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ESPECIAL |
| RUANDA: o genocídio de um povo
é sempre um genocídio da humanidade |
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| O angustiado e insistente apelo do Papa
durante o genocídio de Ruanda: “Não cedam ao ódio
e à vingança. Nessa trágica fase da vida de sua
nação, sejam artífices de amor e de paz” |
Cidade do Vaticano (Agência Fides) – Desde
as primeiras notícias dos violentos massacres que estavam ocorrendo
em Ruanda, a voz do Santo Padre João Paulo II elevou-se para
invocar a reconciliação e a paz. Em 9 de abril de 1994,
numa mensagem enviada à comunidade católica de Ruanda,
o Papa dirigiu exortou a “não ceder a sentimentos de
ódio e vingança, mas praticar o diálogo e o perdão
com coragem”. “Nessa trágica fase da vida de sua
nação – escreveu o Papa – sejam todos artífices
de amor e de paz”.
Na solene e festiva abertura da Assembléia especial do Sínodo
dos Bispos para a África, domingo, 10 de abril de 1994, do
qual os Bispos ruandeses não participaram, João Paulo
II expressou profunda preocupação com o País
africano, “atormentado por tensões e lutas violentas”.
Durante a homilia, o Papa recordou, em especial, “o povo e a
Igreja ruandeses, que sofrem com esta impressionante tragédia,
consequência das mortes dramáticas dos Presidentes de
Ruanda e Burundi. Compartilho com vocês, Bispos, o sofrimento
por esta nova, catastrófica, onda de violência e morte
que, ao investir seu querido país, tem derramado em proporções
impressionantes o sangue de tantos sacerdotes, religiosas e catequistas,
vítimas de um ódio absurdo. Junto de vocês, reunidos
neste Sínodo Africano, e em comunhão espiritual com
os Bispos de Ruanda que não puderam estar aqui conosco, sinto
o dever de lançar um apelo, a fim de que seja detida a mão
homicida dos violentos. Com vocês, elevo a minha voz e digo
a todos: Basta com esta violência! Basta com estas tragédias!
Basta com estes massacres homicidas!”.
Do mesmo modo, após a oração do Regina Coeli
daquele domingo, João Paulo II relançou seu apelo em
favor do país africano: “As trágicas notícias
que provêm de Ruanda causam grande sofrimento em nossa alma.
Um novo e indescritível drama, o assassínio dos Chefes
de Estado de Ruanda e Burundi, e suas delegações; o
líder do governo ruandês e sua família trucidados;
sacerdotes, religiosos e religiosas mortos: ódio, vingança
e sangue fraterno derramado em todos os lugares. Em nome de Cristo,
lhes suplico, deponham as armas! Não nulifiquem o sacrifício
da Redenção, abram seus corações ao imperativo
de paz do Ressuscitado! Dirijo meu apelo a todos os responsáveis,
assim como à comunidade internacional, para que não
desistam de tentar todos os caminhos para acabar com tanta destruição
e morte!”.
Os trabalhos do Sínodo da África, o primeiro da história,
foram influenciados pelas trágicas notícias de Ruanda.
Em 14 de abril, quando o Santo Padre celebrou a Santa Missa em favor
do povo ruandês, os membros do Sínodo lançaram
um apelo “premente” pela reconciliação e
pelo bom êxito das negociações de paz em Ruanda.
Numa mensagem, assinada pelos três Presidentes delegados, os
padres Sinodais se diziam “profundamente entristecidos pelos
trágicos eventos” e se dirigiram “a todos os envolvidos
no conflito, a fim de que fizessem calar as armas e pusessem fim às
atrocidades e mortes”. Os Padres sinodais pediram também
aos ruandeses para “caminhar juntos e revolver seus problemas
com o diálogo”, e aos indivíduos e organizações
presentes na África ou fora da África, que “usassem
sua influência para levar o perdão, a reconciliação
e a paz a todo Ruanda”. O apelo foi uma resposta à carta
enviada pelos Bispos ruandeses, impedidos de participar do Sínodo
em função da trágica situação de
seu país. Na carta, lida pelo Secretário Geral do Sínodo,
Cardeal Schotte, os Bispos “deploram as violências homicidas
que estavam sendo perpetradas no país, pediam solidariedade
e orações e auspiciaram que os antagonistas empreendessem
iniciativas de paz”. Na mensagem final do Sínodo, publicada
em 6 de maio de 1994, advertiu-se que ao “ódio fratricida”
que dilacerava os povos africanos, e o “grito da população
de Ruanda”, acrescentava-se infelizmente aquele de “grande
parte do território do continente africano”.
