A abundância de bens eclesiais:
os recursos humanos, os fundos financeiros e as estruturas não
se tornem cegos e surdos às necessidades do próximo.
Considerando que somos ricos, damos muito pouco.
«A obrigação do Bispo – afirma ainda
o Documento de Puebla – consiste em criar todos os mecanismos
necessários para que a sua Igreja particular seja uma comunidade
evangelizada e evangelizadora, apta para o intercâmbio com
as outras Igrejas particulares, animada pelo espírito missionário,
e que faça irradiar a riqueza evangélica que habita
no seu interior» (cf. ibid., n. 647).
Na sua Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, o Papa
João Paulo II diz-nos: «Os espaços da comunhão
hão de ser aproveitados e promovidos dia a dia, a todos
os níveis...» (n. 45). Hoje em dia, é frequente
falar da comunhão entre as Conferências Episcopais,
entre os vários bispos, entre os presbíteros, entre
as paróquias, entre os diversos movimentos eclesiais, entre
as congregações e as ordens, entre os institutos
missionários e em todo o Povo de Deus. E tudo isto, para
quê? Para renovar a Igreja e para fazer com que a Missão
seja eficaz...
Contudo, enquanto não centralizarmos os nossos projetos
e os nossos planos pastorais na Missão, temo que a comunhão,
tão desencantada e exigida, permanecerá como uma
letra morta, e as nossas Igrejas particulares continuarão
a sua rotina habitual, a caminho da decadência anunciada.
O Documento de Santo Domingo exorta as Igrejas particulares do
Continente a «assumirem com coragem o envio missionário,
tanto de sacerdotes como de religiosos e leigos. Coordenem os
recursos humanos e materiais, que fortaleçam os processos
de formação, envio, acompanhamento e nova inserção
dos missionários» (Documento de Santo Domingo, 128).
2. Os povos, especialmente os do mundo não evangelizado:
Missão ad gentes
O Santo Padre constata com amargura que depois de dois mil anos
de Anúncio do Evangelho, «a missão ad gentes
ainda está no começo» (Redemptoris Missio,
40). Esta realidade desafia-nos, comove-nos e constitui uma prova
para todas as nossas opções.
Trata-se, pois, da atividade missionária junto aos povos
ou grupos humanos que ainda não conhecem Jesus Cristo.
A sua finalidade consiste em anunciar Cristo e o seu Evangelho,
para suscitar a fé cristã na sua grande novidade;
fazer nascer comunidades cristãs nas diversas culturas,
ou seja, fazer nascer e crescer a Igreja local; e promover os
valores do Reino de Deus na sociedade. Esta é a chamada
«missão ad gentes», destinada aos povos não
cristãos.
Entendemos a «missão ad gentes» como um movimento
de amor para além das fronteiras cristãs, a fim
de que o Evangelho seja acolhido por todos os homens e mulheres,
por todos os povos da terra. Trata-se de um movimento ininterrupto,
começado por Jesus Cristo, o Senhor ressuscitado, enviado
pelo Pai para que o homem e a mulher tenham vida. A Igreja continua
este movimento com a força do Espírito Santo, enviando
missionários e missionárias para junto dos povos
que ainda não conheceram (a níveis pessoal e cultural)
a mensagem evangélica, em vista de a transmitir a eles
e de se enriquecer por sua vez com os valores – sementes
do Verbo – neles já presentes.
Programas
O Projeto missionário para a América Central, aqui
apresentado, tem em vista cinco programas, que a seguir damos
a conhecer:
1. O programa das Igrejas Irmãs
O programa das «Igrejas Irmãs» é a
ação por intermédio da qual duas Igrejas,
a níveis local, nacional ou continental, com a finalidade
de motivar e de realizar o dever da missão universal que
incumbe sobre todo o Povo de Deus, se comprometem numa contribuição
de ajuda missionária, mediante a oferta de recursos humanos,
financeiros e institucionais.
Desta forma, vivendo em comunhão e participação,
duas Igrejas Irmãs dão lugar a um novo modo de ser
Igreja. Nenhuma Igreja pode pensar que tem uma compreensão
autêntica da sua universalidade, se se fecha em si mesma,
desconsiderando a sua obrigação de fazer nascer
outras Igrejas e de prestar ajuda às mais necessitadas
de entre elas.
