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Segundo Congresso Missionário Americano
CONCLUSÕES DO CAM 2—COMLA 7

No 4º Encontro Centro-Americano de Bispos Presidentes das Comissões Missionárias, Diretores Nacionais das Pontifícias Obras Missionárias, Coordenadores de Pastoral e Delegados das Comissões Missionárias Diocesanas realizado em San José (Costa Rica), de 16 a 18 de fevereiro, foram aprovadas as Conclusões do Congresso Missionário Americano realizado na Cidade da Guatemala, de 25 a 30 de novembro de 2003, finalizando-se, assim, uma importante etapa do processo pastoral e evangelizador que se colocou em marcha quatro anos atrás.

Temos a satisfação de entregar às Igrejas particulares da América, na pessoa dos Bispos, Presbíteros, Coordenadores de Pastoral, Religiosos e Religiosas, Leigos e Leigas, estas conclusões, que mostram o dinamismo missionário dos começos do século 21. Especialmente as entregamos a cada um dos congressistas que, “procedentes de todos os rincões do Continente Americano, desde o Pólo Norte até o Pólo Sul, passando pelas ilhas do Caribe”, viveram dias de intensa comunhão eclesial e de fecunda experiência fraterna, nos dias memoráveis do Congresso.

Com estas conclusões, nutrimos a esperança de entrar em uma nova época à qual chamamos, na expressão de João Paulo II, de “uma grande primavera cristã para a evangelização na Igreja”. Esta é a oportunidade que o Deus da vida e da história nos dá para pôr em movimento, na pequenez e pobreza que nos caracteriza, todas as forças eclesiais ao serviço da Nova Evangelização e da Missão “ad gentes”, com a total consciência e responsabilidade de assumir o mandato missionário: “Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho”.

Anima-nos o ardente desejo de “entrar sem medo nas águas profundas da história presente”, lançando-nos ao futuro sob o lema “Ai de mim, se não anunciar o Evangelho!”, que herdamos de São Paulo, e com profunda consciência de que a vida do continente é a Missão.

Durante estes dias de trabalho na etapa do Pós-CAM, sentimo-nos edificados pela presença ativa dos Bispos, Diretores Nacionais e membros das Comissões Missionárias Nacionais das Igrejas irmãs do Continente.

Agradecemos e valorizamos a mensagem do Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, o Cardeal Crescenzio Sepe, e a presença de seu enviado, D. Máximo Cenci, subsecretário da referida Congregação, a este importante 4º Encontro que nos situa na perspectiva de um maior compromisso com a Missão “ad gentes”, a partir da América Central.

Trouxemos estas Conclusões como oferta aos pés de Nossa Senhora dos Anjos, padroeira do povo costa-riquenho, com a esperança de que sua aplicação produza frutos de maior compromisso com a Missão “ad gentes” em todo o Continente.

Conclusões do 2º Congresso Missionário Americano (CAM 2)
e 7º Congresso Missionário Latino-Americano (Comla 7)

Introdução


Estas Conclusões são fruto do trabalho realizado pelos participantes do 2º Congresso Missionário Americano (CAM 2), 7º Congresso Missionário Latino-Americano (Comla 7), realizado na Cidade da Guatemala, de 25 a 30 de novembro de 2003. São resultado também da reflexão realizada com a ajuda do Instrumento de Trabalho nas Igrejas particulares do Continente durante o ano preparatório da realização do Congresso. Com efeito, como elemento indispensável para motivar a participação dos fiéis nas Igrejas particulares na realização do Congresso, foi elaborado um Instrumento de Trabalho que constava de nove capítulos ou temas. Durante um ano, nas Igrejas particulares de cada país se refletiu em cada um destes temas e se elaborou uma síntese nacional. Os congressistas, muitos dos quais tinham participado em suas dioceses da reflexão sobre os temas do Instrumento de Trabalho, traziam consigo os resultados da reflexão realizada em seus respectivos países.

