| Será esta mesma vivacidade do culto mariano
que levará o papa Pio IX a enfrentar a questão da
Imaculada Concepção em vista de uma definitiva proclamação
do dogma. O primeiro ato foi a instituição de uma
comissão de teólogos e uma de cardeais para estudar
os termos da questão. Diante de uma situação
de não perfeito acordo, aconselhado também por Rosmini,
promulgou a encíclica Ubi primum com a qual sondava a atitude
de cada um dos bispos da Igreja. A opinião absolutamente
favorável à definição do dogma conduziu
o pontífice à preparação da bula Ineffabilis
Deus com a qual foi definido o dogma da Imaculada Conceição:
«Depois de ter oferecido a Deus, através de seu Filho,
na humildade e no jejum, a oração da Igreja e nossa,
para que se dignasse dirigir e confirmar o nosso pensamento com
a graça do Espírito Santo, invocando o auxílio
da Igreja triunfante e com lamentos implorando o próprio
Espírito Santo, com a sua assistência, em honra da
santa e indivisível trindade – em honra à nobreza
da Virgem Mãe de Deus, a exaltação da fé
católica e para o desenvolvimento da religião cristã
– com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos santos
apóstolos Pedro e Paulo e nossa, declaramos, pronunciamos
e definimos que a doutrina que considera que a santíssima
Virgem Maria, por singular graça e privilégio de Deus
Onipotente a ela concedidos em vista dos méritos de Jesus
Cristo, salvador do gênero humano, tenha sido preservada de
toda mancha de culpa original desde o primeiro instante de sua criação,
foi revelada por Deus e por isso se deve crer firmemente».
Porém, a definição foi elaborada em forma negativa
e era relativa unicamente à imunidade ao pecado original,
pressupondo a definição da redenção
de Maria pelo Cristo.
Serão as encíclicas Ad diem illum de Pio X e Fulgens
Corona de Pio XII a precisar os pontos não definidos por
Pio IX em relação ao privilégio único
da Imaculada e a perfeita redenção de Maria por parte
do Cristo.
Fruto de longas consultas no episcopado desde 1848, a definição
se fundava com prevalência sobre a autoridade do papa, antecipando
a definição da infalibilidade pessoal do pontífice.
O método seguido na bula dogmática, partindo do consenso
atual da Igreja e à sua luz interpretando os testemunhos
passados, abria novas vias à teologia, amplamente seguidas
desde então.
Pio XII, na Fulgens Corona analisou precisamente a metodologia de
Pio IX escrevendo: «O nosso predecessor não fez outra
coisa se não recolher diligentemente e consagrar com a sua
autoridade a voz dos santos Padres e de toda a Igreja, e que, desde
os primeiros tempos, se havia difundido ao longo dos séculos».
A definição fez aumentar sensivelmente as manifestações
em honra de Nossa Senhora, contribuindo a um crescimento da devoção
popular à Virgem. Mas não foi a única vantagem
da definição. «Atenção –
teria declarado monsenhor Talbot alguns dias antes – pois
a coisa importante não é o novo dogma em si mesmo,
mas a maneira como é proclamado». Efetivamente, quando
em 20 de novembro dois bispos solicitavam ao cardeal presidente
se não teria sido conveniente fazer menção
na bula sobre a aprovação do episcopado, foi-lhes
respondido que «se o Sumo Pontífice tivesse pronunciado
sozinho a definição com a espontânea adesão
de todos os fiéis, o seu juízo teria fornecido uma
demonstração prática da autoridade soberana
da Igreja em matéria de doutrina e da infalibilidade com
a qual Jesus Cristo investiu o seu vigário na terra».
Sintetizando, G. Martina escreve: «A definição
teve um múltiplo efeito: reforçou a autoridade do
papa (prelúdio ao dogma de sua infalibilidade), estimulou
os estudos teológicos, mesmo recordando a necessidade da
submissão ao magistério, em uma perspectiva que tanto
ontem como hoje é considerada diversamente, em função
do ponto de vista; favoreceu a piedade mariana, sobretudo popular;
sublinhou algumas verdades religiosas essenciais negadas ou esquecidas
pelo pensamento moderno (a ordem sobrenatural, a elevação
do homem a filho de Deus, o pecado original, a redenção)».