Este programa nasceu no Brasil. Gradualmente, foi tomando vigor
e forma. São numerosíssimas as Igrejas que se vão
associando entre si, numa comunicação de bens verdadeiramente
evangélica. Nenhuma Igreja é tão pobre que
não consiga dar algo, e nenhuma Igreja é tão
rica que não possa receber algo da sua Igreja Irmã.
A Carta Encíclica Fidei Donum, do Papa Pio XII, abre as
portas da África à Igreja universal. O Papa João
Paulo II, na Carta Encíclica Redemptoris Missio, exorta-nos
a partir rumo à Ásia. As nossas Igrejas da América
Central têm necessidade de se abrir às outras culturas,
línguas e tradições. Chegou a hora de apresentar
os nossos tesouros culturais a outros comensais. Chegou o momento
de compartilhar as riquezas da nossa Fé com outros povos.
Cada batizado é um enviado. Hoje em dia, a dádiva
do acolhimento e o fato de partir definem o caminho da renovação
das nossas Igrejas.
É importante ter em consideração, neste programa,
o conhecimento de ambas as Igrejas, os seus elementos culturais,
as suas necessidades mais sentidas e os seus recursos; a seleção
das pessoas a serem enviadas, a sua preparação e
o seu acompanhamento; os intercâmbios recíprocos
ou a reciprocidade de programas entre ambas as Igrejas, o respeito
mútuo e a ajuda para o crescimento e a maturidade.
2. O programa dos Centros Missionários Nacionais
A Instrução da Congregação para a
Evangelização dos Povos sobre a «Cooperação
Missionária» (Cooperatio Missionalis) encoraja as
Conferências Episcopais a criar um Conselho Missionário
Nacional. Este Conselho deverá coordenar todas as instâncias
missionárias das nossas Igrejas. Entre elas, podemos destacar
o Centro Missionário.
Estes centros missionários já foram recomendados
antes pelo Documento de Santo Domingo. Eles devem depender de
uma equipe missionária, impelida por uma espiritualidade
viva, em vista de uma ação missionária criativa
e generosa (cf. Documento de Santo Domingo, n. 128).
As nossas Igrejas necessitam de um mínimo de estrutura
que as ajude a enfrentar eficazmente os desafios da missão.
Muitas vezes, os recursos de que dispomos não nos permitem
assumir por nossa própria conta as inúmeras tarefas
e responsabilidades que se nos apresentam. Por isso, mais do que
centros missionários, prefiro falar de centros nacionais.
E no caso concreto da América Central, seria ainda melhor
falar de um Centro Missionário Internacional.
O Centro em questão deverá fundamentar-se numa trinômio
muito simples, que corresponde a algumas tarefas concretas na
vida das nossas Igrejas: organização, animação
e formação. Um pequeno grupo assumirá estas
funções ou responsabilidades.
Organização
Trata-se do planejamento das atividades e das respectivas responsabilidades,
dos objetivos e das metas, bem como da infra-estrutura que deverá
facilitar todo o trabalho a realizar. Ela procura unir todas as
forças vivas presentes na comunidade, as instituições
e todos os mecanismos que hão de assegurar o êxito
almejado.
Animação
Por animação missionária entendemos a união
de todas as forças vivas da Igreja, que concentram os seus
esforços e recursos em ordem a despertar no Povo de Deus
a consciência da Missão, assumida através
de opções e de compromissos concretos por parte
de todos e de cada um dos seus membros.
A animação missionária procura contagiar
com o espírito missionário toda a Igreja, nas suas
estruturas, em cada um dos seus membros, na reflexão teológica,
na pastoral e na liturgia. Visamos uma Igreja inteiramente missionária
e que viva em estado de missão, animada pelo mesmo Espírito
e aberta a todas as situações e a cada um dos sonhos
e das esperanças da humanidade inteira.
Formação
Apenas a animação não é suficiente,
porque está sujeita a definhar. É necessária
uma base sólida, consensual, que garanta a seriedade de
todo o processo. E isto só pode ser corroborado pela formação
e, neste caso, por uma formação missionária.
Uma das primeiras tarefas de um Centro Missionário consiste
em propiciar espaços e meios de formação
em favor da comunidade eclesial. Além disso, ela procura
centralizar toda a formação da comunidade na Missão.
O processo evangelizador deve estar totalmente impregnado da Missão.
O anúncio do querigma, a catequese, as preparações
pré-sacramentais, a liturgia, o acompanhamento dos animadores
e dos líderes das comunidades, tudo isto deverá
corresponder a níveis de formação bem estruturados
na missão e a partir da missão.