Durante a realização do Congresso, os Congressistas foram designados, segundo sua preferência, a um dos nove grupos temáticos que foram criados para os trabalhos nas tardes. Cada um dos nove grupos temáticos correspondia a um dos capítulos do Instrumento de Trabalho. Aproximadamente 300 pessoas refletiram e trabalharam em cada um dos temas. Para facilitar o diálogo, foi feita uma divisão em grupos (de 30) e subgrupos (de seis pessoas). Os coordenadores designados para cada um dos grupos temáticos reuniam-se para elaborar, no final do dia, a síntese de cada tema.

Trabalhou-se durante três tardes. Na primeira, foi colocada aos grupos de reflexão uma pergunta sobre a situação humana, social, eclesial, missionária e espiritual, de acordo com a reflexão desenvolvida no respectivo tema. Foi dito a eles: VEJA a sua realidade. Na segunda, foi-lhes pedido que escutassem a voz de Deus, o sonho de Deus sobre essa realidade. Foi dito a eles: OUÇA a Palavra de Deus. Na terceira tarde, foi-lhes pedido que indicassem quais ações deveriam promover, para que a realidade, descrita na primeira tarde, fosse mais bem adequada aos desígnios de Deus indicados na segunda tarde de trabalho. Foi dito a eles: AJA. Este trabalho em grupos realizou-se, portanto, de acordo com o método já tão tradicional na Igreja latino-americana do VER, JULGAR E AGIR. Expressões que se transformaram em VEJA, OUÇA, AJA.

Apresentamos em continuação uma versão unificada e sintética dos resultados da reflexão. Este documento baseia-se nos resultados recolhidos em nove folhas de três colunas, fruto do trabalho dos grupos temáticos. Eles são referência obrigatória para uma ampliação dos conteúdos e estão anexados a este documento, como apêndice.


VEJA

1. A tarefa evangelizadora da Igreja consolidou-se no Continente, e a Missão “ad gentes” começa a ser uma força determinante e incisiva, que está renovando a Igreja, à medida que toma maior consciência da sua natureza missionária. Alegra-nos comprovar a fidelidade ao Evangelho e à Igreja de muitos fiéis e comunidades cristãs, assim como a vivência da santidade e a entrega da própria vida no martírio. Esta fecunda experiência tem sua origem e fundamento, seu dinamismo e projeção, no encontro pessoal com Jesus Cristo vivo, caminho de conversão, comunhão e solidariedade. Sem dúvida, o divórcio entre fé e vida, em não poucos cristãos e comunidades da América, provoca desâmino nos agentes de pastoral, abandono dos fiéis, e representa um sério obstáculo à Missão evangelizadora da Igreja, e à transformação das condições subumanas na qual vive a maioria do nosso povo.

2. Em muitas Igrejas particulares existem incipientes e esperançosos sinais de um despertar missionário. Descobre-se nelas o esforço para criar um processo de evangelização, cujos eixos são as pequenas comunidades e a promoção dos leigos. Sem dúvida, nos planos de pastoral de nossas Igrejas particulares, quase nunca se considera a dimensão missionária como um eixo transversal, mesmo quando o magistério eclesial a privilegia. A consciência da nossa identidade missionária e a formação especificamente missionária, em todos os níveis de nossas Igrejas particulares, é pobre. Por isso, é confortante comprovar o esforço dos leigos para formar-se e ir a busca de compromissos concretos, com o apoio e o zelo de muitos de seus pastores. Sem dúvida, pesam as conseqüências de uma pastoral centrada na atividade dos ministros ordenados, conservadora e autoritária; além disso, com pouca consciência de missionariedade e de responsabilidade histórica para com as realidades temporais. Mesmo assim, animados pelo testemunho dos santos e mártires americanos, cremos que se abrem novos horizontes para a iniciativa missionária.

3. A maioria dos agentes de pastoral das Igrejas particulares carece de uma adequada formação para promover de maneira eficaz a animação missionária. Constatamos que tal situação ocorre na maioria dos bispos, e, por conseqüência, nos sacerdotes, religiosas, religiosos, leigos e leigas. O resultado é que a Igreja local não se articula e não se organiza suficientemente conforme o mandato de anunciar Cristo. Ao mesmo tempo, alegra-nos e anima-nos constatar que uma expressão da evangelização e inculturação da fé nas Igrejas particulares do Continente são a perseguição e o martírio que sofreram catequistas, delegados e delegadas da Palavra, sacerdotes, religiosos e religiosas, bispos, bem como pastores e membros de Igrejas evangélicas. A experiência de fé e o testemunho de vida de muitos batizados contribuíram para a difusão do Evangelho.