A festa da Imaculada Conceição atualmente se celebra
em todas as igrejas orientais, dissidentes e católicas, exceto
na síria monofisista e na caldéia nestoriana. Tradicionalmente
esta se celebra em 9 de dezembro e no título se insiste sobre
a «concepção ativa» de Ana: «a concepção
de Ana quando concebeu a Mãe de Deus». As igrejas unidas
a Roma celebram a festa em 8 de dezembro e dão a ela o mesmo
título dos latinos.
No Ocidente a festa da Imaculada Concepção era chamada
na Idade Média como a «Festa dos Normandos»,
porque existia a convicção que estes a tivessem conhecido
na Sicília e na Itália meridional e de lá a
tivessem levado à Normandia e à Inglaterra. Modernos
estudos litúrgicos apuraram que, no entanto, a origem ocidental
da festa deve ser referida à igreja celta da Irlanda.
Como já recordado, foi o papa Sisto IV que estabeleceu a
universalidade da festa. Em 1476 publicou uma bula com a qual estabeleceu
as mesmas indulgências concedidas pelos seus predecessores
para a festa de Corpus Domini.
Clemente XI impõe a festa a toda a Igreja, de precepto. No
momento da definição, em 1854, existiam em toda a
Igreja latina três formulários de missa e ofício,
mas Pio IX, solicitado por muitos bispos e por sua decisão,
ordenou em 1863 a redação de um novo texto litúrgico
que respondesse à definição dogmática
e demonstrasse com precisão a verdade definida. O texto definitivo,
preparado por Dom Bartolini, secretário da Congregação
para os Ritos, foi aprovado em 27 de agosto de 1863. A festa foi
denominada da Imaculada Concepção. Em 25 de setembro
do mesmo ano, com um breve apostólico, o pontífice
aboliu os formulários existentes, prescrevendo a toda a Igreja
o novo texto da missa e do ofício para a festa e para a oitava.
Leão XIII, em 30 de novembro de 1879, prescreveu a toda a
Igreja também a vigília.
Dentre as intervenções registradas na época
contemporânea, muito profunda e sentida é a de Paulo
VI no Angelus da solenidade da Imaculada, em 1974. Disse o pontífice:
«... Mas hoje uma grande maravilha nos invade, uma grande
alegria, pois uma criatura, uma única, mas nossa, aquela
que seria a Mãe de Cristo, que pelo próprio Cristo
foi antecipadamente resgatada e restituída à perfeição
primigênia, típica e sublime, da criatura “cheia
de graça”, uma mulher, a “bendita entre todas
as mulheres”. O seu nome é Maria. Ó filhos,
ó irmãos, desiludidos e desesperados talvez pelos
estudos psicanalíticos modernos, pela descoberta das incuráveis
contaminações das profundezas do ser humano, restaurai
com confiança o conceito de inocência e a esperança
de uma pureza perfeita deste nosso ser composto de carne e de espírito:
o “caso”, o milagre, de Maria reabilita em nós
a imagem da perfeição da obra de Deus, como somos
nós, e do qual um modelo intacto e puríssimo nos é
apresentado: sim, é Maria. Vós que buscais a beleza,
e que muitas vezes buscando-a no desequilíbrio entre carne
e espírito a deturpais, recordai a coincidência entre
pureza e beleza: “por antonomásia o decoro é
reconhecido à castidade – ensina o mestre Tomás
de Aquino – e por isso – ele diz –, à virgindade
é atribuída uma beleza excelente” (S. theol.
IIa-IIae, 152, 5). Por isso hoje a Igreja nos faz cantar: sois a
toda bela, ó Maria! Buscai a alegria e a libertação
de uma vida nova? Recitai o Magnificat meditando-o, é o hino
profético da Imaculada...»
|