VIAGEM APOSTÓLICA
EM PORTUGAL
MISSA NO SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO
HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
Fátima, 13 de Maio de 1982
1. “E a partir daquele momento, o discípulo recebeu-A
em sua casa”.
Com estas palavras termina o Evangelho da Liturgia de hoje, aqui
em Fátima. O nome do discípulo era João. Precisamente
ele, João, filho de Zebedeu, apóstolo e evangelista,
ouviu do alto da Cruz as palavras de Cristo: “Eis a tua Mãe”.
Anteriormente, Jesus tinha dito à própria Mãe:
“Senhora, eis o Teu filho”.
Este foi um testamento maravilhoso.
Ao deixar este mundo, Cristo deu a Sua Mãe um homem que
fosse para Ela como um filho: João. A Ela o confiou. E, em
consequência desta doação e deste acto de entrega,
Maria tornou-se mãe de João. A Mãe de Deus
tornou-se Mãe do homem.
E, a partir daquele momento, João “recebeu-A em sua
casa”. João tornou-se também amparo terreno
da Mãe de seu Mestre; é direito e dever dos filhos,
efectivamente, assumir o cuidado da mãe. Mas acima de tudo,
João tornou-se por vontade de Cristo o filho da Mãe
de Deus. E, em João, todos e cada um dos homens d’Ela
se tornaram filhos.
2. “Recebeu-A em sua casa” – esta frase significa,
literalmente, na sua habitação.
Uma manifestação particular da maternidade de Maria
em relação aos homens são os lugares, em que
Ela se encontra com eles; as casas onde Ela habita; casas onde se
sente uma presença toda particular da Mãe.
Estes lugares e estas casas são numerosíssimos. E
são de uma grande variedade: desde os oratórios nas
habitações e dos nichos ao longo das estradas, onde
sobressai luminosa a imagem da Santa Mãe de Deus, até
às capelas e às igrejas construídas em Sua
honra. Há porém, alguns lugares, nos quais os homens
sentem particularmente viva a presença da Mãe. Não
raro, estes locais irradiam amplamente a sua luz e atraem a si a
gente de longe. O seu círculo de irradiação
pode estender-se ao âmbito de uma diocese, a uma nação
inteira, por vezes a vários países e até aos
diversos continentes. Estes lugares são os santuários
marianos.
Em todos estes lugares realiza-se de maneira admirável aquele
testamento singular do Senhor Crucificado: aí, o homem sente-se
entregue e confiado a Maria e vem para estar com Ela, como se está
com a própria Mãe. Abre-Lhe o seu coração
e fala-Lhe de tudo: “recebe-A em sua casa”, dentro de
todos os seus problemas, por vezes difíceis. Problemas próprios
e de outrem. Problemas das famílias, das sociedades, das
nações, da humanidade inteira.
3. Não sucede assim, porventura, no santuário de
Lourdes na França? Não é igualmente assim,
em Jasna Góra em terras polacas, no santuário do meu
País, que este ano celebra o seu jubileu dos seiscentos anos?
Parece que também lá, como em tantos outros santuários
marianos espalhados pelo mundo, com uma força de autenticidade
particular, ressoam estas palavras da Liturgia do dia de hoje:
“Tu és a honra do nosso povo”; e também
aquelas outras:
“Perante a humilhação da nossa gente”,
“... aliviaste o nosso abatimento, com a tua rectidão,
na presença do nosso Deus”.
Estas palavras ressoam aqui em Fátima quase como eco particular
das experiências vividas não só pela Nação
portuguesa, mas também por tantas outras nações
e povos que se encontram sobre a face da terra; ou melhor, elas
são o eco das experiências de toda a humanidade contemporânea,
de toda a família humana.
4. Venho hoje aqui, porque exactamente neste mesmo dia do mês,
no ano passado, se dava, na Praça de São Pedro, em
Roma, o atentado à vida do Papa, que misteriosamente coincidia
com o aniversário da primeira aparição em Fátima,
a qual se verificou a 13 de Maio de 1917.
Estas datas encontraram-se entre si de tal maneira, que me pareceu
reconhecer nisso um chamamento especial para vir aqui. E eis que
hoje aqui estou. Vim para agradecer à Divina Providência,
neste lugar, que a Mãe de Deus parece ter escolhido de modo
tão particular.
“Misericordiae Domini, quia non sumus consumpti” –.
Foi graças ao Senhor que não fomos aniquilados –
repito uma vez mais com o Profeta.