A formação missionária há de começar
a partir dos seminários. Eles são os centros de
missão mais representativos das Igrejas particulares. Sem
uma teologia centralizada na missão não poderá
existir uma pastoral missionária, nem uma espiritualidade
missionária. E sem uma teologia missionária, sem
uma pastoral missionária, sem uma espiritualidade missionária,
o que seriam as nossas Igrejas particulares? Outras Igrejas? Igrejas
paralelas no concerto eclesial?
Na conformação e na programação dos
Centros Missionários, é necessário trabalhar
em harmonia com as Pontifícias Obras Missionárias.
Um dos desafios mais sérios que temos de enfrentar nos
dias de hoje, no campo da pastoral missionária, são
os meios de comunicação. O centro missionário
tem o dever de enfrentar este desafio na sua organização,
animação e formação.
3. O Seminário Missionário Centro-Americano
Trata-se de uma idéia que está amadurecendo desde
há algum tempo. Tenho a certeza evangélica de que
o Espírito Santo está agindo nas mentes e nos corações
dos nossos pastores, neste sentido. Não é algo novo,
não corresponde a um esnobismo de última hora e
nem pode ser o fruto de uma improvisação. Sabemos
que peso e que responsabilidade isto comporta. Há de ser
uma obra da Igreja, da Igreja-Comunhão, que conte com o
consenso da Hierarquia, a ajuda do presbitério e o dinamismo
das nossas comunidades eclesiais.
Deve ser o fruto de um processo de oração, de reflexão
e de consideração das possibilidades que existem
num ambiente de Fé e de Confiança na Providência.
Trata-se do fruto da grande quantidade de sangue derramado, de
muitos animadores provados no sofrimento e na esperança,
de toda a angústia, dificuldade, pobreza e pequenez, de
toda a vida eclesial e de todo o dinamismo pastoral. É
o fruto amadurecido do CAM 2 ou COMLA 7.
Não é um sonho, mas algo que podemos realizar em
conjunto. Para isso, bastaria uma pequena dose de espírito
missionário nas nossas Igrejas, nos nossos agentes pastorais.
Não somos destinados a percorrer este caminho sozinhos.
Os institutos missionários do Continente americano devem
ajudar-nos neste projeto. Podemos contar também com a ajuda
da Congregação para a Evangelização
dos Povos. Tenho a certeza absoluta de que o Secretariado Executivo
do Departamento Missionário da América Central aprovaria
esta iniciativa. A riqueza espiritual, cultural e eclesial dos
nossos povos não poderia deixar-nos sozinhos neste campo.
Além disso, trata-se de um desafio, o maior que podemos
apresentar neste momento aos nossos jovens, aos nossos seminaristas,
aos nossos presbíteros e aos nossos religiosos. Um Seminário
assumirá os compromissos missionários de cada uma
das Igrejas particulares. Por conseguinte, serão os nossos
melhores agentes no campo da pastoral (ou seja, os seminaristas,
presbíteros, líderes juvenis e agentes pastorais
em geral) que aumentarão o grupo de vanguarda em ordem
à assunção deste compromisso. E tudo isto
com a aprovação dos seus pastores. É isto
que os documentos da Igreja proclamam, pedem e exigem: o melhor
para a missão ad gentes nas Igrejas particulares e a partir
delas mesmas.
Deposito esta proposta no coração de cada um de
vós. E rezo para que ela, no futuro, se torne uma realidade
repleta de bom êxito e os nossos missionários da
América Central possam partir rumo a todos os continentes,
em diálogo fraternal com cada uma das culturas e num trabalho
conjunto pelo Reino de Deus, com todas as religiões do
mundo.
4. A paróquia missionária
Trata-se de um miniprojeto. Mas talvez seja o mais prático
e realizável dos que que contiuamos a apresentar; mais
ainda, pode ser o início de um processo irrefreável
de missionariedade para cada uma das Igrejas particulares, em
toda a extensão da América Central.
Estamos conscientes da estratégia que pode representar
a paróquia num trabalho de conscientização,
formação e prática missionárias. Partimos
de uma exigência simples, a participação do
laicado, que contudo não deixar de ser uma proposta para
todo o Povo de Deus.
A seguir exponho um projeto neste sentido, em sete etapas, como
se tratasse dos sete sacramentos da paróquia missionária:
1. Começamos com a transformação de um grupo
de pequenas dimensões, de três a cinco pessoas, que
podemos definir como «equipe criativa». Devem ser
pessoas que vibrem, sintam e conheçam bem a Missão.