4. As paróquias, no entanto, não conseguiram assumir a dimensão missionária de sua ação pastoral, de forma que é evidente a ausência de sentido e projeção missionária “ad gentes”. O problema situa-se na falta de formação missionária para todo batizado. Também muitas delas não contam com planos de pastoral de conjunto inculturados, nos quais seja manifesta a dimensão missionária da paróquia. Os acontecimentos eclesiais recentes — a celebração do Grande Jubileu da Redenção, as visitas do Santo Padre ao Continente Americano, o Ano do Rosário, o Sínodo dos Bispos da América, a Canonização e Beatificação de Santos da América, o Ano Santo Missionário e o Congresso Missionário Americano — suscitaram o despertar missionário nos leigos, religiosos e religiosas, diáconos, sacerdotes e bispos da América, mas falta-nos mais empenho pastoral, para tornar realidade o que nos sugerem os documentos eclesiais a respeito da projeção missionária da paróquia.

5. As Obras Missionárias Pontifícias, especialmente a Infância e Adolescência Missionária, assim como o testemunho dos missionários e missionárias “ad gentes”, contribuíram para fomentar o crescente despertar da consciência missionária de leigos e leigas no compromisso missionário das Igrejas particulares. No entanto, contatamos que é insuficiente a coordenação e colaboração dos diversos organismos missionários presentes em cada país.

6. No âmbito eclesial, ainda não se conseguiram efetivar processos de animação e formação para a Missão “ad gentes” que sustentem a espiritualidade do Povo de Deus, e fomentem a consciência e responsabilidade missionária em todo batizado. Antes disso, com freqüência, nós nos contentamos com uma pastoral sacramentalista, sem o fundamento da formação, sem o encontro pessoal com Jesus Cristo vivo, e sem o devido acompanhamento evangelizador. Isto criou sérios obstáculos ao despertar da consciência missionária a partir da infância, passando pela juventude, até chegar às famílias e a todo o Povo de Deus; também provocou em muitos falta de identidade cristã, de consciência eclesial e o divórcio entre fé e vida. No entanto, constatamos que, à medida que as comunidades cristãs descobrem sua identidade missionária, mediante processos pastorais de formação e de animação fiéis ao Evangelho, à Igreja e à realidade histórica, dá-se um impulso duradouro à Missão “ad gentes” da Igreja particular.

7. Podem-se assinalar três fortalezas da Igreja na América, que preanunciam um futuro cheio de esperanças:

a) A Igreja na América mantém viva a opção pelos pobres, tem promovido processos de inserção no mundo dos excluídos, e constitui uma voz profética dos sem-voz, defendendo a vida, inclusive com o testemunho do martírio. Esta postura eminentemente evangélica, favoreceu a consciência e a participação missionária dos membros do Povo de Deus. Mas, ao mesmo tempo, percebe-se nos poucos agentes pastorais cansaço e um certo desânimo, devido aos precários resultados e, em alguns setores da Hierarquia, indiferença e conformismo.

b) A religiosidade popular, como expressão de fé, oferece elementos de comunhão e celebração que apóiam a espiritualidade do Povo de Deus e mostram a riqueza de seus valores, mas exigem uma melhor evangelização.

c) A inculturação foi um dos caminhos mais eficazes no anúncio do Evangelho, facilitando o despertar missionário que experimenta o Continente Americano. Constata-se o esforço das Igrejas locais para inculturar o Evangelho, unindo a fé e a vida, favorecendo o resgate da identidade cultural e o protagonismo de nossos povos.

