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6 DE JANEIRO 2004: DIA DA INFÂNCIA MISSIONÁRIA
PEQUENOS SOLDADOS MATAM
HISTÓRIA DE TITI, PEQUENA GUERRILHEIRA
Titi Bayoh é uma criança-soldado de Serra Leoa. Quem nos conta sua história é o missionário xaveriano, Padre Bepi Berton, que há muitos anos trabalha na recuperação das crianças envolvidas com a guerra. Titi combateu por sete anos nas frentes dos rebeldes do Ruf. Várias vezes tentou fugir, mas sempre foi recapturada e punida.
Até que o símbolo dos rebeldes foi inciso em seu peito. Tão pequena, Bondo, seu verdadeiro nome, tinha como função ajudar as mulheres na preparação do alimento nos acampamentos e levar os mantimentos nas longas movimentações noturnas. Com os passar dos anos, já maior, Bondo-Titi estava para mudar de função, de ajudante de cozinheira a concubina dos rebeldes, quando em uma fracassada tentativa de ação dos rebeldes conseguiu escapar e voltar para sua família, em Freeetown. O símbolo foi retirado de seu corpo graças a uma cirurgia que deixou uma grande cicatriz.
A história de Titi tem um final feliz: a volta para casa. Mas para a maioria das crianças-soldados, empunhar uma metralhadora significa deixar para trás o passado e a infância
Mais de 300.000 menores de 18 anos estão lutando nos conflitos que ensangüentam o mundo. Milhares e milhares de pequenos armados combateram e morreram na última década, seja nas frentes dos exércitos regulares, como nos diversos grupos de guerrilha.
A maioria deles tem entre 15 e 18 anos, mas não faltam recrutas de 10 anos e, em geral, percebe-se uma certa tendência na diminuição da idade.
Mais uma vez a África detém o primeiro lugar entre os continentes que vivem este terrível problema: só para citar um caso, em abril passado em Maputo, o governo falou de 120.000 soldados com menos de 18 anos. Mas também na Ásia, América e Europa não faltam situações de recrutamento e adestramento de crianças-soldados.
Nos últimos 25 anos, foi documentada a presença de crianças empunhando armadas em 25 países. Mesmo que muitas vezes sua presença é oficialmente admitida somente para cargos leves, os missionários constataram o uso dos menores em ações de cruel violência em Serra Leoa.
Na Etiópia, as meninas também são recrutadas, e calcula-se que elas constituam cerca de 25-30% das forças de oposição armadas. Outras vezes, verifica-se que os jovens se arrolam como “voluntários” para sobreviver à pobreza de suas famílias ou a uma vida abandonada: em 1997, cerca de 5000 jovens se arrolam no Exército da República Democrática do Congo depois de ouvirem o anúncio através do rádio.
Em uma das “guerras esquecidas” mais longas depois da Segunda Guerra Mundial, na interminável batalha entre o governo de Myanmar e as minorias étnicas birmanesas, as crianças são usadas como iscas para fazer explodir as minas antipessoais, um dos sistemas mais ferozes e terríveis que se possa imaginar.
E assim sendo, dessas crianças não ficamos sabendo nem o nome, porque nessas situações, como em outras de exploração, o “menor” sofre até o fim por causa da sua condição “minoritária”: é vendido, comprado, abandonado, torturado porque não tem voz. Seu grito não é sentido e não será levado em consideração.
E o mais desprezível é que, apesar das denúncias, este fenômeno está aumentando de modo vertiginoso nos últimos anos por causa da mudança da natureza de muitas guerras, que se tornaram hoje conflitos de tipo étnico, religioso ou nacionalista.
Os "senhores da guerra" não se deixam impressionar pelos Artigos da Convenção de Genebra sobre os direitos das crianças; pelo contrário, tiram proveito desta mão-de-obra que se compra somente com casa e comida.
As armas mais leves podem ser manuseadas por uma criança de até 10 anos, que pode adestrada para usar uma AK-47 como um adulto.
Crianças que matam, crianças que morrem. Em todo caso, vítimas.
Na última década, mais de dois milhões de crianças morreram nas guerras, mais de seis milhões ficaram inválidas ou gravemente feridas, um milhão ficaram órfãs ou perderam os pais no caos da guerra. Cerca de 20 milhões ficaram sem casa. A cada ano, por fim, cerca de 9.000 crianças são mutiladas ou morrem em decorrência das minas antipessoais.
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