Sobre elas pesará a responsabilidade da organização,
formação e animação missionária
da Paróquia. É necessária uma determinada
dose de espírito de liderança. Contudo, pode-se
partir daquilo que já se possui. Será o tempo que
as transformará gradualmente.
2. Um plano pastoral paroquial conciso, centralizado na missão.
Que tudo respire, diga e signifique missão. «A tua
Vida é Missão». A espiritualidade, a liturgia,
os sacramentos, as devoções e a vida da comunidade
serão como que o seu eixo central, o eixo transversal da
missão.
3. A instauração de pequenos círculos missionários
de estudo e de leitura, com diversos programas culturais, estrategicamente
situados em toda a paróquia.
4. Experiências de trabalho pastoral com grupos da paróquia
noutras áreas pastorais, próximas ou distantes,
em conformidade com as possibilidades, mas fora da paróquia.
Este passo é fundamental: trata-se de tirar as pessoas
da paróquia, sair, ir além, a fim de que conheçam
outras realidades. Cada experiência deve ser precedida de
uma boa preparação e seguida da devida avaliação.
5. Poder contar com uma paróquia irmã, talvez noutro
continente, com a finalidade de estabelecer com ela vínculos
de solidariedade. Isto alarga o horizonte da paróquia.
Que os meninos e as meninas das nossas paróquias mantenham
correspondência com os meninos e as meninas das respectivas
paróquias irmãs. Devemos conhecer a história
das paróquias irmãs, a sua gente e a sua cultura.
Periodicamente, leiam-se as cartas que nos são enviadas,
no contexto das missas ou dos círculos de estudo. Ajudemos
uma pequena obra que ali se deseja realizar. E que esta experiência
se multiplique entre as comunidades, os grupos juvenis e os agentes
no campo da pastoral.
6. Experiências de missão noutro país. Gradualmente,
pode-se chegar a dar também este passo. Existem maravilhosas
experiências de respeito. As pessoas vão amadurecendo
no seu compromisso e nas suas opções, a tal ponto
que começam a exigir este tipo de experiência. É
a paróquia missionária que envia os seus missionários.
7. Os meios de comunicação ao serviço da
Missão. Através de boletins, desenhos e concursos
de cartazes nas escolas e nos colégios, de homilias que
recorram a símbolos criados pela própria comunidade
paroquial, de vídeos, de uma pequena emissora, do computador,
etc. Tudo isto em benefício de momentos celebrativos, educativos,
culturais e recreativos mais significativos para a vida da paróquia.
5. A ministerialidade ao serviço da Missão
Um dos grandes desafios que se apresentam à Igreja neste
início de século é, sem dúvida, o
da ministerialidade, o dos vários ministérios. E
sobretudo dos ministérios laicais. Todos nós temos
um lugar a ocupar, uma tarefa a desempenhar e uma responsabilidade
a assumir na construção solidária da Missão
da Igreja e do seu compromisso ad gentes.
O Concílio Vaticano II recorda-nos que a Igreja é
«mistério, comunhão e missão».
Trata-se de três termos para dizer a mesma coisa, para exprimir
uma única realidade. É como dizer a vida da Igreja.
Nós entendemo-la como «Mistério», como
este «espaço humano visível» da entrega
e do amor de Deus no tempo, entre nós. Como «Comunhão»
na diversidade de povos e culturas, na tarefa conjunta de realizar
o amor de Deus entre nós. E como «Missão»,
como a sua própria maneira de ser e de levar a cabo o plano
salvífico do Pai.
Todavia, existe um termo mais simples, mais próximo e também
teológico para definir a Igreja: «Povo de Deus».
É quanto nos ensina o capítulo II da Lumen Gentium
(Luz das Gentes), do Concílio Ecumênico Vaticano
II. Quando dizemos «Povo», referimo-nos a um «sujeito
histórico», num determinado contexto em relação
a este nosso mundo, à sociedade em geral e à história.
«É assim que se manifesta toda a Igreja» –
escrevia São Cipriano, um Padre da Igreja do século
III – como «uma multidão congregada pela unidade
do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
«Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio
real, nação santa, povo adquirido por Deus para
proclamar as obras maravilhosas daquele que vos chamou das trevas
para a sua luz admirável. Vós, que antes não
éreis povo, agora sois Povo de Deus; vós, que antes
não tínheis alcançado misericórdia,
agora alcançastes misericórdia» (1 Pd 2, 9-10).