8. Por outro lado, entre os condicionamentos históricos atuais que representam um desafio para o desenvolvimento da atividade missionária da Igreja, o Congresso destacou:

A. O fenômeno da globalização: sua incidência na tarefa missionária da Igreja é vista como a grande oportunidade para viver a catolicidade e ir mais além das fronteiras culturais e geográficas para o anúncio do Evangelho da Vida. Tal fenômeno, por um lado, está colocando em evidência uma profunda e aguda crise de valores humanos, religiosos, sociais e culturais, e uma deterioração da situação econômica; por outro lado, por ter mais um perfil economicista que humanista, está incrementando as condições de pobreza e exclusão, aumentando os fluxos migratórios rumo às megalópoles, e favorecendo a desintegração familiar. Reconhece-se, ainda, que a Igreja não assumiu um papel claro perante o desafio que a globalização apresenta.

B. Em relação ao aspecto anterior, está o agudo problema das migrações humanas, provocadas pela precária situação de subdesenvolvimento nos países de origem. Este problema tem suas repercussões na família, provocando sua desintegração, e na perda de valores humanos sociais e religiosos. Diante desse fenômeno, o esforço solidário de nossas Igrejas locais foi insuficiente.

C. Do mesmo modo, constatamos que existem outros desafios, como os grupos fundamentalistas, os novos movimentos religiosos, e, por outro lado, o fenômeno preocupante do secularismo, no qual estão imersos muitos dos nossos povos americanos.

9. Os Meios de Comunicação Social exercem uma influência poderosa e preocupante sobre a vida dos povos. Está-se dando a primazia aos grandes interesses econômicos nos países do Continente. Os centros de poder financeiro, econômico e político monopolizam os meio massivos de comunicação social, porque manejam enormes recursos, e assim podem manipular nossos povos, ameaçando as identidades culturais e locais, gerando uma cultura materialista, individualista e de sectarismo religioso. Muitos crentes vêem-se atraídos pelos estilos de vida que oferecem, pelas correntes de pensamento que apresentam, e pelos novos movimentos religiosos que difundem, e optam por eles. Evidentemente que reconhecemos o grande valor dos meios de comunicação social como instrumentos para o anúncio do Evangelho a todas as gentes. Além disso, estamos conscientes de que podem colaborar na animação, na participação e no compromisso dos leigos em diversas tarefas apostólicas, bem como para o desenvolvimento dos povos e para uma maior democratização nas sociedades do século 21.

OUÇA

1. O caminho da Missão exige a busca do Reino de Deus e do seu projeto de vida: Que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10), para que cheguemos a ser filhos de Deus, membros de uma mesma família. É assim que se coopera com o discernimento teológico e espiritual, que permite à Igreja identificar seu projeto de vida com o desígnio de Deus que o Espírito anima no mundo, na Criação, na história. “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). Este projeto expressa-se na palavra de Jesus: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,19-20).

Todos os batizados são convidados a tomar consciência do compromisso evangélico, assumindo o radicalismo da cruz no meio do povo, até dar a vida como Jesus (testemunho dos mártires). Isto exige passar de uma fé aprendida (sociológica), a uma fé vivida (cf. Mt 5,48; NMI 30). Deus quer que todos na Criação gerem vida, e vida em abundância (cf. Jo 10,10), para ser assim sinais dos valores do Reino de Deus.