Vim, efectivamente, sobretudo para aqui proclamar a glória
do mesmo Deus:
“Bendito seja o Senhor Deus, Criador do Céu e da Terra”,
quero repetir com as palavras da Liturgia de hoje.
E ao Criador do Céu e da Terra elevo também aquele
especial hino de glória, que é Ela própria:
a Mãe Imaculada do Verbo Encarnado:
“Abençoada sejas, minha filha, pelo Deus Altíssimo
/ Mais do que todas as mulheres sobre a Terra... / A confiança
que tiveste não será esquecida pelos homens, / E eles
hão-de recordar sempre o poder de Deus. / Assim Deus te enalteça
eternamente”.
Na base deste canto de louvor, que a Igreja entoa com alegria,
aqui como em tantos lugares da terra, está a incomparável
escolha de uma filha do género humano para ser Mãe
de Deus.
E por isso seja sobretudo adorado Deus: Pai, Filho, e Espírito
Santo.
Seja bendita e venerada Maria, protótipo da Igreja, enquanto
“habitação da Santíssima Trindade”.
5. A partir daquele momento em que Jesus, ao morrer na Cruz, disse
a João: “Eis a tua Mãe”, e a partir do
momento em que o discípulo “A recebeu em sua casa”,
o mistério da maternidade espiritual de Maria teve a sua
realização na história com uma amplidão
sem limites. Maternidade quer dizer solicitude pela vida do filho.
Ora se Maria é mãe de todos os homens, o seu desvelo
pela vida do homem reveste-se de um alcance universal. A dedicação
de qualquer mãe abrange o homem todo. A maternidade de Maria
tem o seu início nos cuidados maternos para com Cristo.
Em Cristo, aos pés da Cruz, Ela aceitou João e, nele,
aceitou todos os homens e o homem totalmente. Maria a todos abraça,
com uma solicitude particular, no Espírito Santo. É
Ele, efectivamente, “Aquele que dá a vida”, como
professamos no Credo. É Ele que dá a plenitude da
vida, com abertura para a eternidade.
A maternidade espiritual de Maria é, pois, participação
no poder do Espírito Santo, no poder d’Aquele “que
dá a vida”. E é ao mesmo tempo, o serviço
humilde d’Aquela que diz de si mesma: “Eis a serva do
Senhor”.
À luz do mistério da maternidade espiritual de Maria,
procuremos entender a extraordinária mensagem que, daqui
de Fátima, começou a ressoar pelo mundo todo, desde
o dia 13 de Maio de 1917, e que se prolongou durante cinco meses,
até ao dia 13 de Outubro do mesmo ano.
6. A Igreja ensinou sempre, e continua a proclamar, que a revelação
de Deus foi levada à consumação em Jesus Cristo,
que é a plenitude da mesma, e que “não se há-de
esperar nenhuma outra revelação pública, antes
da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo”.
A mesma Igreja aprecia e julga as revelações privadas
segundo o critério da sua conformidade com aquela única
Revelação pública.
Assim, se a Igreja aceitou a mensagem de Fátima, é
sobretudo porque esta mensagem contém uma verdade e um chamamento
que, no seu conteúdo fundamental, são a verdade e
o chamamento do próprio Evangelho.
“Convertei-vos (fazei penitência), e acreditai na Boa
Nova: são estas as primeiras palavras do Messias dirigidas
à humanidade. E a mensagem de Fátima, no seu núcleo
fundamental, é o chamamento à conversão e à
penitência, como no Evangelho. Este chamamento foi feito nos
inícios do século vinte e, portanto, foi dirigido,
de um modo particular a este mesmo século. A Senhora da mensagem
parecia ler, com uma perspicácia especial, os “sinais
dos tempos”, os sinais do nosso tempo.
O apelo à penitência é um apelo maternal; e,
ao mesmo tempo, é enérgico e feito com decisão.
A caridade que “se congratula com a verdade” sabe ser
clara e firme. O chamamento à penitência, como sempre
anda unido ao chamamento à oração. Em conformidade
com a tradição de muitos séculos, a Senhora
da mensagem de Fátima indica o terço – o rosário
– que bem se pode definir “a oração de
Maria”: a oração na qual Ela se sente particularmente
unida connosco. Ela própria reza connosco. Com esta oração
do terço se abrangem os problemas da Igreja, da Sé
de Pedro, os problemas do mundo inteiro. Além disto, recordam-se
os pecadores, para que se convertam e se salvem, e as almas do Purgatório.