Esta Igreja, «Povo» e «Mãe», é
uma Igreja «servidora». Na sua visita à sede
da Organização das Nações Unidas,
realizada em 1973, o Papa Paulo VI proclamou ao mundo inteiro
que «a Igreja não tem e não quer outro privilégio,
senão o de servir». E isto, a exemplo de Jesus Cristo:
«Eu, porém, estou no meio de vós como aquele
que serve» (Lc 22, 27).
Para exprimir este serviço no seio da Igreja, recorremos
a um termo simples: «ministério». No Novo Testamento,
«ministério» é a tradução
de um vocábulo grego, «diaconia», que significa
serviço. Este termo exprime uma dependência em relação
a Deus, como entrega ao Pai, em Jesus Cristo, através do
Espírito Santo, para se expressar em atitude de serviço
em benefício do próximo.
No Novo Testamento, encontramos uma visão pluralista e
diversificada dos ministérios, que são entendidos
e vividos como uma prolongação do serviço
do Senhor Jesus. É assim que se manifesta o ministério
dos «Doze, como testemunhas extraordinárias da Ressurreição»,
dos «doutores, evangelistas e profetas». Os diversos
serviços-ministérios vão nascendo segundo
a difusão do Evangelho e as necessidades sentidas pelas
comunidades.
Esta Igreja, como Povo de Deus, sabe que também os outros
povos pertencem a Deus, que continua a agir amorosamente na sua
história, em vista de os reunir todos na sua «família».
Por isso, a Igreja não pode considerar alheia à
sua vida e à sua missão no mundo, nenhuma preocupação
ou dimensão da existência coletiva dos povos: ela
está inserida na peregrinação do conjunto
de todos eles, em ordem a prestar-lhes o seu serviço e
dar-lhes o seu testemunho.
O Concílio Vaticano II ensina-nos: «O Espírito
Santo orienta a Igreja inteira para a verdade, reúne-e
na comunhão e no ministério, dá-lhe e governa-a
com vários dons hierárquicos e carismáticos,
enquanto a adorna com os seus frutos» (Lumen Gentium, 4).
E na Exortação Apostólica pós-sinodal
Christifideles Laici (Os fiéis leigos), o Papa João
Paulo II diz-nos: «A missão salvífica da Igreja
no mundo realiza se, não só pelos ministros, que
o são em virtude do sacramento da Ordem, mas também
por todos os fiéis leigos: estes, com efeito, em virtude
da sua condição batismal e da sua vocação
específica, na medida própria de cada um, participam
no múnus sacerdotal, profético e real de Jesus Cristo»
(n. 23).
E o Papa Paulo VI, na Exortação Apostólica
Evangelii Nuntiandi, ensina-nos: «Os leigos podem também
sentir-se chamados ou vir a ser chamados para colaborar com os
próprios Pastores ao serviço da comunidade eclesial,
para o crescimento e a vida da mesma, pelo exercício de
ministérios muito diversificados, segundo a graça
e os carismas que o Senhor houver por bem depositar neles»
(n. 73).
As primeiras comunidades cristãs, que eram comunidades
locais concretas, Corinto, Jerusalém, Roma e Éfeso,
instituíam os ministérios que julgavam necessários
para o bom funcionamento da sua própria comunidade. Dado
que as comunidades possuem diversas culturas e distintas necessidades
e problemas, os ministérios serão também
diferentes e diversificados, segundo a comunidade, e mesmo nela
eles variam em conformidade com as diversas épocas. Assim,
referimo-nos aos ministérios, aos carismas, aos talentos,
aos dons, às tarefas e às responsabilidades que
temos de compartilhar tanto na Igreja como na sociedade em geral.
Cada um desempenha uma função específica.
Se a Igreja é um corpo, como nos diz São Paulo,
onde os vários membros cumprem diversas funções
em benefício de todo o corpo, assim também a sociedade
constitui um organismo em que todos devem ser co-responsáveis
e solidários, em ordem à feliz realização
do grande projeto humano e divino.
«(Nós propomo-nos...) construir uma Igreja autóctone
com um rosto, um coração e um pensamento que lhe
sejam próprios, dotada dos seus agentes pastorais e dos
seus organismos. Uma comunidade que exprima a sua fé e
o seu culto a Deus no contexto de uma liturgia festiva, usando
as línguas indígenas e as suas próprias manifestações
culturais» (Mensagem dos membros da Conferência Episcopal
Guatemalteca).