2. A Igreja particular é responsabilidade da Missão. Deus quer uma Igreja viva e criativa, que fortaleça a fé de seus membros, favorecendo a promoção e a criação de comunidades cristãs, que seja sinal e facilite o encontro com Jesus Cristo, no amor ao próximo e na prática sacramental na comunidade. Esta Igreja incentiva a vocação “ad gentes” (cf. AG 5). O Congresso colocou o acento nas Igrejas particulares como lugar onde se toma consciência da importância indiscutível da Missão, levada adiante no estilo de Paulo (1Cor 9,16), como caminho da comunidade, e ao mesmo tempo lugar de tomada de consciência da sede do Evangelho na vida dos povos (“Como eu poderia compreender, se ninguém me orienta?” At 8,31; cf. RM 83). A Missão implica sempre para a Igreja particular no anúncio claro e inequívoco da pessoa de Jesus Cristo (cf. EA 66), pois esta é a sorte e a essência da nossa Igreja. (cf. AG 2; EN 14). A Igreja particular é chamada a ser terra fértil e disponível (cf. Lc 8,8-15), que se deixa modelar pelo Espírito Santo, para ser escola de espiritualidade missionária, que nos forma como verdadeiros discípulos de Jesus. Isto não se realizará, se não se incluir explicitamente nos planos pastorais diocesanos e paroquiais (cf. RM 83).
Deus quer uma Igreja na América que continue sendo profética, consciente de sua Missão evangelizadora, como sinal de seu compromisso com o anúncio do Reino de Deus e da sua justiça (cf. Mt 28,20).
3. O conteúdo do anúncio missionário é Jesus Cristo. Graças à ação do Espírito, a Missão é antes de tudo o anúncio de Jesus Cristo vivo, que exige a conversão a uma vida de comunhão e solidariedade, que encarne os valores do Reino, para assim ser testemunhas do Evangelho da vida aqui e agora e para além das fronteiras (cf. 1Tim 2,4; RM 87). Deus quer que todos cheguem a ser seus filhos e filhas em Cristo e que a humanidade inteira se converta em imagem e sinal visível da Comunidade Trinitária. Para isto, envia-nos Jesus e seu Espírito, confiando à Igreja a Missão de anunciar o seu Reino (Mt 28,19; Mc 3,13; 1Tm 2,4).
4. A Igreja particular deve providenciar os meios de animação e formação missionária que possibilitem tornar vida o Evangelho de Jesus, como caminho de encontro com Deus e de transformação das condições de vida dos povos. Uma vez mais, a Igreja coloca-se como servidora do Plano de Deus, do qual nasce o verdadeiro sentido da Missão, de modo que, por meio de Cristo, a humanidade inteira se converta em imagem e sinal visível da Trindade. Para tanto, ontem e hoje, o Senhor Jesus continua confiando seu Espírito à Igreja, o Espírito que desinstala cada dia a Igreja, e a coloca em caminho e à espera da realização do Reino de Deus. (Mt 28,19; Mc 3,13; 1Tim 2,4).
O Espírito Santo é o protagonista da Missão da Igreja, e a enriquece com a diversidade dos dons, carismas e ministérios. Neste mundo dividido, a Igreja é chamada a ser sinal de unidade, para que o mundo creia que Jesus é o enviado do Pai (Jo 17,21).
A Igreja como comunidade, Povo de Deus na história, assume o desafio com os critérios das Bem-Aventuranças, que a colocam como sinal de contradição perante tantas realidades que hoje negam o Deus da vida; isto será motivo, uma vez mais, de perseguição, caminho que ao longo da história se apresentou à Igreja como momento de purificação e proximidade ao Espírito do Ressuscitado (Mt 5,1-11; Mc 8,34; Ap 2,10b).
