| Mesmo com a dificuldade em obter fontes documentárias
relativas à fé popular, que é pouco inclinada
a testemunhos escritos, mas rica em atitudes de fé, existem
testemunhos indiretos de alguns teólogos.
Um dos primeiros testemunhos sobre a «extraordinária
santidade» de Maria encontra-se no Proto-evangelho de Tiago,
um apócrifo do II século que narra a concepção
virginal de Ana, mãe de Maria. Este dado, não confirmado
historicamente e refutado por Epifânio e Bernardo, revela,
como sustenta R. Laurentin no livro Marie dans l’histoire
du salut, «uma grande consciência da santidade perfeita
e original de Maria na sua própria concepção».
Outra conotação típica dos primeiros séculos
do cristianismo na doutrina da Imaculada Conceição
é o paralelismo entre Eva e Maria, segundo uma dupla relação
de semelhança e de oposição. Em base à
semelhança, como Eva foi modelada sem mancha pelas mãos
de Deus, igualmente Maria deveria ser criada imaculada por Deus.
Em oposição, aquela que deveria ser a restauradora
da queda de Eva não podia ser deformada pelo pecado.
Tal paralelo é retomado de maneira pertinente e eficaz também
pelo concílio Vaticano II, na constituição
Lumen Gentium 56: «O Pai das misericórdias quis que
a aceitação por parte da mãe predestinada precedesse
a Incarnação, porque assim como uma mulher havia contribuído
a dar a morte, uma mulher contribuísse a dar a vida. Isto
vale de modo extraordinário para a mãe de Jesus, que
deu ao mundo a vida mesma que tudo renova e por Deus foi enriquecida
de dons relativos a tamanho ofício. Portanto, nenhuma maravilha
se com os santos Padres se desenvolve o uso de chamar a mãe
de Deus como a «toda santa» e imune de toda mancha de
pecado, quase modelada pelo Espírito Santo e tornada nova
criatura. Adornada desde o primeiro instante de sua concepção
com os esplendores de uma santidade singular em tudo, a Virgem de
Nazaré é saudada pelo anjo da Anunciação,
que fala por ordem de Deus, tal como “cheia de graça”
(cfr. Lc 1,28), e ao mensageiro celeste ela responde “eis
a serva do Senhor: que se faça em mim segundo a tua palavra”
(Lc 1,38). Assim Maria, filha de Adão, consentindo à
palavra divina, tornou-se a mãe de Jesus e abraçando
com toda a sua alma, sem que nenhum pecado a impedisse, a vontade
divina de salvação, consagrou-se totalmente como serva
do Senhor à pessoa e à obra de seu Filho, servindo
o mistério da redenção em dependência
d’Ele e com Ele, com a graça de Deus onipotente. (...)
Como disse santo Irineu, esta “com a sua obediência
torna-se causa de salvação para si e para todo o gênero
humano”. Onde a predicação de não poucos
antigos Padres, que afirmam com Irineu: “o nó da desobediência
de Eva teve a sua solução com a obediência de
Maria; o que a virgem Eva ligou com a sua incredulidade, a virgem
Maria desatou com a sua fé” e, feita a comparação
com Eva, chamam Maria a “mãe dos viventes” e
afirmam freqüentemente: “a morte por meio de Eva, a vida
por meio de Maria”».
Hipólito, falando do Salvador, o define: «Uma arca
feita com madeira (a Virgem) não sujeita à putrefação
da culpa».
Desde o IV século, a doutrina da Imaculada Conceição
torna-se mais explícita. Efrem da Síria colocou no
mesmo plano a pureza de Maria e a do Cristo, afirmando que tal pureza
é privilégio único tanto de um quanto da outra:
«Apenas tu, ó Senhor, e tua Mãe sois belos sob
todos os ângulos; se não há em ti nenhuma mancha,
ó Senhor, nenhuma mancha há em tua Mãe».
No V século, Procolo sustenta uma intervenção
especial de Deus na criação da futura Mãe de
Deus, para que fosse uma criatura nova, formada «de uma argila
pura», como Adão antes do pecado.
Teodoto de Ancira opõe Maria a Eva declarando que apesar
da «Virgem estar incluída no sexo muliebre, foi excluída
da niquice daquele sexo; foi uma Virgem inocente, sem mancha, sem
culpa, intemerata, santa de alma e de corpo, como um lírio
que floreia entre os espinhos».
Santo Agostinho intervém em duas ocasiões polêmicas
no debate sobre a Imaculada Concepção: na primeira,
a mais incisiva e importante, em resposta a Pelágio, afirma
que todos os justos do Antigo Testamento tinham pecado no curso
de suas vidas, «com exceção da Virgem Maria,
à qual, para a honra do Senhor, quando se trata de pecado,
não quero apresentar nenhuma questão, porque sabemos
que, por ter merecido de conceber e dar à luz Aquele que
claramente consta não ter tido nenhum pecado, foi-lhe conferida
graça para que vencesse de toda parte o pecado». Este
texto foi estimado tão digno da demonstração
do imaculatismo que conduz à argumentação da
bula Ineffabilis Deus.
O outro texto, tirado do Contra Iulianum, é uma resposta
a Juliano que contestava o fato que para Agostinho, dada a universalidade
do pecado original, também Maria era assujeitada ao poder
de Satanás. A esta observação Agostinho responde
que «não predispomos Maria ao diabo pela condição
de nascer, porque a mesma condição do nascer é
resolvida pela graça do renascer». Esta afirmação
sobre Maria faz compreender claramente como para Agostinho a ausência
em Maria do pecado original seja efeito da graça de Deus.
A decisiva participação do povo cristão na
maturação do aspecto teológico da Imaculada
Conceição é testemunhada de maneira determinante
a partir do IX século, quando de um lado se celebra com a
habitual fé a festa da Imaculada Concepção
e por outro lado se denuncia o escândalo quando os predicadores
negam o privilégio mariano ou se afirma a presença
do pecado original em Maria.
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