Domingo, 15 de maio de 1994, o Papa rezou a oração do
Regina Coeli do Policlinico Gemelli, aonde estava internado após
uma queda, e mais uma vez recordou a agonia do povo ruandês:
“Sinto o dever de evocar, hoje, novamente – disse o papa
– as violências de que são vítimas as populações
de Ruanda. Trata-se de um verdadeiro genocídio, e os católicos,
infelizmente, também são responsáveis. Dia após
dia, me sinto próximo deste povo em agonia, e gostaria nuovamente
de apelar à consciencia de todos aqueles que planejam estes
massacres e os exercem. Eles estão levando o país a
um abisso. Todos deverão responder por seus crimes diante da
História, e principalmente, diante de Deus. Basta com o sangue!
Deus espera de todos os ruandeses, com a ajuda dos países amigos,
a coragem do perdão e da fraternidade”.
Após ser informado do assasínio de 3 Bispos e 20 sacerdotes
e religiosos, em 9 de junho de 1994, o Santo Padre João Paulo
II enviou uma Mensagem ao povo ruandês, que dizia textualmente:
“Estou profundamente chocado com as notícias que me chegam
de sua pátria. A situação dramática que
Ruanda está vivendo por causa do conflito que o dilacera, me
leva a suplicar a Deus, Pai de misericórdia, e a Cristo, que
doôu sua vida pelos homens, a fim de que permitam a reconciliação
desta nação mártir e acolham as vítimas
com bondade”. O Papa suplicava a todos os habitantes de Ruanda
e aos responsáveis das ações: “Façam
todo o possível a fim de que se abram os caminhos da concórdia
e da reconstrução do país, tão gravemente
atingido... Pastores e fiéis de Ruanda, povo ruandês,
saibam que estou próximo de vocês, todos os dias”.
Em conclusão do Consistório extraodinário de
13 e 14 de junho de 1994, os Cardeais aprovaram por unanimidade um
apelo por Ruanda. Nele, expressavam sua angústia “pelo
indiscritível horror que o povo de Ruanda estava experimentando”:
“Em nome de Deus, - escreveram - suplicamos todos os que estão
envolvidos no conflito: deponham as armas e empenhem-se na obra de
reconciliação... A grande tragédia de Ruanda
releva a urgência que as nações do mundo definam,
em termos jurídicos, as modalidades para uma intervenção
humanitária... A ausência de tais normas jurídicas
continuará a a deixar as nações do mundo impotentes
diante de tragédias como a que está ameaçando
a vida de muitos inocentes em Ruanda”.
De 23 a 29 de junho de 1994, o Santo Padre enviou a Ruanda o Cardeal
Roger Etchegaray, Presidente dos Pontifícios Conselhos para
a Justiça e a Paz e “Cor Unum”, para uma missão
de solidariedade e paz. O Cardeal visitou as diocesess mais atingidas
pela guerra, os locais do assassinato dos Bispos e encontrou, em ocasiões
separadas, o Presidente ad interim da República e o líder
da Frente Patriótica Ruandesa. Leu a ambos a Mensagem ao povo
ruandês, que afirmava: “Agora, após ter tocado
o fundo do horror, vocês não podem mais ocultar nada
de sua miséria. Não se desencorajem, convertam seus
corações, aproveitem esta terrível lição
de sua história, que talvez seja a última possibilidade
de compreender até que ponto pode chegar a sua convicção...
Não é suficiente dizer: quero a paz. É preciso
fazer a paz, aceitando pagar o preço, que è muito alto
em Ruanda… Depois de tantos massacres nefastos (o Papa usa esta
expressão), inclusive em suas igrejas, que se tornaram sede
de massacres de inocentes, depois da destruição de suas
casas, de suas escolas e de seus centros sociais, seu coração
está sempre mais ferido... Vim entre vocês, em nome do
Papa João Paulo II, para confortar a Igreja enfraquecida, desagregada,
decapitada pelo assassinato de três Bispos, numerosos sacerdotes,
religiosos, religiosas... Um dia, vocês constatarão a
justiça da palavra que mantém viva a Igreja, século
após século: ‘o sangue dos mártires é
a semente dos cristãos’. Povo ruandês, vocês
são chamados por Deus a iniciar uma nova página de sua
história, escrita por todos os seus irmãos. Acreditem,
vocês estão perdendo sua honra de cristãos e de
homens”. (S.L.) (Agência Fides 6/4/2004)
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