5. As Comunidades locais da Igreja fortalecem-se, irmanam-se e renovam-se no compromisso da Missão. É a consciência que nasce da leitura do mandato de Jesus no Evangelho (Mt 28,19-20). Deus —Trindade, que manifesta a sua unidade na diversidade, por seu Espírito semeou as sementes do Verbo em cada cultura. A Igreja é chamada a defender a identidade de cada povo e a encarnar o Evangelho, para que dê frutos em sua vida.
São as comunidades que devem tornar possível o encontro com Jesus, para viver o seu projeto e anunciá-lo até os confins da terra: “Não podemos calar sobre o que vimos e ouvimos” (At 4,20); como para Paulo, pode uma comunidade cristã omitir-se no anúncio do Evangelho? “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16c). É a comunidade local que realiza o projeto missionário, pois prepara, forma, solidariza-se com outras Igrejas, e mantém viva a esperança. A esse respeito, é importante o que pontua a Novo Millennium Ineunte sobre as Igrejas locais.
6. A espiritualidade missionária nasce do encontro com Jesus Cristo: “A Igreja na América deve falar cada vez mais de Jesus Cristo” (EA 63), renovando-se cada dia no Espírito de Pentecostes (cf. At 2,1-8), que a fortalece no caminho da Missão (AG 2), e a realiza a partir da pequenez, da pobreza e do martírio (cf. Puebla 368). Essa espiritualidade encarnada permite discernir o passo de Deus na história, na vida de cada comunidade e de cada povo, onde a Igreja faz memória viva da Encarnação do Verbo e interpreta os sinais dos tempos. A Igreja acompanha o povo a partir da experiência de Deus, respeita e dialoga com as culturas, tem presentes os valores do Reino, e reafirma a maturidade da fé, até alcançar a plenitude de Cristo (cf. Ef 1,22).
7. Sujeitos e protagonistas da Missão. A Missão é patrimônio de toda a Igreja: de leigos, religiosas, religiosos e sacerdotes. Os leigos reafirmam-se cada dia mais nesta Missão.
O Evangelho permite-nos reafirmar o valor da pessoa humana e sua dignidade, ao iluminar a realidade que nos compete viver, em meio a pobrezas, desigualdades e inseguranças, fruto de tantas violências que afligem hoje o ser humano. Em meio a esta realidade, a Missão promove uma evangelização que impele a transformações baseadas na fraternidade, na verdade, na solidariedade, no amor, na liberação, na justiça... (cf. Lc 4,18-19, Jo 10,10; Mt 25,31-46; Mc 1,14-15). Não resta dúvida de que para a Igreja são muito importantes as famílias, os jovens, as crianças, as mulheres... e, para todos eles, a consciência missionária deve enfrentar profeticamente as mudanças necessárias que visem o fortalecimento do dom da vida.
8. O Espírito do Senhor Jesus faz novas todas as coisas, e, diante dos desafios da história, propõe sempre novos caminhos para o anúncio do Evangelho da Vida. A comunidade cristã continua sendo o caminho para o anúncio do Evangelho, da comunhão de vida, da promoção da verdadeira fraternidade. A Igreja faz isso, baseando-se nos critérios que animam o crescimento do Reino de Deus: a pobreza e a humildade, onde Deus se faz forte em meio à fraqueza. Como crentes, rejeitamos os triunfalismos, a tentação do poder, a prepotência da mídia. No anúncio do Evangelho de Jesus Cristo, a Igreja discerne os caminhos por onde transita a vida dos povos, pois sua história, sua tradição e sua cultura são lugares do encontro com Deus. Os novos caminhos que o Espírito descobre para o anúncio do Evangelho necessitam também de formas novas para transmiti-lo; daqui a importância dos Meios de Comunicação Social (MCS) e de sua utilização, de modo, é claro, que não contradigam os critérios evangélicos e todas as suas conseqüências.