As palavras de mensagem foram dirigidas a crianças, cuja
idade ia dos sete aos dez anos. As crianças, como Bernadette
de Lourdes, são particularmente privilegiadas nestas aparições
da Mãe de Deus. Daqui deriva o facto de também a sua
linguagem ser simples, de acordo com a capacidade de compreenção
infantil. As criancinhas de Fátima tornaram-se as interlocutoras
da Senhora da mensagem e também as suas colaboradoras. Uma
delas ainda está viva.
7. Quando Jesus disse do alto da Cruz: “Senhora, eis o Seu
filho”, abriu, de maneira nova, o Coração da
Sua Mãe, o coração Imaculado, e revelou-Lhe
a nova dimensão do amor e o novo alcance do amor a que Ela
fora chamada, no Espírito Santo, em virtude do sacrifício
da Cruz.
Nas palavras da mensagem de Fátima parece-nos encontrar
precisamente esta dimensão do amor materno, o qual com a
sua amplitude, abrange todos os caminhos do homem em direcção
a Deus: tanto aqueles que seguem sobre a terra, como aqueles que,
através do Purgatório, levam para além da terra.
A solicitude da Mãe do Salvador, identifica-se com a solicitude
pela obra da salvação: a obra do Seu Filho. É
solicitude pela salvação, pela eterna salvação
de todos os homens. Ao completarem-se sessenta e cinco anos, depois
daquele dia 13 de Maio de 1917 é difícil não
descobrir como este amor salvífico da Mãe abraça
na sua amplitude, de um modo particular, o nosso século.
À luz do amor materno, nós compreendemos toda a mensagem
de Nossa Senhora de Fátima.
Aquilo que se opõe mais directamente à caminhada
do homem em direcção a Deus é o pecado, o perseverar
no pecado, enfim, a negação de Deus. O programado
cancelamento de Deus do mundo do pensamento humano. A separação
d’Ele de toda a actividade terrena do homem. A rejeição
de Deus por parte do homem.
Na verdade, a salvação eterna do homem somente em
Deus se encontra. A rejeição de Deus por parte do
homem se se tornar definitiva, logicamente conduz à rejeição
do homem por parte de Deus, à condenação.
Poderá a Mãe, que deseja a salvação
de todos os homens, com toda a força do seu amor que alimenta
no Espírito Santo, poderá Ela ficar calada acerca
daquilo que mina as próprias bases desta salvação?
Não, não pode!
Por isso, a mensagem de Nossa Senhora de Fátima, tão
maternal, se apresenta ao mesmo tempo tão forte e decidida.
Até parece severa. É como se falasse João Baptista
nas margens do rio Jordão. Exorta à penitencia. Adverte.
Chama à oração. Recomenda o terço, o
rosário.
Esta mensagem é dirigida a todos os homens. O amor da Mãe
do Salvador chega até onde quer que se estenda a obra da
salvação. E objecto do Seu desvelo são todos
os homens da nossa época e, ao mesmo tempo, as sociedades,
as nações e os povos. As sociedades ameaçadas
pela apostasia, ameaçadas pela degradação moral.
A derrocada da moralidade traz consigo a derrocada das sociedades.
8. Cristo disse do alto da Cruz: “Senhora, eis o Teu filho”.
E, com tais palavras, abriu, de um modo novo, o Coração
da Sua Mãe.
Pouco depois, a lança do soldado romano trespassou o lado
do Crucificado. Aquele coração trespassado tornou-se
o sinal da redenção, realizada mediante a morte do
Cordeiro de Deus.
O Coração Imaculado de Maria aberto pelas palavras
– “Senhora, eis o Teu Filho” – encontra-se
espiritualmente com o Coração do Filho trespassado
pela lança do soldado. O Coração de Maria foi
aberto pelo mesmo amor para com o homem e para com o mundo com que
Cristo amou o homem e o mundo, oferecendo-Se a Si mesmo por eles,
sobre a Cruz, até àquele golpe da lança do
soldado.
Consagrar o mundo ao Coração Imaculado de Maria significa
aproximar-nos, mediante a intercessão da Mãe, da própria
Fonte da Vida, nascida no Gólgota. Este Manancial escorre
ininterruptamente, dele brotando a redenção e a graça.
Nele se realiza continuamente a reparação pelos pecados
do mundo. Tal Manancial é sem cessar Fonte de vida nova e
de santidade.
Consagrar o mundo ao Imaculado Coração da Mãe
significa voltar de novo junto da Cruz do Filho. Mais quer dizer,
ainda: consagrar este mundo ao Coração trespassado
do Salvador, reconduzindo-o à própria fonte da Redenção.