O Documento de Puebla diz-nos: «Atualmente, o Espírito
Santo está suscitando na Igreja uma diversidade de ministérios,
exercidos inclusive pelos leigos e pelas leigas, capazes de rejuvenescer
e reforçar o próprio dinamismo evangelizador da
Igreja (n. 858). Porém, «o grande ministério
ou serviço que a Igreja presta ao mundo e aos homens que
nele habitam, é a evangelização» (Ibid.,
n. 679). O maior de todos os ministérios da Igreja, como
serviço específico, próprio e único
que Ela pode desempenhar no mundo e pelo mundo é a EVANGELIZAÇÃO,
digamos, a MISSÃO.
Então, a diaconia, ou seja, o ministério, será
o exercício de uma função no seio da Igreja,
em vista da edificação da comunidade, como orientação
missionária. Por isso, o contexto existencial dos serviços-ministérios
é o do serviço ao Evangelho.
Desde os primórdios, a Igreja que peregrina na América
Latina confiou determinados serviços pastorais da sua missão
evangelizadora também aos leigos: fiscais, mestres, recitadores
de orações, responsáveis de confrarias e
outras atividades da caridade cristã, destacando-se a valiosa
tarefa dos autóctones.
Pouco a pouco, desenvolveram-se novos ministérios, em virtude
das necessidades reais da humanidade e da própria Igreja.
Muitos ministérios correspondem sobretudo às necessidades
internas da própria comunidade. Mas nós perguntamo-nos:
e as necessidades da Missão? Pois a Igreja encontra a sua
razão de ser na Missão. É urgente promover
novos ministérios eclesiais, capazes de «rejuvenescer
e reforçar o próprio dinamismo evangelizador»
da Igreja (Documento de Puebla, 858). Isto significa que a Missão
e o ministério caminham juntos.
É perigoso que a Igreja fixe o seu olhar sobre si mesma,
sem se preocupar senão com os ministérios que derivam
das necessidades internas da Instituição. Esta pode
ser uma maneira egoísta de subsistência. É
necessário abrir as portas e gerar novos ministérios,
que realizem a missão também do lado de fora: os
ministérios do diálogo a todos os níveis,
os ministérios que estabelecem relações com
todas as instituições nos planos político,
econômico e social, o ministério do discernimento,
que nos leve a encontrar todos os valores existentes fora do cristianismo,
o ministério da animação, etc.
Temos necessidade de alargar o horizonte da Missão. Hoje
em dia, os ministérios da solidariedade podem constituir
uma porta, necessária para tornar possível o nosso
testemunho e o nosso compromisso evangelizadores. Aproximar-nos
do homem, de cada homem e de cada mulher como «caminhos
da Igreja», é um carisma que devemos despertar na
nossa Igreja missionária no tempo presente.
Apresento esta doutrina como um princípio orientador, para
multiplicar no nosso tempo, na América Central, os ministérios
que visam a Missão ad gentes. Cada uma das Igrejas deverá
fazê-lo, de acordo com as necessidades que sentir, e toda
a Igreja tem o dever de o fazer, em ordem à grande carência,
profundamente sentida, da Missão ad gentes.
Conclusão
Neste artigo quisemos discorrer sobre um Projeto missionário
para a América Central, assumido como um compromisso por
parte do CAM 2 ou COMLA 7. Um projeto subdividido em cinco etapas.
Não se trata de rodas soltas, mas de uma unidade integral.
Uma não seria compreensível sem as outras. Há
cinco programas que procuram forjar a consciência missionária
das nossas Igrejas particulares, vitalizando todas as suas instâncias,
animando a vida da comunidade no dinamismo da missão e
orientando a prática pastoral para Missão ad gentes.
Através de centros missionários bem organizados
e de paróquias missionárias onde floresçam
ministérios que visem a Missão, o Espírito
do Senhor levar-nos-á a obter uma copiosa colheita de vocações,
que nos há de permitir estreitar vínculos de comunhão,
de fraternidade e de solidariedade com as Igrejas de outros continentes,
que nos chamam para ir em seu socorro na abundante sementeira
do Evangelho.
Igreja que estás na América Central: «A tua
Vida é Missão!».
Bogotá, 20 de novembro de 2002. |