9. Os grandes desafios da Missão para as Igrejas hoje são: a globalização, a emergência das culturas e o grave fenômeno das migrações.
O Espírito de Deus está presente na história e na vida dos povos; em Jesus nos foi oferecido o modo mais original e definitivo de encontro com o Pai. A partir da experiência da Igreja primitiva, em que se deu plenamente o dom do Espírito, toda comunidade cristã é chamada a tornar-se instrumento apropriado e eficaz para fomentar hoje a globalização da solidariedade: nós o procuramos fazer na pequenez, na pobreza e no martírio, realidades que nos recordam nosso caráter de peregrinos, que buscam Deus e semeiam a esperança.
A fecundidade do Evangelho de Jesus Cristo haverá de encontrar em cada cultura um âmbito original que torne possível, a partir dos próprios valores, o encontro com o Deus da Vida; a Igreja é chamada a defender a identidade de cada povo e a encarnar o Evangelho, para que dê frutos de vida.
Neste mundo, o Evangelho mostra-nos que o dom da fraternidade que o Espírito suscitou na Igreja não tem fronteiras, nem ideologias, nem fisionomias políticas. A Igreja é família comunidade, acolhedora, defensora da vida e dos direitos humanos, servidora dos mais pobres e atenta, como Maria, aos sinais dos tempos; promove a paz, a justiça e a solidariedade. Faz-se companheira da história e da vida dos emigrantes, presença de vida, dignidade e esperança.
10. A Missão da comunidade cristã tem um desafio inédito perante os desafios do “mercado religioso” provocado pela afluência de grupos fundamentalistas e de novos movimentos religiosos.
A Igreja, como comunidade cristã, não pode mudar o estilo de vida de Jesus; sua atuação, seus sinais, sua palavra, continuaram sendo a sua norma, que recria nas realidades de hoje, a partir de planos pastorais que visem tornar tão objetiva quanto dinâmica sua presença em meio às urgências do mundo. A Igreja deve superar a tentação da competência e do marketing; a imagem de sua presença nesta história há de seguir os critérios da comunidade que nasceu do seguimento de Jesus (cf. At 2,42-47), na qual conta, sobretudo, o encontro com Jesus Cristo vivo, a oração, a escuta da Palavra, a docilidade perante o ensinamento dos apóstolos, a fração do pão (Eucaristia, partilha de bens), e o compromisso com a vida dos pobres.
A comunidade cristã deve colocar, como grande critério para fortalecer seu caminho, a formação e a vivência dos sacramentos, que permitam um verdadeiro encontro com Jesus Cristo, com o Pai, com o Espírito, que é alma da comunidade.
Os valores dos povos assumem o rosto cultural dos momentos mais representativos de sua própria história; perante esta realidade, a religiosidade popular possibilita à Igreja aprofundar-se na alma dos povos, na qual o mistério de Jesus Cristo e do seu Evangelho, o mistério do Deus-Vivo, aparecem coloridos com os sentimentos de gerações e gerações. Elas depositaram na Arte, nas tradições e na Literatura sua preciosa herança, mostrando assim até que ponto a presença do Crucificado-Ressuscitado toma parte na caminhada da sua Igreja.