A Redenção é sempre maior do que o pecado do
homem e do que “o pecado do mundo”. A força da
Redenção supera infinitamente toda a espécie
de mal, que está no homem e no mundo.
O Coração da Mãe está conscio disso,
como nenhum outro coração em todo o cosmos, visível
e invisível.
E para isso faz a chamada.
Chama não somente à conversão. Chama-nos a
que nos deixemos auxiliar por Ela, como Mãe, para voltarmos
novamente à fonte da Redenção.
9. Consagrar-se a Maria Santíssima significa recorrer ao
seu auxílio e oferecermo-nos a nós mesmos e oferecer
a humanidade Àquele que é Santo, infinitamente Santo;
valer-se do seu auxílio – recorrendo ao seu Coração
de Mãe aberto junto da Cruz ao amor para com todos os homens
e para com o mundo inteiro – para oferecer o mundo, e o homem,
e a humanidade, e todas as nações Àquele que
é infinitamente Santo. A santidade de Deus manifestou-se
na redenção do homem, do mundo, da inteira humanidade
e das nações: redenção esta que se realizou
mediante o sacrifício da Cruz. “Por eles, Eu consagro-me
a Mim mesmo”, tinha dito Jesus”.
O mundo e o homem foram consagrados com a potência da Redenção.
Foram confiados Àquele que é infinitamente Santo.
Foram oferecidos e entregues ao próprio Amor, ao Amor misericordioso.
A Mãe de Cristo chama-nos e exorta-nos a unir-nos à
Igreja do Deus vivo, nesta consagração do mundo, neste
acto de entrega mediante o qual o mesmo mundo, a humanidade, as
nações e todos e cada um dos homens são oferecidos
ao Eterno Pai, envoltos com a virtude da Redenção
de Cristo. São oferecidos no Coração do Redentor
trespassado na Cruz.
A Mãe do Redentor chama-nos, convida-nos e ajuda-nos para
nos unirmos a esta consagração, a este acto de entrega
do mundo. Então encontrar-nos-emos, de facto, o mais próximo
possível do Coração de Cristo trespassado na
Cruz.
10. O conteúdo do apelo de Nossa Senhora de Fátima
está tão profundamente radicado no Evangelho e em
toda a Tradição, que a Igreja se sente interpelada
por essa mensagem.
Ela respondeu à interpelação mediante o Servo
de Deus Pio XII (cuja ordenação episcopal se realizara
precisamente a 13 de Maio de 1917), o qual quis consagrar ao Imaculado
Coração de Maria o género humano e especialmente
os Povos da Rússia. Com essa consagração não
terá ele, porventura, correspondido à eloquência
evangélica do apelo de Fátima?
O Concílio Vaticano II, na Constituição dogmática
sobre a Igreja “Lumen Gentium” e na Constituição
pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo “Gaudium
et Spes” explicou amplamente as razões dos laços
que unem a Igreja com o mundo de hoje. Ao mesmo tempo os seus ensinamentos
sobre a presença especial de Maria no mistério de
Cristo e da Igreja, maturaram no acto com que Paulo VI, ao chamar
a Maria também Mãe da Igreja, indicava de maneira
mais profunda o carácter da sua união com a mesma
Igreja e da Sua solicitude pelo mundo, pela humanidade, por cada
um dos homens e por todas as nações: a sua maternidade.
Deste modo, foi ainda mais aprofundada a compreensão do sentido
da entrega, que a Igreja é chamada a fazer, recorrendo ao
auxílio do Coração da Mãe de Cristo
e nossa Mãe.
11. E como é que se apresenta hoje diante da Santa Mãe
que gerou o Filho de Deus, no seu Santuário de Fátima,
João Paulo II, sucessor de Pedro e continuador da obra de
Pio, de João e de Paulo e particular herdeiro do Concílio
Vaticano II?
Apresenta-se com ansiedade, a fazer a releitura, daquele chamamento
materno à penitência e à conversão, daquele
apelo ardente do Coração de Maria, que se fez ouvir
aqui em Fátima, há sessenta e cinco anos. Sim, relê-o,
com o coração amargurado, porque vê quantos
homens, quantas sociedades e quantos cristãos foram indo
em direcção oposta àquela que foi indicada
pela mensagem de Fátima. O pecado adquiriu assim um forte
direito de cidadania e a negação de Deus difundiu-se
nas ideologias, nas concepções e nos programas humanos!
E precisamente por isso, o convite evangélico à penitência
e à conversão, expresso com as palavras da Mãe,
continua ainda actual. Mais actual mesmo do que há sessenta
e cinco anos atrás. E até mais urgente. É por
isso também que tal convite será o assunto do próximo
Sínodo dos Bispos, no ano que vem, Sínodo para o qual
já nos estamos a preparar.
O sucessor de Pedro apresenta-se aqui também como testemunha
dos imensos sofrimentos do homem, como testemunha das ameaças
quase apocalípticas, que pesam sobre as nações
e sobre a humanidade. E procura abraçar esses sofrimentos
com o seu fraco coração humano, ao mesmo tempo que
se põe bem diante do mistério do Coração:
do Coração da Mãe, do Coração
Imaculado de Maria.
Em virtude desses sofrimentos, com a consciência do mal que
alastra pelo mundo e ameaça o homem, as nações
e a humanidade o sucessor de Pedro apresenta-se aqui com uma fé
maior na redenção do mundo: fé naquele Amor
salvífico que é sempre maior, sempre mais forte do
que todos os males.
Assim, se por um lado o coração se confrange, pelo
sentido elo pecado do mundo, bem como pela série de ameaças
que aumentam no mundo, por outro lado, o mesmo coração
humano sente-se dilatar com a esperança, ao pôr em
prática uma vez mais aquilo que os meus Predecessores já
fizeram: entregar e confiar o mundo ao Coração da
Mãe, confiar-Lhe especialmente aqueles povos, que, de modo
particular, tenham necessidade disso. Este acto equivale a entregar
e a confiar o mundo Àquele que é Santidade infinita.
Esta Santidade significa redenção, significa amor
mais forte do que o mal. Jamais algum “pecado do mundo”
poderá superar este Amor.
Uma vez mais. Efectivamente, o apelo de Maria não é
para uma vez só. Ele continua aberto para as gerações
que se renovam, para ser correspondido de acordo com os “sinais
dos tempos” sempre novos. A ele se deve voltar incessantemente.
Há que retomá-lo sempre de novo.
12. Escreve o Autor do Apocalipse:
“Vi depois a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia
do Céu, da presença de Deus, pronta como noiva adornada
para o seu esposo. E, do trono, ouvi uma voz potente que dizia:
Eis a morada de Deus entre os homens. Deus há-de morar entre
eles: eles mesmos serão o Seu povo e Ele próprio –
Deus-com-eles – será o Seu Deus”.
A Igreja vive desta fé.
Com tal fé caminha o Povo de Deus.
“A morada de Deus entre os homens” já está
sobre a terra.
E nela está o Coração da Esposa e da Mãe,
Maria Santíssima, adornado com a gema da Imaculada Conceição:
o Coração da Esposa e da Mãe, aberto junto
da Cruz pela palavra do Filho, para um novo e grande amor do homem
e do mundo. O Coração da Esposa e da Mãe, cônscio
de todos os sofrimentos dos homens e das sociedades sobre a face
da terra.
O Povo de Deus é peregrino pelos caminhos deste mundo na
direcção escatológica. Está em peregrinação
para a eterna Jerusalém, para a “morada de Deus entre
os homens”.
Lá, onde Deus “há-de enxugar-lhes dos olhos
todas as lágrimas; a morte deixará de existir, e não
mais haverá luto, nem clamor, nem fadiga. O que havia anteriormente
desapareceu”.
Mas “o que havia anteriormente” ainda perdura. E é
isso precisamente que constitui o espaço temporal da nossa
peregrinação.
Por isso, olhemos para “Aquele que está sentado no
trono” que diz: “Vou renovar todas as coisas”.
E juntamente com o Evangelista e Apóstolo procuremos ver
com os olhos da fé “o novo céu e a nova terra”,
porque o “primeiro céu e a primeira terra” já
passaram...
Entretanto, até agora, “o primeiro céu e a
primeira terra” continuam, estando sempre à nossa volta
e dentro de nós. Não podemos ignorá-lo. Isso
permite-nos, no entanto reconhecer que graça imensa foi concedida
ao homem quando no meio deste peregrinar, no horizonte da fé
dos nossos tempos, se acendeu esse “Sinal grandioso: uma Mulher”!
Sim, verdadeiramente podemos repetir: “Abençoada sejas,
filha, pelo Deus altíssimo, mais que todas as mulheres sobre
a Terra!
... Procedendo com rectidão, na presença do nosso
Deus,
... Aliviaste o nosso abatimento”.
Verdadeiramente, Bendita sois Vós!
Sim, aqui e em toda a Igreja, no coração de cada
um dos homens e no mundo inteiro: sede bendita ó Maria, nossa
Mãe dulcíssima!
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