AJA

A partir da revelação de Deus e da realidade das nossas Igrejas particulares, os congressistas recomendamos algumas linhas de ação pastoral, para fomentar a Missão “ad gentes”.
1. A Igreja particular deve assumir sua Missão profética, anunciando a Boa-Nova de Jesus, acompanhando o povo (emigrantes, minorias étnicas, grupos humanos desfavorecidos), mantendo a fidelidade ao Evangelho da Vida, valorizando o testemunho dos mártires, assumindo o processo necessário de inculturação.
Igualmente compete à Igreja particular promover os processos de intercâmbio com outras Igrejas, num diálogo respeitoso das diversas culturas, para que elas expressem a liturgia, a fé e a vida nas formas próprias de cada povo; do mesmo modo compete à Igreja particular fortalecer e criar centros de formação permanente que fomentem a Missão “ad gentes”.
2. A paróquia deve ser para todo crente um espaço privilegiado do encontro com o Ressuscitado, para confirmar assim o caráter testemunhal de seus membros. Ela deve ter um acompanhamento próximo e fraterno de todos os que têm alguma responsabilidade nela. A paróquia deve fomentar e fortalecer a formação missionária específica, para suscitar em seus membros a consciência e o compromisso missionário. Para tanto, as paróquias devem ter planos de pastoral inculturados, que incluam a dimensão missionária.
3. A recomendação pastoral principal, dentre os múltiplos aspectos que tratamos no Congresso, diz respeito à formação, em todas as suas formas. Confiamos, pois, que se propiciem os processos de animação e formação missionária integral a todo agente de pastoral, seja leigo ou ministro ordenado, e em cada comunidade cristã e em cada Igreja particular.
Deve ser uma formação fundamentada na Sagrada Escritura, no Magistério da Igreja e na realidade dos nossos povos, dando prioridade à Teologia, à Pastoral e à Espiritualidade missionárias, que possibilite a cada batizado redescobrir a sua identidade missionária e infundir os valores do Reino nas realidades temporais do mundo, e, às comunidades cristãs, redescobrir sua natureza missionária.
Isto exige o fortalecimento e a criação de centros de formação permanente, em âmbito diocesano e nacional, com capacidade de fomentar a Missão “ad gentes”. Estes processos formativos devem existir em âmbito paroquial, diocesano e nacional, e devem impregnar de espírito missionário toda a ação pastoral da Igreja.
Deve-se dar especial atenção à formação dos comunicadores sociais, para que possam utilizar adequada e profissionalmente os meios de comunicação social, e tenham a capacidade de dar-lhes sustentabilidade e autonomia econômica.
4. Uma vez que a fé deve ser vivida a partir da própria cultura, é decisivo fomentar nas Igrejas particulares a inculturação do Evangelho, com a finalidade de formar pequenas comunidades eclesiais vivas e abertas, que possam continuar escrevendo, nos inícios do século 21, os livro dos Atos dos Apóstolos.
Estas comunidades devem inspirar-se no testemunho dos mártires e na santidade de vida, para que sejam espaços de fraternidade e solidariedade, anunciem o Evangelho da Vida, celebrem o mistério pascal e vivam a alegria do discipulado de Cristo. Estas comunidades devem fortalecer a identidade cristã e o seu sentido de pertença à Igreja, a partir de uma perceptível experiência de Deus; devem promover o diálogo e a convivência intercultural e ser fermento de mudança para o desenvolvimento dos povos.
5. A dimensão missionária da pastoral ordinária e, em particular, da dimensão da Missão “ad gentes” deverá impregnar os ânimos, atitudes e ações das pessoas e das comunidades, à medida que se inclua nos planos pastorais das dioceses e paróquias. É, portanto, necessário implantar uma pastoral de conjunto e planejada nas Igrejas particulares, a partir do dinamismo de uma espiritualidade missionária que se nutre do encontro com Jesus Cristo vivo, caminho de comunhão, conversão e solidariedade, capaz de suscitar vocações missionárias “ad gentes”.
A. A missionariedade deve ser o eixo transversal de todos os planos de pastoral diocesanos e paroquiais; além disso, deve promover a diversidade ministerial, a participação dos leigos, especialmente da mulher, em âmbitos de decisão.
B. Dentro desta pastoral de conjunto deve-se dar prioridade à pastoral social, que promova e defenda a dignidade humana, denuncie os mecanismos da contracultura da morte, propicie a formação de uma sana consciência crítica, e abra espaços para uma efetiva e ativa solidariedade.
C. Também deve ser prioridade a pastoral familiar, para atender e acompanhar as famílias, especialmente as mais pobres, promover sua formação integral, que os leve a praticar os valores do Reino de Deus, fortalecendo assim a consciência e a responsabilidade missionária “ad gentes”.
D. Finalmente, deve ser prioritária a pastoral da mobilidade humana, para assegurar o acompanhamento ao emigrante e a sua família, e lutar pela eliminação das causas que provocam os fluxos migratórios.
6. A ação pastoral deve levar em conta certos pontos ou elementos com a finalidade de fortalecer a dimensão missionária da Igreja. Os congressistas especificamos concretamente:
A. Criação de espaços de formação missionária para as famílias, jovens e crianças, incentivando-os a ser protagonistas da ação evangelizadora em seu entorno e em uma perspectiva “ad gentes”.
B. Um efetivo acompanhamento ao Povo de Deus, especialmente emigrantes, indígenas, massas humanas desfavorecidas, em fidelidade ao Evangelho da Vida, em sintonia com o testemunho dos mártires, e em coerência com os processos de inculturação.
C. Promoção de uma maior consciência crítica perante a globalização, mediante o fomento de formas concretas de solidariedade e da efetiva colaboração com organizações que promovem estilos de vida alternativos, e trabalham para o desenvolvimento integral das pessoas e das comunidades.
D. Fortalecer a formação catequética sobre os sacramentos, para que sejam verdadeiros encontros salvíficos que possibilitem dar razão de nossa fé na tarefa de anunciar o Evangelho.
E. Acompanhar as manifestações religiosas populares, para conseguir inculturar o Evangelho e vivenciar uma espiritualidade cristã profunda e aberta à missionariedade da Igreja.

Conclusões entregues no 4º Encontro Missionário Centro-Americano,
na Basílica de Nossa Senhora dos Anjos,
em Cartago, (Costa Rica), 18 de fevereiro de 2004.

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